O Assunto

By G1

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Luciano
 Feb 17, 2021


 Aug 24, 2020


 May 28, 2020

Eu
 Apr 10, 2020
rede tóxica de televisão.


 Sep 25, 2019

Description

Um grande assunto do momento discutido com profundidade. Renata Lo Prete vai conversar com jornalistas e analistas da TV Globo, do G1, da GloboNews e dos demais veículos do Grupo Globo para contextualizar, explicar e trazer um ângulo diferente dos assuntos mais relevantes do Brasil e do mundo, além de contar histórias e entrevistar especialistas e personagens diretamente envolvidos na notícia.

Episode Date
Assédio: a queda do presidente da Caixa
1791
Propostas de contato físico, insistência, constrangimentos em privado e também diante de terceiros. “Começaram em janeiro de 2019, quando ele assumiu”, relata a jornalista Heloísa Torres, depois de ouvir algumas das mulheres que denunciaram Pedro Guimarães por assédio sexual e moral. Foram ignoradas pelos sistemas de ouvidoria da Caixa Econômica Federal - quando não perseguidas e removidas de suas funções. Em conversa com Renata Lo Prete, a repórter da TV Globo em Brasília detalha esses depoimentos (“ele se aproximava das mulheres já pegando nelas”), que um dia depois de virem a público derrubaram um dos auxiliares mais próximos de Jair Bolsonaro. Participa ainda do episódio Andréia Sadi, apresentadora do Estúdio i (GloboNews) e colunista do g1, envolvida na cobertura do caso desde a primeira hora. Ela descreve os indícios de que o comportamento de Guimarães, sob investigação do Ministério Público Federal, era de amplo conhecimento da diretoria da CEF. Com suas atitudes, “Bolsonaro acaba dando carta branca” para isso, afirma. Andréia fala também da misoginia disseminada na atual administração e das dificuldades de Bolsonaro com o eleitorado feminino. “O governo não fez nada antes e não fez nada agora”, conclui, lembrando que o presidente esperou pela carta de demissão de Guimarães - a ser substituído por Daniella Marques, integrante da equipe do ministro Paulo Guedes.
Jun 30, 2022
MEC: corrupção, acobertamento e CPI
1619
O que começou como denúncia de um esquema de pastores com trânsito no Palácio do Planalto para traficar recursos da educação virou, três meses depois, um pedido de investigação sobre a conduta do presidente da República. E ameaça se transformar em mais uma Comissão Parlamentar de Inquérito no caminho dele - desta vez, a pouca distância das eleições de outubro. Neste episódio, Renata Lo Prete recebe os jornalistas Vera Magalhães e Bruno Tavares. O repórter da TV Globo, primeiro a revelar ligações telefônicas em que o ex-ministro Milton Ribeiro afirma ter sido alertado por Jair Bolsonaro da iminência da operação da PF na qual seria preso, detalha a origem e o alcance das escutas (mais de 1.700 áudios) captadas com autorização da Justiça. Ele também lembra o que acontece agora que a ministra do Supremo Carmem Lúcia acionou a PGR: “Augusto Aras vê elementos para investigar Bolsonaro? Isso terá que ser dito”. Na conversa com Renata Lo Prete, Vera é cética quanto às chances de o procurador-geral se mexer. Ainda assim, “essa apuração sobre vazamento de informações e obstrução do trabalho da polícia tem potencial de estrago para Bolsonaro”, avalia a colunista do jornal O Globo, comentarista da rádio CBN e apresentadora do programa Roda Viva, da TV Cultura. A partir da apresentação, nesta terça-feira, do pedido de abertura da CPI do MEC, Vera diz o que esperar do presidente do Senado, Rodrigo Pacheco (PSD-MG), de quem depende a instalação. Analisa ainda as movimentações dos governistas para evitar ou, no mínimo, empurrar ao máximo o início dos trabalhos da comissão.
Jun 29, 2022
Mulheres: direitos reprodutivos sob ameaça
1884
Primeiro, veio à tona o episódio de uma criança de 11 anos cuja interrupção da gravidez foi impedida por uma juíza em Santa Catarina. Depois, a atriz Klara Castanho viu sua história (um estupro seguido por gestação indesejada e doação do bebê) divulgada a todo país, contra sua vontade. Em meio a isso, nos Estados Unidos, a Suprema Corte derrubou a lei que garantia o direito ao aborto em todos os estados americanos desde 1973. “Controlar os corpos das mulheres é fundamental para os poderes autoritários e patriarcais”, resume Debora Diniz, professora da UnB e pesquisadora do Instituto de Bioética, Direitos Humanos e Gênero. Em entrevista a Julia Duailibi, a antropóloga relacionou as “duas histórias de violência” a elementos estruturais da misoginia, e explicou por que a educação sexual nas escolas é “fundamental”. Também neste episódio, o obstetra Olímpio de Moraes descreveu o código de ética médico para lidar com situações de interrupção de gravidez: “ouvir sempre e nunca julgar”. Ele, que também é diretor do Centro Integrado de Saúde Amaury Medeiros, hospital referência em saúde da mulher em Pernambuco, detalhou a lei de mais de 80 anos que regulamenta em que casos a Justiça permite o aborto: caso a mãe corra risco de morte ou a gestação seja resultante de estupro. “É muito raro a mulher vítima de violência continuar a gravidez”, relata. “Para ela, todo dia é uma tortura”.
Jun 28, 2022
Bolsonaro e os sentidos da necropolítica
1471
Diante das centenas de milhares de vidas brasileiras perdidas na pandemia, normalização e deboche. Em resposta à tortura e morte de um cidadão por policiais rodoviários federais, desconversa. Nos assassinatos de Bruno Pereira e Dom Philips, responsabilização das vítimas. Três exemplos da política de violência sistêmica que “glorifica a morte como espetáculo” e teve seu nome cunhado pelo filósofo camaronês Achille Mbembe. Para entender o fenômeno e como ele se impôs entre nós, Renata Lo Prete recebe neste episódio Silvio Almeida, professor visitante de Direito da Universidade de Columbia e presidente do Instituto Luiz Gama. Ele explica os traços comuns a esses e outros casos ocorridos sob “um governo que sabe operar os instrumentos de morte de maneira muito eficaz”. Para Silvio, a superação da necropolítica passa por um reordenamento em que “fome e miséria não sejam mais toleradas”, paralelamente à valorização de serviços fundamentais para a vida (como o SUS) e ao estabelecimento de políticas culturais que resgatem o “significado simbólico” dos que partiram.
Jun 27, 2022
Lembrar de Betinho para combater a fome
1600
Diante do retrocesso brutal na garantia do mais básico dos direitos, especialistas alertam: além de cobrar das autoridades que façam sua parte, retomando políticas públicas hoje esvaziadas, é urgente mobilizar a sociedade civil. Como fez, há três décadas, o sociólogo Herbert de Souza, idealizador de campanha pioneira para levar comida aos brasileiros mais pobres. Na largada do “Natal sem Fome”, do qual nasceu a ONG Ação para a Cidadania, 32 milhões enfrentavam esse drama. Hoje, os avanços significativos observados até 2014 foram perdidos, e o número mais recente é ainda pior que o do início dos anos 90: 33 milhões. Em conversa com Renata Lo Prete, Kiko Afonso, diretor-executivo da Ação, aponta retrocesso também na percepção da gravidade do problema. “Hoje, até mesmo quanto à fome há divisão”, diz. Contra todas as evidências, “uma parte da sociedade nega que ela exista”. Sem diminuir a importância das doações, especialmente no quadro alarmante do momento, Kiko ressalta a necessidade de conscientizar pessoas e empresas do imperativo de se envolver, abraçando a retomada de programas exitosos e elegendo candidatos comprometidos com a erradicação da fome.
Jun 24, 2022
Assédio: servidores na era Bolsonaro
1747
Muito antes de sofrer a emboscada na qual seria assassinado no Vale do Javari, o indigenista Bruno Pereira denunciava as ameaças que ele e colegas de serviço público sofriam da “máquina pesada” instaurada pelo atual governo, que descreveu como “autoritário” em sua última entrevista, à Folha de S. Paulo, detalhando de que maneiras o presidente da Funai o pressionava. Não era um caso isolado. A pesquisadora Michelle Morais de Sá e Silva reuniu dezenas de relatos de funcionários que, sob condição de anonimato, expuseram o clima de “medo coletivo” predominante nas mais diversas áreas da administração federal. Em conversa com Renata Lo Prete, a professora da Universidade de Oklahoma (EUA) explica, em primeiro lugar, o “embaralhamento” imposto: parcela expressiva dos servidores foi transferida de seus órgãos de origem sem lógica nem consentimento, comprometendo a eficiência do serviço prestado e, em vários casos, a saúde física e mental dos atingidos. Participa também do episódio o sociólogo Frederico Barbosa, pesquisador do Ipea e um dos organizadores do livro “Assédio Institucional no Brasil: Avanço do Autoritarismo e Desconstrução do Estado”. Ele explica que, de 2019 para cá, houve “mudança de método”: a atitude oficial agora, além de mais agressiva para com os indivíduos, visa também desqualificar os órgãos públicos. As pessoas “adoecem”, enquanto as instituições “perdem seu próprio sentido”.
Jun 23, 2022
Bolsonaro, Lira e o teatro dos combustíveis
1389
Desde o início do ano, a gasolina acumula alta de 9%, e o diesel, de 25%. Sob o impacto da crise internacional no setor de energia e do real desvalorizado, puxam uma inflação que corrói o poder de compra dos brasileiros e as chances de reeleição do presidente da República. Em resposta a este problema concreto, ele e aliados no Congresso escolheram um inimigo imaginário: a Petrobras. Uma ofensiva que escalou a patamar inédito a partir do último reajuste anunciado pela estatal, na sexta-feira passada. Em conversa com Renata Lo Prete, o jornalista Carlos Andreazza examina as ideias lançadas pelo consórcio Bolsonaro-Centrão para bombardear a empresa - de CPI a uma Medida Provisória que esvaziaria, numa canetada, as conquistas de governança trazidas pela Lei das Estatais, de 2016. Bolsonaro, diz o colunista do jornal O Globo e apresentador da rádio CBN, replica sua eterna “lógica do confronto” ao trocar o comando da Petrobras pela terceira vez. E o presidente da Câmara, Arthur Lira (PP-AL), “dá aula de patrimonialismo” quando defende a MP em nome de “maior sinergia entre as estatais e o governo do momento”. Como principal elemento da farsa, Andreazza aponta o fato de que, ao longo da cruzada, Bolsonaro e auxiliares jamais colocaram em discussão a política de Preço de Paridade Internacional (PPI), dado essencial da equação. Para o jornalista, do barulho todo restará uma conta de pelo menos R$ 50 bilhões que conseguirá, no máximo, “maquiar a bomba de gasolina até a eleição”.
Jun 22, 2022
ESPECIAL: Renata Lo Prete entrevista Simone Tebet
5604
Pré-candidata pelo MDB, Tebet anuncia que, caso assuma a Presidência, irá lutar pela adoção de políticas que busquem o “desmatamento zero”. Ela defende duas bandeiras como “principais objetivos” de sua candidatura: “erradicar a miséria” e garantir que “não se derrube uma árvore de forma ilegal no Brasil”. Entre suas propostas, sugere recriar um ministério específico para Segurança Pública e advoga pela manutenção do teto de gastos: “a responsabilidade fiscal existe para alcançar um fim, que é a responsabilidade social”. Perguntada sobre o que fará caso não esteja no 2º turno, respondeu que “no palanque eleitoral defendendo a democracia”. Aos 52 anos, Simone, que é senadora pelo estado de Mato Grosso do Sul, concorre pela 1ª vez. O Assunto apresenta a primeira rodada de entrevistas do jornalismo da Globo nas eleições deste ano. O encontro de 1h30 de duração foi transmitido ao vivo pelo g1 na tarde da segunda-feira (20) e publicado na íntegra como episódio especial do Assunto. Foram chamados os cinco pré-candidatos com melhor pontuação na pesquisa Datafolha do dia 26 de maio. A campanha do presidente Jair Bolsonaro, do PL, não chegou a enviar representante ao sorteio da ordem. A do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), enviou. Nenhuma das duas confirmou presença até a data-limite, 3 de junho. Ciro Gomes (PDT) foi entrevistado em 13 de junho. No dia 11 de julho é a vez de André Janones (Avante).
Jun 20, 2022
Bolsonaro e o octógono do golpe
1744
Em 2018, as urnas deram vitória ao candidato que se apresentou como “outsider”. Alojado no então nanico PSL, Jair Bolsonaro prometia governar contra toda a política tradicional. Quatro anos depois, concorre à reeleição pelo notório PL, mas mantém o discurso antissistema. “Ele tenta convencer sua base de que, mesmo com o Centrão, segue lutando”, afirma Marcos Nobre, autor do livro “Limites da Democracia”, recém-lançado pela editora Todavia. Para o núcleo duro de seu eleitorado, “deu certo”, resume o professor de filosofia da Unicamp, também presidente do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap). Em conversa com Renata Lo Prete, ele recupera uma linha do tempo que começa nos protestos de junho de 2013, passa pela Operação Lava Jato e chega à ascensão do “partido digital bolsonarista”. Nobre descreve uma tempestade perfeita em que se misturam radicalismo, relação umbilical com as Forças Armadas e Centrão no comando do Orçamento secreto. “Bolsonaro joga um jogo muito diferente daquele jogado pelas forças democráticas” diz, ressaltando que isso tende a se prolongar para além de outubro: “Para ele, ganhar eleição não é objetivo, mas instrumento”. Diante daquilo que descreve como iminente “caos social duradouro”, Marcos aponta que apenas a união dos mais diferentes setores pode se contrapor a “todas as possibilidades de golpe” que estão no horizonte. “É um momento sem volta: ou daremos um salto democrático, ou perderemos a democracia”.
Jun 20, 2022
Juros recorde nos EUA: alerta na economia
1385
Desde 1981, os americanos não sentiam na pele uma inflação tão alta, acima dos 8% ao ano. Uma reação colateral – e inesperada - à série de “pacotes fiscais substanciosos” que o presidente Joe Biden e seu antecessor Donald Trump despejaram para reanimar a economia. Neste episódio, Samuel Pessôa, pesquisador do Instituto Brasileiro de Economia da FGV, conversa com Julia Duailibi para descrever a sequência de “choques de demanda” que vêm impactando o mundo desde 2019: primeiro, a crise dos suínos na China; depois, a pandemia de Covid-19; e, por fim, a guerra na Ucrânia, “um dos celeiros de comida do mundo”. Os efeitos têm sido conhecidos no mundo todo, não só nos EUA, uma inflação generalizada, com destaque para os alimentos. O economista também explica que a contração monetária americana deve ajudar a segurar os preços, inclusive dos combustíveis, em todo o mundo, mas não de graça. “EUA crescendo menos é ruim para os emergentes”, afirma.
Jun 17, 2022
O assassinato de Bruno e Dom na Amazônia
1380
Mais de dez dias depois do desaparecimento do indigenista brasileiro e do jornalista britânico, o caso se encaminha para um desfecho. O principal suspeito, Amarildo da Costa Oliveira, o “Pelado”, confessou à Polícia Federal o assassinato e a ocultação dos cadáveres das vítimas - seu irmão Oseney também foi detido, mas não assumiu o crime. Nesta quarta-feira, Pelado levou os policiais até o ponto do rio Itaquaí onde teria descartado os corpos: resquícios de material humano foram encontrados e levados à perícia para a confirmação das identidades. Neste episódio do Assunto, Julia Duailibi conversa com Alexandre Hisayasu, repórter da TV Amazônica que acompanha o caso de perto. É ele quem narra o passo a passo das investigações, desde as condições precárias da polícia local até a intensa participação de grupos indígenas nas buscas de pistas sobre o paradeiro da dupla: “o Bruno era muito respeitado pelas lideranças da região”, lembra. Alexandre explica também as relações hostis entre o indigenista, que atuava na proteção da Terra Indígena Vale do Javari, e traficantes, garimpeiros e pescadores ilegais, que há anos o ameaçavam.
Jun 16, 2022
A batalha do ICMS
1336
De olho na reeleição, há meses Jair Bolsonaro tenta empurrar para os Estados, que arrecadam o Imposto Sobre Circulação de Mercadorias e Serviços, a responsabilidade pela escalada dos preços dos combustíveis, locomotiva da inflação. Em sintonia com o presidente, o Congresso se movimenta para limitar as alíquotas desse que é o principal imposto brasileiro, ameaçando os governadores com perdas de mais de R$ 100 bilhões, segundo estimativa do conselho dos secretários de Fazenda. "É uma guerra fiscal de despesas e receitas na federação", resume Élida Graziane, procuradora do Ministério Público de Contas de São Paulo. Segundo ela, a União vem progressivamente se desobrigando de despesas, ao mesmo tempo em que “inibe ganhos” dos outros entes. Antes do ICMS, lembra a professora da Fundação Getúlio Vargas, também o IPI foi garfado para segurar os preços dos combustíveis -e eles continuaram a subir. Na conversa com Renata Lo Prete, ela ainda descreve como esses movimentos comprometem, “numa só machadada", gastos com saúde, educação e segurança pública. "O governo federal tolhe o custeio abrupta e rapidamente, enquanto promete compensações que não passam de promessa".
Jun 15, 2022
ESPECIAL: Renata Lo Prete entrevista Ciro Gomes
5341
Pré-candidato pelo PDT, Ciro diz que, caso assuma a Presidência, irá “abrir mão da reeleição em troca das reformas do país”. Ele defende a necessidade de uma “reconstitucionalização do Brasil”, que seria feita a partir de "grande pacto" com governadores e prefeitos. Entre suas propostas, apresenta um programa de “renda mínima” para reduzir a miséria, além da federalização da educação básica e a proibição de militares em cargos políticos. Também sobre a presença das Forças Armadas no governo Bolsonaro, o pré-candidato chamou de “Frota boys” os ministros mais próximos ao presidente – uma referência ao general Sylvio Frota, um dos quadros mais radicais da ditadura militar. Aos 64 anos, Ciro concorre pela 4ª vez. O Assunto começa a primeira série de entrevistas do jornalismo da Globo nas eleições deste ano. A entrevista foi transmitida ao vivo pelo g1 na tarde da segunda-feira (13) e publicada na íntegra como episódio especial do Assunto. Foram chamados para a série de entrevistas os cinco pré-candidatos com melhor pontuação na pesquisa Datafolha do dia 26 de maio. A campanha do presidente Jair Bolsonaro, do PL, não chegou a enviar representante ao sorteio da ordem. A do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), enviou. Nenhuma das duas confirmou presença até a data-limite, 3 de junho. Na próxima segunda-feira (20), a entrevistada será Simone Tebet (MDB). No dia 11 de julho é a vez de André Janones (Avante).
Jun 13, 2022
O Censo e a população LGBTQIA+
1492
A Justiça Federal do Acre determinou que o IBGE inclua questões sobre orientação sexual e identidade de gênero no questionário do censo demográfico deste ano. No entanto, ao recorrer da decisão, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística alega que a única alternativa possível para a inclusão é um novo atraso: previsto originalmente para 2020, o Censo foi adiado pela pandemia e, no ano seguinte, por falta de orçamento. "O que não se pode esperar são mais dez anos para que finalmente haja a inclusão da população LGBTI+", diz o professor de Direito da Unifesp Renan Quinalha. Em conversa com Julia Dualibi, o autor do livro “Movimento LGBTI+: uma breve história do século XIX aos nossos dias”, conta que a reivindicação para a inclusão vem desde o começo dos anos 1980, pois "sem dados qualificados, a gente não tem políticas públicas efetivas e precisas". A consultora do IBGE Suzana Cavenaghi explica a complexidade da organização de uma pesquisa, “cujas perguntas são planejadas desde o fim do Censo anterior”. Embora a barreira principal seja a falta de tempo hábil - todas as perguntas necessariamente precisam passar por testes com a população -, ela alerta para o risco de uma eventual “desinformação” decorrente da reação dos entrevistados diante do questionamento. “Isso pode botar a perder toda uma operação censitária”.
Jun 13, 2022
A nova regra para os planos de saúde
1364
Talita Negri e sua filhinha de 3 anos percorrem quase mil quilômetros para que ela tenha acesso ao tratamento adequado para seu problema de saúde. Para atender Victoria, que tem microcefalia com comprometimento motor e intelectual, ela entrou na Justiça e exigiu que a empresa de assistência médica financiasse o custo de clínicas e profissionais especializados. “Hoje, ela consegue ficar em pé sozinha”, orgulha-se Talita em depoimento à equipe do Assunto. Histórias como essa podem se tornar ainda mais raras depois que o STJ, por 6 a 3, definiu que o rol de procedimentos da Agência Nacional de Saúde Suplementar deve ser considerado taxativo. Ou seja, os planos de saúde estão desobrigados a oferecer qualquer tratamento ou terapia que não esteja na lista da ANS. Mas, aponta a médica Lígia Bahia, há uma “vírgula” no texto que permite exceções. Em entrevista a Julia Duailibi, a professora e coordenadora do grupo de pesquisa sobre saúde coletiva da UERJ explica por que juízes de 1ª e 2ª instâncias devem “reconhecer os abusos e interpretações absurdas” dos planos de saúde. No entanto ela se preocupa com a “grande chantagem” da qual as empresas lançam mão para justificar aumentos de preço e influenciar as decisões da ANS – cuja função é defender o direito do consumidor, mas se coloca “descaradamente” do outro lado. Ela fala ainda sobre a pressão que tal medida pode colocar sobre o Sistema Único de Saúde: “O SUS ficou para os pobres e os planos de saúde, para os menos pobres”.
Jun 10, 2022
O Supremo polarizado
1705
No momento de maior tensão entre o chefe do Executivo e a Suprema Corte do país, o Tribunal Superior Eleitoral entrou em cena. Foi em outubro do ano passado que, por 6 a 1, o TSE cassou o mandato do deputado bolsonarista Fernando Francischini (ex-PSL, atual União Brasil), que divulgou em suas redes sociais fake news contra as urnas eletrônicas, colocando em xeque a lisura da eleição de 2018. O ex-parlamentar recorreu ao STF e coube ao primeiro ministro indicado por Bolsonaro ao Supremo, Nunes Marques, devolver o mandato. Durou pouco, quase nada: em menos de uma semana, a decisão chegou à Segunda Turma do Supremo que ratificou a sentença do TSE. Para Eloísa Machado, professora de direito constitucional da FGV, trata-se de uma medida que demonstra uma “harmonia” entre as duas cortes no objetivo de “preservar a integridade das eleições”, embora identifique um “jogo combinado” entre Nunes Marques e André Mendonça, segunda indicação do presidente ao STF. "O ambiente polarizado na política, acaba criando o mesmo no Supremo", explica Débora Santos, analista de Judiciário da XP Investimentos. Em entrevista a Julia Duailibi, a ex-secretária de Comunicação do STF reforça que "o ambiente não é de normalidade", mas que o senso de autopreservação do tribunal mais une os ministros do que os afasta.
Jun 09, 2022
A epidemia de atiradores nos EUA
1334
Buffalo, Uvalde, Chattanooga... Desde o início do ano, o país registrou 244 tiroteios, com 256 mortos, segundo dados do jornal The Washington Post. Apenas no final de semana passado, quando ainda estava fresco na memória o massacre das crianças em uma escola do Estado do Texas, foram 11 óbitos em diferentes cidades. Em conversa com Renata Lo Prete, Guga Chacra explica que são pelo menos dois tipos de violência em alta: a de gangues e a de atiradores solitários, estes praticamente um traço distintivo dos Estados Unidos, onde a proporção de armas por habitante é a maior do mundo. Comentarista da GloboNews e colunista do jornal O Globo, Guga cita fatores como o poder do lobby das armas e a composição da Suprema Corte para justificar seu ceticismo. “Não há a menor possibilidade de aumento significativo nas restrições", diz ele, a despeito da dor das famílias e do movimento de jovens nessa direção.
Jun 08, 2022
Os desaparecidos no Vale do Javari
1698
O sumiço do servidor licenciado da Funai Bruno Pereira e do jornalista britânico Dom Phillips ganhou repercussão internacional, chamando a atenção para o desastre em curso no território que abriga a maior concentração de povos indígenas isolados do mundo. Ambos com larga experiência em transitar na região, eles foram vistos pela última vez na manhã do domingo a caminho de Atalaia do Norte (AM), perto da fronteira com o Peru. Na viagem, Dom esperava colher depoimentos de moradores, permanentemente ameaçados por garimpeiros, madeireiros e todo tipo de atividade ilegal. Em entrevista a Renata Lo Prete, Eliesio Marubo, procurador jurídico da União dos Povos Indígenas do Vale do Javari (Univaja) relata as ameaças que Bruno, ele próprio e o colega Beto Marubo vinham sofrendo. Participa também o jornalista Rubens Valente, autor do livro “Os Fuzis e as Flechas”, sobre ataques a povos indígenas durante a ditadura. “Na ‘nova Funai’”, diz ele, usando expressão adotada no governo Bolsonaro, “o Estado encolheu”, ele resume. Na Amazônia em que o crime organizado ganha terreno, observa Rubens, “jornalistas e funcionários se tornaram mais um alvo”.
Jun 07, 2022
Guerra na Ucrânia: um exame aos 100 dias
1298
O governo de Kiev contabiliza cerca de 20% do território ocupado pelo invasor, baixas de até 100 soldados por dia, cidades destruídas e pelo menos 14 milhões de pessoas que precisaram abandonar suas casas, quando não o país. Para a Rússia, que imaginava conduzir uma operação rápida e com pouca resistência, o saldo inclui a perda de generais e o peso de sanções sem precedentes. Em comum, os dois lados seguem sustentando que alcançarão vitória no campo de batalha. “Essa é uma guerra muito cara e de efeitos de longo prazo para o mundo todo”, afirma o professor de Relações Internacionais Tanguy Baghdadi. Ele se refere à alta disseminada de preços e ao risco de desabastecimento de itens essenciais como grãos, combustíveis e fertilizantes. Em conversa com Renata Lo Prete, Tanguy analisa a posição norte-americana: "Podemos ver a formação de dois blocos absolutamente apartados". Seria o resultado do contencioso dos EUA com Rússia e China. Para ele, não será surpresa se Vladimir Putin anunciar “que venceu a guerra” tão logo assuma integralmente o controle do leste ucraniano e do corredor sul do país. Já a Ucrânia precisa de mais: não apenas encerrar o conflito, mas estabelecer acordos diplomáticos que evitem “uma outra guerra daqui a dois anos”.
Jun 06, 2022
O mistério da Covid na Coreia do Norte
1230
De março de 2020 até maio de 2022, enquanto o mundo acumulava mais de 6 milhões de mortos pela doença, o país não teve nem sequer um caso. Ou assim dizia o regime de Kim Jong-un, cujas estatísticas os organismos internacionais jamais puderam verificar. No entanto, desde um suposto “paciente zero”, anunciado há cerca de 20 dias, foram registrados casos de uma “febre misteriosa” em mais de 10% dos 25 milhões de norte-coreanos, e a comunicação estatal assumiu que a pandemia havia invadido as quase intransponíveis fronteiras da ditadura. Os óbitos, porém, não passariam de 70. O repórter da TV Globo Álvaro Pereira Júnior faz as contas: pelos dados oficiais, a taxa de mortalidade seria de 0,002%, um desempenho 65 vezes melhor que o da vizinha Coreia do Sul, “modelo no combate à Covid”. Em conversa com Renata Lo Prete, o jornalista, que estuda Coreia do Norte há 15 anos e foi dos poucos brasileiros a realizar reportagens no país, discute os motivos que teriam levado Kim Jong-un a decretar emergência de saúde pública e lockdown total, ao mesmo tempo recusando qualquer tipo de ajuda internacional, inclusive da parceira China. Isso tudo para depois afirmar, em nova reviravolta, que o surto já foi controlado. Embora “ninguém consiga entender bem”, as hipóteses mais aceitas são “medo de sabotagem” ou de “admitir fraqueza”. Álvaro comenta ainda os riscos para a população da “Coreia do Norte real”, que vive sob as mais precárias condições alimentares e sanitárias. Apesar disso, diz ele, “não há a menor possibilidade desta pandemia desestabilizar o regime”.
Jun 03, 2022
Máscaras de volta: onde e quando usar
1288
Desde o fim do primeiro trimestre, superado o pior momento da ômicron e diante do avanço na vacinação, essa barreira de contenção do contágio foi desaparecendo do rosto dos brasileiros. Só que agora, às portas do inverno, a média móvel de novos casos de Covid está em alta de 96%, na maior variação desde 31 de janeiro. Temendo sobrecarga no sistema de saúde, autoridades de vários estados resgataram a recomendação, já convertida em obrigatoriedade por uma série de prefeitos, de uso de máscara em locais fechados. O engenheiro biomédico Vitor Mori, entrevistado neste episódio, recomenda maiores cuidados neste período do ano. Em conversa com Renata Lo Prete, ele examina diferentes situações e seus respectivos graus de risco. Segundo ele, a decisão de utilizar ou dispensar máscara deve levar em conta fatores como ventilação do local, vulnerabilidade e doses de vacina da pessoa e do seu entorno. Em celebrações típicas desta época, como festas juninas, o integrante do Observatório Covid-19 BR sugere usar. “O risco ao ar livre cai muito, mas não é zero, especialmente se a gente tem uma interação face-a-face", diz.
Jun 02, 2022
Chuva extrema: tragédia dos mais pobres
1312
Em apenas 5 meses, 2022 concentra um quarto das mortes provocadas por chuvas no Brasil em dez anos. Foram 457 vítimas até o fim de maio, segundo informou ao Assunto a Confederação Nacional de Municípios. Desde a semana passada, entraram nessa conta catastrófica mais de cem moradores da região metropolitana do Recife. De suas famílias, quem sobreviveu perdeu tudo - a exemplo do que já havia acontecido este ano em estados como Bahia, Minas Gerais, São Paulo e Rio de Janeiro. Na capital pernambucana, “qualquer evento climático extremo acentua a vulnerabilidade", alerta Hernande Pereira, coordenador do Instituto para Redução de Riscos e Desastres da Universidade Federal Rural de PE. Ele explica a urgência de políticas habitacionais destinadas à população que vai morar em encostas, forçada a deixar o interior pela falta de trabalho e renda. Neste episódio, Renata Lo Prete conversa também com Maria Fernanda Lemos, professora de urbanismo da PUC-Rio. Coordenadora do capítulo sobre as Américas do Sul e Central do relatório mais recente do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), ela sinaliza a tendência de aumento na intensidade e duração das chuvas. E destaca como, além do gasto emergencial para conter danos, é necessário planejamento de longo prazo para adaptar infraestrutura e edificações a essa nova realidade. Do contrário, diz, “desastres e perdas serão cada vez maiores".
Jun 01, 2022
Colômbia: significados do 1º turno
1318
Gustavo Petro, de esquerda, que liderou a apuração com 40,4% dos votos, “personifica a insatisfação econômica e social” disseminada no país, campeão regional de desigualdade. Rodolfo Hernandez, populista de direita que obteve 27,9%, “personifica a insatisfação com a política”. Quem explica, direto de Bogotá, é Thiago Vidal, gerente de análise política para a América Latina da consultoria Prospectiva. Neste episódio, ele analisa a conjuntura antigoverno e antissistema que acabou por excluir, da etapa final, o grupo que manda na Colômbia há mais de duas décadas, atualmente representado pelo desgastado presidente Ivan Duque - candidato apoiado por ele, o ex-prefeito de Medellín Federico Gutierrez chegou em terceiro. Thiago observa que, seis anos depois do histórico (e até hoje não inteiramente implementado) acordo de paz com as Farc, esta é a primeira eleição “na qual questões de segurança pública e nacional não dominam o debate”. Na conversa com Renata Lo Prete, ele também avalia as chances de Petro e Hernandez no segundo turno, em 19 de junho, além de mostrar qual seria o grau de dificuldade de cada um para construir base no Congresso.
May 31, 2022
Fator diesel na equação dos combustíveis
1492
Usado para transportar mais de 60% das cargas no país, ele acumula alta de 47% nos últimos 12 meses, com efeitos “que se espalham por toda a economia”, afirma o especialista em infraestrutura Fernando Camargo. Para Jair Bolsonaro, que só pensa em escapar do custo eleitoral da explosão dos preços dos combustíveis, o diesel é um problema à parte, pois impacta diretamente uma categoria profissional que o ajudou a chegar ao Palácio do Planalto: a dos caminhoneiros. Somada à escassez do produto no mercado internacional, em consequência da guerra na Ucrânia, a disposição do governo para atropelar a Petrobras colocou no horizonte o risco de desabastecimento - que Camargo avalia, sem alarmismo, na conversa com Renata Lo Prete. Participa ainda Alvaro Gribel, colunista do jornal O Globo, para relembrar "os 10 dias que pararam o Brasil" na greve dos caminhoneiros, em 2018. Ele também atualiza as informações sobre o “bolsa caminhoneiro” que está no forno da equipe econômica, a um custo previsto de R$ 1,5 bilhão este ano.
May 30, 2022
Bolsonaro e a polícia da morte
1526
Desde sempre, o presidente estimula a violência e o descontrole das forças de segurança. No cargo, deu tratamento privilegiado a essas corporações, com as quais espera contar para afrontar a Constituição em caso de derrota nas urnas. Nesta semana, a Polícia Rodoviária Federal se viu exposta em 2 casos reveladores desse estado de coisas. No Rio, ganhou as manchetes ao participar, de forma até agora mal explicada, da operação que deixou mais de 20 mortos na Vila Cruzeiro. Em Sergipe, “um caso de tortura seguida de morte, onde os envolvidos são agentes da lei”. É como o professor de direito constitucional Oscar Vilhena (FGV-SP) descreve a barbárie a que policiais rodoviários submeteram Genivaldo de Jesus Santos, homem negro de 38 anos, no município de Umbaúba. Na conversa com Renata Lo Prete, o integrante da Comissão Arns analisa o papel do mau exemplo que vem de cima e a complacência de parte da sociedade com o atropelo dos direitos mais básicos, que vitima sobretudo os pobres. “Em nenhuma outra democracia no mundo a polícia chegou a padrões de tamanha violência", diz.
May 27, 2022
A matança no Rio de Janeiro
1631
Apenas na favela do Jacarezinho, há um ano, a polícia matou mais do que nesta terça-feira (25) na Vila Cruzeiro, uma das comunidades que formam o Complexo da Penha, na Zona Norte da capital fluminense. Entre as 25 vítimas, a cabeleireira Gabrielle da Cunha, atingida por um tiro dentro de casa, na vizinha Chatuba. Em conversa com Renata Lo Prete, Thainã de Medeiros, co-fundador do coletivo Papo Reto e testemunha da operação, relata o que viveu na mira de um fuzil. E reflete sobre o impacto de escolas e lojas fechadas, além do embaraço por que passam moradores impedidos de chegar ao trabalho em dias de confronto. “Não existe atestado-tiroteio”, diz. Participa também do episódio Bernardo Mello Franco, colunista do jornal O Globo e comentarista da rádio CBN. "A polícia do Rio está dentro de um caldo cultural, puxado por Jair Bolsonaro, de afronta à autoridade do Supremo", analisa, numa referência aos limites colocados pelo tribunal a operações em favelas durante a pandemia. Bernardo trata também das conexões entre a insegurança pública e a eleição que se aproxima: o governador Claudio Castro (PL), que herdou a cadeira do cassado Wilson Witzel, disputará o segundo mandato de olho principalmente no voto bolsonarista no estado. O ambiente, afirma o jornalista, é de "naturalização de uma polícia que morre e mata muito”.
May 26, 2022
Varíola dos macacos: o que já se sabe
1187
A doença, há muito tempo presente de forma controlada em regiões da África, agora surpreende ao aparecer em pelo menos 17 países - entre eles vários da Europa, EUA, Austrália e Israel. Diante do registro de mais de 200 casos, a OMS emitiu alerta e, no Brasil, o Ministério da Ciência e Tecnologia criou um comitê para acompanhar a situação. Umas de suas integrantes, a microbióloga Giliane Trindade, conversa com Renata Lo Prete para explicar que o vírus causador é, felizmente, muito menos letal do que aquele responsável pela outra varíola, erradicada em 1980 depois de causar 300 milhões de mortes ao longo do século 20. A atual se chama “dos macacos” porque neles foi primeiro identificada, esclarece a pesquisadora da Universidade Federal de Minas Gerais. Giliane também conta quais são os medicamentos e vacinas existentes no mundo para tratar a doença, cujo traço mais visível são lesões de pele que depois secam. Outro motivo para alívio, diz ela, é que, “diferentemente do Sars-Cov-2, esse vírus não tem transmissão facilitada”.
May 25, 2022
Doria fora: e agora, 3ª via?
1385
O ex-governador de São Paulo terminou por ceder às pressões do PSDB, retirando-se da disputa pela Presidência meses depois de vencer a prévia interna. Agora, tucanos caminham para uma tentativa de acordo com Cidadania e MDB em torno de um nome desta última sigla, o da senadora Simone Tebet. Em conversa com Renata Lo Prete, a jornalista Vera Magalhães resgata o processo de fritura que culminou no movimento desta segunda-feira, revelador de um partido que perdeu “alma e caráter”, diz. Colunista do jornal O Globo, comentarista da rádio CBN e apresentadora do programa Roda Viva (TV Cultura), Vera recomenda cautela na avaliação das chances desta que será a nona opção para emplacar uma candidatura competitiva da chamada “terceira via”. Segundo ela, Tebet não está livre de ser vítima da mesma lógica aplicada a Doria. Como pano de fundo, lembra a jornalista, há a cristalização das intenções de voto em Lula (PT) e Bolsonaro (PL), primeiro e segundo colocados nas pesquisas, respectivamente. Vera trata ainda da situação de Rodrigo Garcia, neotucano que sucedeu Doria no Palácio dos Bandeirantes, trabalhou para tirá-lo do páreo nacional e agora tem uma eleição difícil pela frente em São Paulo. Para Vera, se o PSDB perder o maior colégio eleitoral do país, que comanda desde 1995, “será terra arrasada”.
May 24, 2022
Mães do Brasil: direitos negados
1205
Prevista desde 1948 na Consolidação das Leis do Trabalho (CLT), a licença-maternidade está, no entanto, fora do alcance de parcela expressiva da população, dado o crescimento da informalidade. O percentual dos “sem-carteira”, hoje por volta de 40% da força, é até maior entre as mulheres. E a esse contingente “vários direitos não se aplicam", observa Cecília Machado, professora da Escola Brasileira de Economia e Finanças da FGV. Por isso, ela explica, é preciso discutir políticas de proteção a mães e recém-nascidos que vão além da licença, além de estimular maior participação dos pais nos cuidados, combatendo a ideia retrógrada de que os primeiros meses de vida seriam essencialmente tarefa das mães. Sobre a licença propriamente dita, Cecília rebate o argumento, vocalizado por personagens do governo, de que seria prejudicial às empresas. Todas as partes ganham com a segurança familiar, diz a pesquisadora. E, “quando é destruído o vínculo”, nos casos de demissão após o retorno, não só a mulher perde”, avalia. “As firmas também perdem todo o investimento que fizeram na funcionária”.
May 23, 2022
Por que homeschooling é contra os pobres
1151
A Câmara dos Deputados concluiu nesta quinta-feira a aprovação da lei que introduz o ensino domiciliar no país. O texto, que agora vai ao Senado, torna realidade uma bandeira levantada por Jair Bolsonaro e alguns de seus apoiadores mais ferrenhos desde o início do governo. Em conversa com Renata Lo Prete, Salomão Ximenes, professor de Políticas Públicas da Universidade Federal do ABC, critica duramente o projeto. Ele entende que, sob pretexto de atender ao desejo de algumas milhares de famílias, estão sendo retirados direitos consolidados de milhões de estudantes, colocando em risco a dura e tardiamente conquistada universalização do ensino básico no Brasil. “É um ataque frontal a pilares da educação pública”, afirma, mencionando a Lei de Diretrizes e Bases e o Estatuto da Criança e do Adolescente. O professor diz ainda que, negligenciando custos, a medida “empurra para os estados e municípios a responsabilidade pela implementação”. Também participa do episódio Maria Celi Vasconcelos, pesquisadora da UERJ e autora de livro sobre o tema. Para ela, o projeto atende a uma demanda legítima, mas regras de transição seriam bem-vindas. “Passamos da proibição para uma regulamentação semelhante à de países que a educação domiciliar para há muitas décadas contam com ensino domiciliar”, diz.
May 20, 2022
Altamira: crimes e ruínas da floresta
1710
O município mais extenso do país, no sudoeste do Pará, teve 12 assassinatos nas últimas duas semanas, todos com características de execução. Eles ocorrem num contexto de degradação social e ambiental diretamente associado às obras da hidrelétrica de Belo Monte, ao longo da década passada. Nesse período, a taxa local de homicídios se multiplicou por dez, entre outros indicadores deteriorados. Em conversa com Renata Lo Prete, a premiada jornalista Eliane Brum avalia que Altamira representa a vanguarda da destruição da Amazônia. "O que acontece aqui é uma espécie de crise climática localizada", diz ela, hoje moradora da cidade. Também documentarista e escritora, seu livro mais recente é “Banzeiro Okotó: Uma viagem à Amazônia Centro do Mundo”, que investiga desastres socioambientais, principalmente na área do Rio Xingu, que banha a cidade. Eliane descreve como vivem, nas periferias, “pobres urbanos” que foram expulsos de suas terras pela construção da usina. “Entender uma cidade amazônica é entender o que são as ruínas da floresta", diz.
May 19, 2022
Por que a dengue voltou com força
946
Desde janeiro, o Brasil registrou mais de 700 mil casos, superando o total do ano passado. O aumento de 150% nos registros é revelador do “padrão oscilatório” da doença, explica Claudia Codeço, coordenadora do InfoDengue, serviço da Fiocruz que monitora enfermidades transmitidas pelo mosquito Aedes Aegypti. Segundo a pesquisadora da Fiocruz, o surto de 2022, que já causou 265 mortes, concentra-se numa espécie de corredor que vai “do Tocantins ao oeste de Santa Catarina”. E se deve a fatores que incluem desde a longa temporada de chuvas deste ano, favorável à concentração de água parada, até o empobrecimento da população, que precariza a moradia. Neste episódio, Renata Lo Prete conversa também com Melissa Falcão, consultora da Sociedade Brasileira de Infectologia. Ela relembra bem-sucedidas campanhas de prevenção que remontam a 1950 - e que hoje fazem falta. “O principal ponto no qual o poder público pode influenciar é a infraestrutura”, diz, mencionando saneamento e coleta de lixo.
May 18, 2022
Finlândia na Otan: por que isso importa
1408
Assim como a também escandinava Suécia, o país abandonou décadas de neutralidade para pleitear entrada na Organização do Tratado do Atlântico Norte, aliança militar liderada pelos EUA. Em conversa com Renata Lo Prete, o professor de Relações Internacionais Oliver Stuenkel explica que o movimento revela mudança num cálculo de custo-benefício: o medo de agressão passou a superar o desejo de evitar contencioso com a vizinha Rússia. “Até recentemente, a neutralidade fazia parte não só da política externa desses dois países, mas era também um elemento da identidade política de ambos”, diz ele. Para Stuenkel, as potências do Ocidente estão “fechando fileiras", preparando-se para uma tensão permanente entre Europa e Rússia. “E algo parecido pode acontecer mais para frente em relação à China”, completa o analista. Mais um sinal, segundo ele, de que nenhum dos dois lados da guerra na Ucrânia irá recuar. "O cenário mais provável segue sendo um impasse que pode durar anos".
May 17, 2022
Petrobras e preços: fatos e fakes
1340
Em sua escalada ofensiva contra a Petrobras, Jair Bolsonaro, secundado pelos ministros Adolfo Sachsida e Paulo Guedes, agora fala em privatizá-la. “Eles sabem que estão mentindo”, diz sem rodeios Miriam Leitão, em conversa com Renata Lo Prete neste episódio. Comentarista da Globo, apresentadora de um programa na GloboNews, colunista do jornal O Globo e da rádio CBN, Miriam cita o caso da Telebrás, nos anos 1990, para lembrar que privatizações bem-feitas demoram. E explica que, ainda que a empresa saísse das mãos do Estado, a política de preços não seria muito diferente. "[Bolsonaro] quer se descolar do ônus de ser governante num momento em que os combustíveis sobem", avalia. Para ela, subsídios fazem sentido quando adotados para beneficiar os pobres, como no caso do gás de cozinha: “é difícil, num país tão desigual, você fazer um subsídio linear, você tem que transferir renda”. Sem esquecer que a alta de preços é, no momento, um fenômeno mundial, ela aponta o fator que agrava o problema por aqui: “Bolsonaro cria inflação" ao provocar crises institucionais.
May 16, 2022
O retrato do buraco negro
1222
Nesta quinta-feira, o mundo viu pela primeira vez imagens do Sagittarius A*, que fica no centro da Via Láctea, a galáxia do Sistema Solar. A conquista é do Event Horizon Telescope (EHT), iniciativa da qual participam centenas de cientistas de mais de uma dezena de instituições. A partir de 8 pontos da Terra eles "observam ao mesmo tempo o mesmo alvo e depois combinam todos os sinais”, em um “desafio tecnológico grande", explica Thaisa Storchi Bergmann, chefe do grupo de pesquisa em Astrofísica da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Em conversa com Renata Lo Prete, ela diz que as imagens do Sagittarius A* confirmam conclusões tanto dos vencedores do prêmio Nobel de Física de 2020 quanto da Teoria da Relatividade de Albert Einstein. “Os supermassivos surgiram no centro das galáxias”, ensina Thaisa. “E se formaram junto com elas, no início do Universo”. A astrofísica, responsável por uma importante descoberta sobre buracos negros no começo dos anos 1990, avalia que a foto é um "sucesso de todos” os que estudam o tema. “Culminou numa imagem que confirmou praticamente tudo que a gente vinha concluindo", comemora.
May 13, 2022
Tempestade armada na economia mundial
1354
Associada ao aumento de preços com a recuperação da atividade pós-pandemia, a inflação se consolidou como fenômeno global. E leva bancos centrais a decidir por apertos monetários, colocando recessão no horizonte. Dados divulgados nesta quarta-feira nos EUA mostram que a taxa acumulada em 12 meses chegou a 8,3% em abril, perto do maior patamar desde 1981. "Talvez ela tenha atingido um pico, mas nada indica que está a caminho de cair nos próximos meses", afirma o economista Otaviano Canuto em conversa com Renata Lo Prete. Segundo o ex-diretor do FMI e ex-vice-presidente do Banco Mundial, “a grande pergunta hoje é qual o grau de vulnerabilidade desse processo: o reajuste para baixo dos preços das ações, a alta das taxas de juros e as dificuldades de crédito". Hoje integrante sênior do Policy Center For The New South, Canuto aponta os fatores que diferenciam os temores atuais da crise de 2008, como a menor participação de instituições bancárias no sistema financeiro. E também os que aproximam, com destaque para os prêmios atrelados a ativos de elevada classificação de risco.
May 12, 2022
Bolsonaro e a anatomia do golpe
1412
Na segunda-feira, o TSE respondeu aos questionamentos do Ministério da Defesa sobre as urnas eletrônicas. As perguntas foram feitas no âmbito de uma comissão criada pelo tribunal para dar ainda mais transparência ao processo eleitoral, com as Forças Armadas chamadas a participar. “A partir desse convite, elas se empoderam. Aquela ideia de suposto ‘poder moderador' ganha materialidade e se arma uma tocaia”, avalia o jornalista Carlos Andreazza, para quem houve má-fé por parte dos militares. Em conversa com Renata Lo Prete, o colunista do Jornal O Globo e apresentador da rádio CBN diz que parte importante do golpismo surge de uma “leitura pervertida” do artigo 142 da Constituição, difundida pelo presidente a partir da célebre reunião ministerial de abril de 2020, ressoando até hoje. “O golpe está acontecendo agora e passa por essa dissolução de crença nos valores da República”, afirma Andreazza. Para ele, mais grave é o estado de golpismo permanente, “corroborado pelas Forças Armadas” onde os “pilares republicanos são carcomidos”.
May 11, 2022
O salário mínimo comido pela inflação
1531
Renda base para quase 25% da população, ele está há 3 anos sem aumento real. E deve terminar o governo Bolsonaro com o poder de compra menor do que há 4 anos, segundo cálculos divulgados pela corretora Tullet Prebon Brasil. “A renda está sendo corroída porque a inflação não é um fenômeno localizado”, explica Sergio Lamucci, editor-executivo do jornal Valor Econômico. Em conversa com Natuza Nery neste episódio, Lamucci detalha como a deterioração do poder de compra afeta mais quem ganha menos. Ele analisa como o Auxílio Brasil e o saque emergencial do FGTS “atenuam a situação” de quem mais precisa, mas que ambos também são corroídos pela alta nos preços. E fala como a economia, “calcanhar de Aquiles” de Bolsonaro, deve pesar na tentativa de reeleição: “quanto mais baixo o salário do eleitor, o presidente vai pior”, diz. “O eleitor tende a votar com o sentimento de como está o bolso”, conclui.
May 10, 2022
Lei de Cotas: 10 anos depois
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Em 2012 – na esteira de uma decisão do STF – o Executivo sancionou a lei que reserva 50% das vagas em instituições federais para negros, pardos, indígenas e pessoas de baixa renda. Para entender o que levou até essa política é preciso “recuar até 1988, no centenário da Abolição”, diz Edson Cardoso, doutor em Educação pela Universidade de São Paulo. Em conversa com Natuza Nery neste episódio, Edson relembra que a defesa das cotas nasceu de uma "longa caminhada", do movimento negro, do qual é militante histórico. Edson reforça que as cotas devem ser “política transitória” e reforça a necessidade de “universalizar o acesso à pré-escola e colocar recursos na escola pública, para que todos cheguem em condições iguais ao 3° grau” e haja uma mudança estrutural na sociedade. Participa também deste episódio Márcia Lima, professora do departamento de Sociologia da USP e coordenadora de pesquisa em justiça racial no Cebrap (Centro Brasileiro de Análise e Planejamento). Márcia explica como as cotas são “essencialmente socioeconômicas” e pontua como os dados de acesso ao Ensino Superior são “os mais exitosos de todos” em relação à diminuição das desigualdades. E conclui como a falta da realização do Censo – suspenso por falta de verbas - impede o entendimento sobre o impacto da lei no mercado de trabalho.
May 09, 2022
Violência contra os Yanomâmi: o pior momento
1477
Destruição da floresta, contaminação dos rios, disseminação de doenças e violência. Esses são alguns dos problemas decorrentes do crescimento do garimpo ilegal na maior Terra Indígena do Brasil, em Roraima, onde vivem cerca de 30 mil pessoas. Os riscos impostos aos Yanomâmi e aos Ye’kwana “não são de hoje”, destaca Mauricio Ye’kwana, mas cresceram expressivamente desde o início da pandemia: “São muito mais pessoas, mais barcos, mais aeronaves. E com esse aumento, crescem a violência e as doenças”. Recentemente, a denúncia de mais um crime no território movimentou redes sociais, agentes de investigação e os poderes Judiciário e Legislativo. Na pequena comunidade Aracaçá, uma menina de 12 anos teria sido estuprada e morta por ação de garimpeiros e os habitantes teriam deixado o local. No episódio 700 do Assunto, o diretor da Hutukara Associação Yanomâmi relata à Julia Duailibi a escalada do garimpo e da criminalidade, cujo modus operandi envolve presença de facções criminosas altamente armadas, aliciamento de jovens com bebida alcóolica e drogas, além do abuso sexual de menores. “O garimpo não tem lei”, resume Mauricio. Estima-se que atualmente a terra demarcada dos Yanomâmi esteja invadida por 20 mil garimpeiros, que se multiplicam diante da “ausência total do Estado”, cuja responsabilidade constitucional é proteger o território e os povos tradicionais. Abandonados à própria sorte devido à inação do governo Bolsonaro, da Funai e dos órgãos de fiscalização, os indígenas enfrentam os impactos sociais e ambientais do garimpo. “Não consigo mais tomar banho onde eu tomava, beber água onde eu bebia, não consigo mais pescar porque os peixes morreram. Pra onde que eu vou?”
May 06, 2022
Os limites do Auxílio Brasil
1128
No fim de 2021, quando a popularidade de Bolsonaro estava em seu nível mais baixo, o governo federal conseguiu aprovar a substituição do Bolsa Família (programa criado durante a gestão Lula) por uma marca para chamar de sua. O piso do benefício subiu para R$ 400 mensais, mas seu redesenho pouco focalizado pode criar distorções. “Não é adequado porque não é equitativo", resume Letícia Bartholo, especialista em políticas públicas de combate à pobreza. Em entrevista a Julia Duailibi, ela explica que a busca pelo registro em busca dos pagamentos cresceu expressivamente desde o início do ano. De acordo com a Confederação Nacional de Municípios, mais de 1 milhão de famílias estão na fila, fora do alcance do auxílio. “Essa é a fila oficial. Há ainda uma fila que a gente não vê”, afirma ex-secretária nacional adjunta de Renda e Cidadania, uma vez que o Ministério da Cidadania oculta os dados das famílias habilitadas ao benefício, mas que não recebem. O texto original do Auxílio Brasil previa pagamentos somente até dezembro deste ano, o que deve mudar com o aval do Congresso à MP que torna o programa permanente, ao custo de R$ 90 bilhões ao ano.
May 05, 2022
O aborto (e a disputa política) nos EUA
1468
A “Roe vs Wade”, decisão de 1973, garante acesso à interrupção da gravidez em todos os estados norte-americanos. E agora pode estar prestes a ser derrubada – como indica o vazamento de um rascunho da decisão dos ministros da Suprema Corte. O documento indica que a regra – nascida da contestação de uma grávida solteira mãe de 3 filhos - deve ser anulada pela maioria do Judiciário dos EUA. “Chegou o grande momento que os conservadores esperaram por 49 anos”, explica Guga Chacra, comentarista da Globo em Nova York em conversa com Julia Duailibi. Guga ressalta como as mulheres pobres serão as mais prejudicadas, recorrendo a clínicas clandestinas. Ele lembra como pautas religiosas foram incorporadas por republicanos, para quem o aborto é um “mobilizador de votos”. E como democratas devem usar o tema para convencer o eleitorado a comparecer às eleições de meio de mandato marcadas para novembro. “A tendência é que [democratas] percam a maioria na Câmara e no Senado”, conclui.
May 04, 2022
Lula x Bolsonaro – atos de 1° de maio na corrida eleitoral
1396
O Dia do Trabalhador foi de manifestações para apoiar os dois pré-candidatos que lideram as pesquisas. Lula foi a evento organizado pelas centrais sindicais, com discurso voltado à economia. Bolsonaro participou de ato em Brasília e falou, por vídeo, a apoiadores na Avenida Paulista em manifestação contra o STF e a favor do deputado Daniel Silveira. Em comum: a baixa adesão popular. Neste episódio, Julia Duailibi conversa com o analista político Thomas Traumann. Colunista da revista Veja e do site Poder 360, Traumann avalia como as mobilizações foram uma espécie de “aquecimento antes do início do campeonato”, ao sinalizar que a campanha deve ganhar tração a partir de junho. Traumann aponta as dificuldades de Lula e Bolsonaro no atual momento. De um lado, Lula e o PT tem a agenda de “não ser Bolsonaro”, sem apresentar um programa de governo. No campo Bolsonarista, Traumann aponta que o presidente está “ditando esse começo” de disputa e adota a estratégia de tornar a eleição e a política “insuportáveis”, a ponto de provocar o desinteresse de parte da população. E conclui como grupos bolsonaristas buscam pretextos para contestar a eleição caso o presidente seja derrotado nas urnas.
May 03, 2022
Racismo e impunidade no futebol
1469
Os casos se acumularam na última semana durante a principal competição sul-americana. Torcedores do Flamengo, Corinthians, Palmeiras, Fortaleza e Red Bull Bragantino foram vítimas de gestos racistas em jogos na Libertadores – com pouca ou nenhuma ação de autoridades contra os criminosos. Para que punições sejam efetivas, é preciso "envolver os clubes", avalia Marcelo Carvalho, diretor-executivo do Observatório da Discriminação Racial no Futebol, em entrevista a Julia Duailibi. Coordenador de um relatório que indica que apenas 25% dos casos de racismo resultam em julgamento, Marcelo relaciona o problema no esporte a uma sensação generalizada de impunidade: “Temos uma lei de racismo que trata o crime como inafiançável e imprescritível, mas não temos ninguém preso por racismo no Brasil”. Ele pontua três pilares para combater este crime dentro do estádio: punição, educação e conscientização. Ainda neste episódio, Leda Costa, pesquisadora do laboratório de Estudos em Mídia e Esporte da Universidade Estadual do Rio de Janeiro, fala sobre a cultura de "vale-tudo" dentro dos estádios, onde racismo e homofobia são considerados "brincadeiras". Ela aponta a necessidade de problematizar violências verbais contra mulheres e o público LGBTQIA+. "A gente precisa fazer com que os estádios parem de ser 'escolas' formadoras de preconceito", conclui.
May 02, 2022
A hepatite misteriosa em crianças
1104
Os casos começaram a assustar no Reino Unido. Em questão de dias, 12 países já registravam mais de uma centena de crianças com um quadro hepático incomum: em nenhum dos pacientes foram encontrados os vírus que causam as hepatites já conhecidas até aqui. Enquanto autoridades sanitárias nacionais investigam as causas, a Organização Mundial da Saúde fez um alerta global de que está monitorando a doença. O médico hepatologista Mario Kondo, professor da Escola Paulista de Medicina, afirma que, apesar desta “hepatite misteriosa” ter sintomas semelhantes aos casos convencionais, ela apresenta incidência muito maior de quadros graves. “A do tipo A, mais comum onde não há vacinas, tem 1 caso grave para 100 crianças”, lembra. “Agora, a proporção sobe para 1 caso a cada 10 crianças”. Entrevistado por Julia Duailibi neste episódio, Kondo explica que a relação entre o coronavírus e o adenovírus, identificados em várias das crianças testadas, parece mais “coincidência do que causa”. A pesquisadora Mellanie Fontes-Dutra, professora da Escola de Saúde da Unisinos, reforça esta hipótese: “Mecanismos não infecciosos também podem ser importantes para fechar o quebra-cabeça”. Enquanto as respostas não vêm, Mellanie atua para combater as fake news que relacionam a inflação no fígado ao uso de vacinas. “Não há relação justamente porque as crianças não haviam recebido vacina da Covid”, conclui.
Apr 29, 2022
Rússia x Europa: a guerra pelo gás
1302
O conflito na Ucrânia escalou a um patamar inédito nesta semana. As movimentações tiveram início quando mais de 40 países (entre eles EUA e Alemanha, principal comprador do gás russo) anunciaram uma nova rodada de doações financeiras e militares a Kiev: desta vez, foram enviados armamentos de maior poder ofensivo, como tanques e blindados. O Kremlin reagiu ameaçando uma resposta nuclear e o início da Terceira Guerra Mundial. “Estamos em um momento muito crítico da guerra”, resume Felipe Loureiro, coordenador do curso de Relações Internacionais da USP. Em entrevista a Julia Duailibi, ele explica ainda o avanço do exército de Putin na Transnístria, região de maioria russa que busca independência da Moldávia, que abre o risco de “um novo front de batalha” nesta guerra. A tensão entre Rússia e Europa se acirrou ainda mais com o anúncio da estatal Gazprom de interromper o fornecimento de gás à Polônia e à Bulgária, dois países que se negaram a pagar o contrato em rublos, exigência russa pós-sanções econômicas. Loureiro reforça que a “Europa é dependente do gás russo” e que a escassez desta fonte de energia pode desencadear uma onda global de inflação de alimentos. “A segurança alimentar mundial pode ser alarmante nos próximos anos”.
Apr 28, 2022
Elon Musk e o futuro do Twitter
1617
Dono de uma fortuna de US$ 264 bilhões, o empresário chegou a um acordo com a rede social. As especulações e recusas duraram quase um mês - e terminaram com uma aquisição que vai custar US$ 44 bilhões. Musk defende menos moderação de conteúdo, o que “pode piorar o ambiente da plataforma”, na avaliação de Carlos Affonso Souza, professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (Uerj) e diretor do Instituto de Tecnologia e Sociedade (ITS). As mudanças no funcionamento do Twitter dependem ainda da conclusão da aquisição - o que pode demorar até o fim do ano -, mas o anúncio do acordo tem impactos imediatos: “se existe uma certeza, é de que mudanças vão acontecer”, diz Carlos. Para ele, “o comportamento de Musk na rede social” e as falas por “liberdade de expressão absoluta” incentivam e estimulam a desinformação e ataques – o que pode ter influência no contexto eleitoral brasileiro deste ano. Participa também do episódio o advogado Caio Vieira Machado, do Instituto Vero. Para Caio, Musk enfrentará desafios econômicos e jurídicos para implementar “sua própria visão de liberdade de expressão”. O advogado sinaliza ainda porque é um problema Musk controlar a rede social que se tornou um importante meio de comunicação de governos e governantes.
Apr 27, 2022
Bolsonaro e mais uma crise aberta com o STF
1597
O ápice da tensão entre Executivo e Judiciário foi no 7 de setembro de 2021. Pelo menos até aqui. “É muito explícito que [Bolsonaro] pretende continuar atacando as instituições”, resume Celso Rocha de Barros em conversa com Julia Duailibi. Sociólogo e colunista do jornal Folha de S. Paulo, Celso analisa a estratégia do presidente ao retomar o estado de conflito com o Supremo – depois de beneficiar o deputado federal Daniel Silveira (PTB-RJ) com o perdão da pena, apenas um dia depois de o parlamentar ser condenado, por 10 votos a 1, a 8 anos e 9 meses de prisão, além da perda de mandato e dos direitos políticos. “Um desastre”, resume Celso sobre a conivência das instituições diante das afrontas à Corte – uma ofensiva na retórica golpista e fim das ilusões sobre qualquer possibilidade de moderação. "O Centrão tentou vender isso pros aliados, mas é mentira”, conclui. Participa também Wallace Corbo, professor de Direito Constitucional da Fundação Getúlio Vargas. Ele aponta os possíveis destinos jurídicos de Silveira e os fundamentos do decreto presidencial, e explica o “desvio de conduta” no uso dos indultos: seja no caso individual ou no caso coletivo (a exemplo do perdão a crimes policiais), ele “usa mais como um instrumento de governo do que de política criminal ou clemência”.
Apr 26, 2022
Desglobalização: causas e implicações
1609
Processo construído ao longo de séculos e acelerado nas últimas décadas, a globalização está em xeque ao enfrentar uma pandemia e uma guerra. “[A globalização] foi planejada. A desglobalização, não”, diz Tatiana Roque, professora de matemática, história das ciências e filosofia na UFRJ. Para ela, este fenômeno recente ainda tem significado fluído, mas pode ser entendido como a “desconexão de setores da produção dos países em relação às regras globais”, com aspectos mais amplos que somente o econômico. Na entrevista a Natuza Nery, a pesquisadora descreve os movimentos liberais globais que instituíram os mecanismos comerciais no último século como “lógicas de proteger o mercado das decisões políticas nacionais” que, hoje, estão em crise e cujo resultado é a perda de força de todas as organizações multilaterais e o crescimento de movimentos protecionistas e nacionalistas, inclusive de viés autoritários. No campo econômico, Tatiana explica a estratégia chinesa de “circulação dual” para ser menos dependente da cadeia global de suprimentos – e como ela foi acentuada durante a crise sanitária e adotada pelos EUA e por muitos países europeus.
Apr 25, 2022
O desmonte da Lei Rouanet
1402
Desde o início do mandato, Jair Bolsonaro ameaça “desconstruir muita coisa” - e a cultura foi uma das áreas onde seu governo trabalhou mais ativamente para isso. Além do veto à Lei Paulo Gustavo, que destinaria recursos federais para compensar as perdas do setor durante a pandemia, destaca-se a perseguição à Rouanet - legislação de mais de 30 anos, que financia projetos culturais por empresas privadas via abatimento fiscal. Como define Cris Olivieri, advogada especializada em políticas culturais, uma série de alterações vigentes a partir de fevereiro já foram “muito impactantes para o setor”: corte de valores em até 50% para projetos de teatro, museus e espetáculos musicais e redução no prazo de captação para 24 meses. E que o que mais preocupa: a concentração de poder na aprovação final de projetos é feita pelo secretário especial da Cultura – regra que gera distorções, caso das declarações do ex-secretário de Fomento à Cultura, no qual garante a sua base a liberação de recursos para projetos culturais em prol do armamento. Em entrevista a Natuza Nery, Cris explica que o valor médio de pagamento da lei é de R$ 3.500, ou seja, “o dinheiro fica na mão de uma cadeia gigante de profissionais”. Trata-se, explica a advogada, de um setor que representa 2,6% do PIB e emprega 5,5 milhões de pessoas: “um dos poucos que impacta outros 60 setores da economia”.
Apr 22, 2022
Fim da emergência sanitária: risco no combate à Covid
1269
Pela primeira vez desde fevereiro de 2020, o Ministério da Saúde reduz o nível máximo de alerta em relação à pandemia. O anúncio de Marcelo Queiroga – feito em cadeia nacional no domingo de Páscoa - derruba mais de duas mil normas de esferas estadual e municipal em todo o país e vai na contramão da recomendação da OMS, que reforça o status de emergência internacional. Para Deisy Ventura, jurista e professora da Faculdade de Saúde Pública da USP, trata-se de mais uma “irresponsabilidade concreta” do governo federal na condução das medidas sanitárias contra a Covid. Em entrevista a Natuza Nery, ela recorda que o Brasil iniciou a pandemia “com a pior resposta” e que tenta, agora, encerrar sua relação com a doença da mesma forma. “É mais um crime contra a saúde pública”, afirma sobre a decisão que foi apresentada à população brasileira sem os instrumentos legais e os detalhes técnicos pelo ministro da Saúde. Para Deisy, trata-se de uma “declaração falsa” para o fim da pandemia, cujo objetivo é somente a “produção de conteúdo para a campanha eleitoral” de reeleição de Jair Bolsonaro.
Apr 20, 2022
Os áudios que atestam tortura no regime militar
1878
Trechos de sessões do Superior Tribunal Militar (STM) publicados pela jornalista Miriam Leitão, comentarista da TV Globo e colunista do jornal O Globo, revelam abusos contra direitos humanos cometidos durante a ditadura. Em conversa com Natuza Nery, o advogado Fernando Augusto Fernandes - autor da ação que, com aval do STF, disponibilizou ao público os áudios - relata a pesquisa de quase 25 anos para chegar às gravações. Seu conteúdo confirma que os ministros do STM tinham “pleno conhecimento das torturas”, institucionalizadas como “política de Estado” durante o regime. Para o advogado, só chegaremos a uma democracia plena “no momento em que as Forças Armadas pedirem desculpas públicas” pelas arbitrariedades cometidas. Também neste episódio, Pedro Dallari, coordenador da Comissão Nacional da Verdade, condena a reação do vice-presidente Hamilton Mourão, que riu ao ser questionado sobre os áudios: “Profunda desumanidade”. Ele recorda o fato de que mais de 200 casos de desaparecimento seguem abertos e suas famílias não puderam “velar e sepultar seus corpos”. Sobre a Comissão, ele comenta importantes episódios na busca por memória. “As próprias Forças Armadas teriam interesse em limpar essa mancha em sua trajetória”.
Apr 19, 2022
Os políticos de mandato virtual
1389
Eleitos na onda do bolsonarismo, eles pregaram o discurso da nova política. Além de terem nascido de um mesmo movimento, Gabriel Monteiro (vereador da capital fluminense) e Arthur do Val (deputado estadual em São Paulo) têm em comum o fato de terem milhões de seguidores nas redes sociais antes mesmo de serem eleitos. Agora, veem seus mandatos em risco por diferentes crimes. “Eles têm casca de novidade, discurso de renovação, mas trazem coisas muito velhas de volta à política”, analisa Bernardo Mello Franco em conversa com Natuza Nery. “A mesma tela do celular que ajudou na eleição, pode ser também pivô da cassação” dos dois, diz Bernardo, sobre os casos de Gabriel Monteiro – investigado por registrar sexo explícito com uma adolescente – e Arthur do Val – que em um áudio gravado fez comentários machistas e misóginos sobre refugiadas ucranianas. Colunista do jornal O Globo e comentarista da rádio CBN, Bernardo pontua que, diferente de nomes como Wagner Montes, Celso Russomanno e Roberto Jefferson (todos alavancados por suas popularidades no rádio e na TV), o que diferencia os casos de agora é o fato de que tanto Gabriel Monteiro quanto Arthur do Val não terem “entrado nas regras do jogo”. “A novidade é que eles não têm interesse pelo mandato parlamentar”, conclui Bernardo. Também neste episódio, Fabio Malini, coordenador do Laboratório de Estudos sobre Imagem e Cibercultura da Universidade Federal do Espírito Santo, discute as relações entre entretenimento e política na internet e comenta a confluência com outro fenômeno: quando celebridades falam de política.
Apr 18, 2022
A nova fase da guerra na Ucrânia
1575
Depois de seis semanas de invasão russa, a maior batalha entre as duas nações parece estar se aproximando. O exército de Vladmir Putin projetou uma ofensiva em todo território ucraniano, mas, barrado nos arredores da capital Kiev, reorganizou suas tropas para dominar a região leste. Ao mesmo tempo, Volodymyr Zelensky segue em campanha para receber armas e equipamentos de seus aliados no Ocidente. O conflito agora, avalia Oliver Stuenkel, perde a “assimetria militar” e se concentra em “menor território”: “Deve aumentar a violência e a intensidade”, afirma em entrevista a Julia Duailibi. O acirramento ocorre também na propaganda de guerra. Enquanto Moscou informa ao mundo que rendeu mais de mil soldados rivais e que tomou o porto de Mariupol – cidade que, agora, é o epicentro dos combates –, autoridades ucranianas acusam os russos de cometer crimes de guerra – a denúncia mais recente é de uso de armas de fósforo branco em ataques, proibida desde 1997. Stuenkel, que é professor de relações internacionais da FGV e autor do livro “O mundo pós ocidental”, explica que não há mais clima para negociações diplomáticas e que a “radicalização dos dois lados torna pouco provável um acordo de paz”.
Apr 14, 2022
Sarampo: riscos de surtos e importância da vacina
1354
Em 2016, a Organização Panamericana de Saúde conferiu ao Brasil o certificado de que o vírus fora eliminado do país. Uma conquista que duraria pouco: apenas três anos depois, o Ministério da Saúde contabilizaria quase 12 mil novos casos da doença - crescimento proporcional ao recuo na cobertura vacinal infantil. Desde que o sarampo voltou aos registros oficiais, já são mais de 40 mil pacientes e 40 mortes, metade delas em crianças abaixo de 5 anos de idade. Em entrevista a Julia Duailibi, o médico Marco Aurélio Sáfadi, presidente do Departamento de Infectologia da Sociedade Brasileira de Pediatria, conta que, como professor, “formou várias gerações de médicos” que nunca haviam visto um caso sequer de sarampo – e que, hoje, precisam de treinamento específico para diagnosticar a doença, cujos sintomas iniciais se assemelham a de outras viroses. Sáfadi descreve também o ciclo infeccioso do vírus, seu índice de transmissibilidade e seu risco de hospitalização e doença. Este ano, já são 13 casos confirmados e cerca de 100 suspeitos da doença, sendo 25 deles no estado de São Paulo, onde a epidemiologista Regiane de Paula é coordenadora de controle de doenças. Também neste episódio, ela fala sobre o fenômeno recente da queda na vacinação, consequência de fake news e desinformação.
Apr 13, 2022
França: Macron x Le Pen de novo no 2° turno
1451
Cinco anos depois de ser eleito, o presidente francês volta a enfrentar sua adversária de 2017. Um primeiro olhar pode indicar um cenário parecido com a última eleição, mas agora os discursos são diferentes: “vai ser uma eleição a favor ou contra a política liberal do Macron, mais do que uma briga entre a extrema-direita e o centro democrático”, analisa o cientista político Miguel Lago, que leciona na Universidade Columbia, em Nova York, e na Sciences Po, em Paris. Na conversa com Julia Duailibi, Lago analisa o que deve ocorrer nas próximas duas semanas antes do 2° turno. Para barrar a extrema-direita, segundo ele, “Macron vai precisar ter o candidato socialista Mélenchon o apoiando explicitamente”. Lago lista ainda as implicações para geopolítica da Europa em tempos de guerra na Ucrânia e as possíveis consequências para o Brasil.
Apr 12, 2022
Ômicron: todas as letras das subvariantes
1308
Casos em alta nos EUA, em países da Europa e principalmente na China, onde os 26 milhões de habitantes de Xangai foram colocados em lockdown. Enquanto isso, o Brasil vive período de melhora nos indicadores e derrubada quase completa das restrições da pandemia, mas não está isolado do mundo. Há poucos dias, foi confirmado o primeiro caso entre nós de uma recombinação de linhagens da variante ômicron do coronavírus chamada XE, que já infectou mais de meio milhão de moradores do Reino Unido. Uma sigla nascida da mistura de outras duas (BA.1 e BA.2) e que tem como “irmãs” a XD e a XF. Mas não é preciso se assustar com a sopa de letras, nem decorá-las, garante Átila Iamarino. São apenas “várias versões da ômicron”, simplifica o biólogo e divulgador científico. Até aqui, nenhuma apresentou mudança significativa o bastante para tornar o vírus tão perigoso quanto já foi, desde que a pessoa esteja imunizada. Daí o imperativo, diz Átila, de fazer a vacinação avançar sem parar, além de seguir o bom senso na manutenção dos cuidados, especialmente para proteger os grupos mais vulneráveis. Na conversa com Renata Lo Prete, Átila analisa os fatores por trás do surto em cada um dos países mais afetados agora. E se mostra otimista quanto ao Brasil. Segundo ele, por “um motivo bom” (altas taxas de vacinação) “e outro ruim” (muitos casos de ômicron no início do ano), temos uma barreira mais sólida no momento.
Apr 11, 2022
Braga Netto: modos de Bolsonaro usar
1600
Em seguidos eventos, o presidente da República vem renovando os ataques a ministros do Supremo e os sinais de que não pretende se conformar com uma eventual derrota nas urnas em outubro. Faz parte do pacote o aceno permanente aos militares - como na cerimônia recente em que qualificou o Ministério da Defesa como superior aos demais “por ter a tropa na mão”. É da Defesa, aliás, que Jair Bolsonaro retirou o general da reserva recém-filiado ao PL dado como certo no posto de vice da chapa. Walter Braga Netto seria “uma espécie de Hamilton Mourão, porém fiel e sem agenda ou cabeça própria”, nas palavras de Christian Lynch, professor no Instituto de Estudos Políticos e Sociais da UERJ. E ainda renovaria o seguro anti-impeachment do presidente - assim como o vice atual, é uma figura que o Congresso não se animaria a instalar no Palácio do Planalto. Na conversa com Renata Lo Prete, Lynch passa em revista a trajetória de Braga Neto, que foi interventor federal no Rio de Janeiro durante o mandato de Michel Temer e teve atuação para lá de questionada como coordenador, na Casa Civil, do enfrentamento da pandemia. O cientista político avalia que as ameaças de Bolsonaro vieram para ficar. “Precisa encenar o tempo todo que teria o poder de dar um golpe”, diz ele, que prevê alta instabilidade em caso de fracasso do projeto reeleitoral.
Apr 08, 2022
Fake News: o que muda com o projeto de lei
1506
Desde o vale-tudo das eleições de 2018, instituições do Estado e organizações da sociedade buscam formas de combater a desinformação. No Congresso, o tema ganhou força a partir de uma CPI Mista instalada em 2019, mas seguidamente esbarrou em interesses econômicos e políticos conflitantes. Agora, a seis meses do primeiro turno, a Câmara está prestes a votar o PL 2630, que regula plataformas de mídia social com o anunciado propósito de conter a disseminação de notícias falsas. Embora ressaltando que “o PL, na verdade, trata pouco de desinformação", o professor da USP Pablo Ortellado enxerga avanços: “O público é beneficiado, principalmente pela moderação de conteúdo". Mas quem ganha mesmo com a versão atual do texto são os parlamentares, diz a Renata Lo Prete o colunista do jornal O Globo, pois a imunidade de que desfrutam é estendida à sua atuação nas plataformas, garantindo uma espécie de “passe livre” no meio digital. Participa ainda do episódio o repórter do Valor Econômico Raphael Di Cunto, que resgata a origem do projeto, explica o jogo de forças em torno dele e antecipa os próximos passos da tramitação.
Apr 07, 2022
Bolsonaro e Petrobras: por que deu ruim
1778
Depois de derrubar dois presidentes da estatal na tentativa de interferir nos preços dos combustíveis, Jair Bolsonaro se associou aos donos do PP no patrocínio ao nome do consultor Adriano Pires, que acabou abdicando da indicação de forma constrangedora. Assim como já fizera Rodolfo Landim, que seria alçado ao comando do Conselho de Administração, Pires saiu de cena antes que viesse a público a varredura da Petrobras nos currículos de ambos, mostrando conflito flagrante de interesses (ligações estreitas com empresas privadas do setor de petróleo e gás). Em conversa com Renata Lo Prete, Maria Cristina Fernandes analisa “o consórcio” que promoveu a malsucedida iniciativa, destacando o movimento do presidente da Câmara, Arthur Lira, para reinserir o PP num espaço de poder do qual o partido foi excluído com a Operação Lava Jato. Lembrando o controle que Lira e aliados já exercem sobre o Orçamento da União, a colunista do Valor Econômico e comentarista da CBN resume: “O que resta? Voltar a dominar a Petrobras”, segunda maior empresa do país. Dentro dessa lógica, não espanta a contrariedade de Lira com o fiasco - nesta terça-feira, chegou a defender a mais do que improvável privatização da Petrobras. Já Bolsonaro, avalia Maria Cristina, não se abala com o impasse: “É o que ele sabe fazer: oposição ao próprio governo”. A jornalista também avalia os possíveis desfechos de uma situação com prazo apertado - no próximo dia 13, os acionistas se reúnem para definir o novo comando, que terá de passar pelo mesmo escrutínio que inviabilizou Adriano Pires.
Apr 06, 2022
Centrão no topo e com Bolsonaro
1395
As três siglas mais próximas do presidente emergem como principais vitoriosas da recém-encerrada temporada de trocas partidárias. O PL, ao qual ele é filiado, tem agora a maior bancada da Câmara dos Deputados. PP e Republicanos também registraram crescimento expressivo. Para além da completa volta por cima dada por legendas fortemente implicadas nos maiores escândalos de corrupção do passado recente, trata-se de um processo de consolidação da direita parlamentar e de um sinal inequívoco da destinação de seu investimento eleitoral. Esses políticos “apostam que Bolsonaro é o caminho mais seguro para a continuidade de benesses", diz Bruno Carazza, colunista do jornal Valor Econômico. Na conversa com Renata Lo Prete, ele analisa também a soma zero no campo da esquerda (apesar de um pequeno incremento no número de seus deputados, o PT caiu no ranking geral e ainda viu o encolhimento de aliados como o PSB) e a atrofia de partidos como MDB e PSDB, mais um reflexo do beco aparentemente sem saída em que está a chamada “terceira via”. A esta altura, avalia Bruno, a disputa presidencial é “um jogo de ganha-ganha” para personagens como Valdemar Costa Neto (dono do PL), Arthur Lira e Ciro Nogueira (caciques do PP). Ganham mais, claro, se Bolsonaro se reeleger. Mas qualquer outro também terá de se entender com eles.
Apr 05, 2022
Voto jovem: como e por que incentivar
1545
O TSE vem intensificando, nas redes sociais, o esforço para estimular jovens de 16 e 17 anos a tirar o título de eleitor e comparecer às urnas em outubro - o que para eles é facultativo. Mas o resultado ainda está muito aquém do desejável, e o prazo se encerra em 4 de maio. Mesmo com artistas e influenciadores participando da mobilização, o levantamento mais recente do tribunal mostra que, em fevereiro, apenas 13,68% dos 6,1 milhões de brasileiros nessa faixa etária possuíam o documento. A ativista Helena Branco, 19, uma das criadoras da campanha #SeuVotoImporta, conta a Renata Lo Prete o que escuta de potenciais eleitores e quais argumentos podem convencê-los a participar do processo eleitoral. “O que nos move é o poder dos nossos milhões de votos, não a cobrança impositiva de que a gente carrega o peso dos rumos do país", resume. Ainda neste episódio, o consultor Maurício Moura, fundador do instituto de pesquisas Ideia, elenca fatores que influenciam o voto jovem e a disposição de se envolver na política.
Apr 04, 2022
3ª via em transe: Moro fora e o teatro do PSDB
1519
Na reta final do prazo para mudar de partido e se desincompatibilizar de cargo Executivo, dois postulantes à Presidência dividiram as atenções nesta quinta-feira. O ex-juiz e ex-ministro Sergio Moro trocou o Podemos pelo União Brasil, abrindo mão da pré-candidatura no mesmo movimento. Já o tucano João Doria ameaçou permanecer no Palácio dos Bandeirantes, alimentou por um dia inteiro o suspense sobre seu destino e terminou por deixar o cargo, como previsto, para disputar o posto máximo da República. Em conversa com Renata Lo Prete, o sociólogo Celso Rocha de Barros analisa a situação de ambos e os possíveis reflexos na corrida eleitoral. Moro “é o general que tentou lutar a guerra passada", diz o colunista da Folha de S. Paulo, numa referência a 2018. Desprovido de condições materiais e políticas, estagnado num distante 3º lugar nas pesquisas (8% no Datafolha mais recente), seu destino provável é mesmo a Câmara dos Deputados. Já Doria (2%) conseguiu afastar o perigo imediato de uma rasteira interna, mas a luta no PSDB continua -e Eduardo Leite, agora fora do governo gaúcho, está a postos para tomar-lhe o lugar, se chance houver. Embora aposte na continuidade do processo de “seleção natural” dos nomes da chamada terceira via, Celso ainda considera estreito o espaço para que algum deles venha a romper a polarização entre Lula e Jair Bolsonaro (43% e 26%, respectivamente).
Apr 01, 2022
Donbass: a guerra antes da guerra
1566
No momento em que Vladimir Putin dá sinais de redimensionar suas ambições na Ucrânia, vale a pena olhar para o conflito que se desenrola há 8 anos no leste do país, com saldo de mais de 14 mil mortos. Seu palco são as províncias separatistas de Donetsk e Luhansk, que Putin declarou “independentes” pouco antes da invasão de 24 de fevereiro. Ligadas à vizinha Rússia por laços estreitos que precedem a formação da extinta União Soviética, no início do século passado, elas foram “isoladas do mundo” e “pararam no tempo” como resultado da guerra civil, explica neste episódio Fabrício Vitorino, mestre em cultura russa e jornalista do g1 Santa Catarina. Renata Lo Prete conversa também com Felipe Loureiro, coordenador do curso de Relações Internacionais da USP, para entender o papel de Donbass (região onde ficam as duas províncias) na pauta de negociações por um cessar-fogo. Ele aponta os bombardeios à capital, Kiev, nesta quarta-feira como evidência de que Moscou não quer paz. Mas avalia que as dificuldades encontradas até aqui podem mesmo levar Putin a abandonar “demandas maximalistas” e se concentrar em retirar da Ucrânia o leste e a “ponte terrestre” que liga a região à Crimeia, anexada pelos russos em 2014.
Mar 31, 2022
O 'pacote verde' nas mãos do STF
1261
São sete ações que o plenário do Supremo Tribunal Federal começa a examinar nesta quarta-feira. Cada qual com seu objeto, todas contestam o desmonte de políticas de preservação ao longo do governo Bolsonaro. Para Maurício Guetta, consultor do Instituto Socioambiental, trata-se de julgamento histórico, por levar o enfrentamento das mudanças climáticas à mais alta corte brasileira, a exemplo do que vem ocorrendo em outros países. Na conversa com Renata Lo Prete, o representante do ISA recomenda prestar especial atenção à ADPF 760, primeira das sete em pauta. Uma “ação-caminhão”, resume o ambientalista, “que abrange praticamente todos os tópicos trabalhados nas demais". E que reivindica, antes de mais nada, a retomada do Plano de Ação para Prevenção e Controle do Desmatamento da Amazônia. Diante do atual alinhamento entre Executivo e Congresso nessa área - e da inércia da Procuradoria-Geral da República - os olhos se voltam para o Supremo como última esperança de interromper a marcha da destruição.
Mar 30, 2022
O tapa que roubou a cena no Oscar
1331
Era para ser a festa que marcaria a retomada da indústria do cinema, depois de dois anos de estragos e adaptações por causa da pandemia. As estatuetas, porém, foram eclipsadas pelo incidente envolvendo o ator Will Smith e o comediante Chris Rock - o primeiro agrediu o segundo por fazer uma piada de mau gosto com o cabelo da mulher de Smith, curtíssimo em razão de uma doença. Diante da imensa repercussão, a Academia condenou a atitude de Smith, anunciando uma “revisão formal” do caso. E ele mesmo - vencedor pela atuação no filme “King Richard”- divulgou um pedido de desculpas. Para discutir os limites do humor, a questão racial e o espírito do tempo, Renata Lo Prete recebe Helio de la Peña, um dos criadores do grupo Casseta e Planeta. “Will Smith é maior do que este episódio e hoje está sendo reduzido a ele", lamenta o humorista, admirador também do trabalho de Chris Rock. Mesmo reprovando o comentário dele sobre Jada Pinkett-Smith, Helio considera que Will teria conseguido resultado muito melhor defendendo a mulher com palavras. Helio fala ainda da reverberação nas redes sociais: “Hoje em dia tem muito essa onda do comentário sobre o comentário, da opinião sobre a opinião”.
Mar 29, 2022
O futuro do dólar no mundo
1355
Cerca de 90% das transações cambiais do planeta usam a moeda americana, que responde por quase dois terços das reservas de todos os Bancos Centrais. Uma dominância que data do fim da 2ª Guerra e se tornou completa a partir da década de 70. E que agora está sujeita a debate, na esteira das sanções econômicas impostas à Rússia por ter invadido a Ucrânia. Além das reações de Moscou, movimentos recentes feitos por países como Arábia Saudita e Índia colocam em pauta a perspectiva de “desdolarização” do sistema financeiro internacional. Mas estamos longe disso, avalia o professor Ernani Torres, da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Em conversa com Renata Lo Prete, ele resgata o histórico da ascensão do dólar, a partir dos acordos de Bretton Woods (1944), e explica que mesmo o yuan chinês ainda não faz cócegas nessa hegemonia. “O sistema internacional é parte do americano”, diz, e não o contrário. Participa também do episódio Solange Srour, economista-chefe de Brasil do Banco Credit Suisse. É ela quem trata da trajetória de queda do dólar aqui, fruto da valorização que a guerra provocou nas commodities que exportamos e da contínua elevação da taxa básica de juros pelo BC.
Mar 28, 2022
Água como arma de guerra
1567
O alerta partiu da União Europeia: em lugares como Mariupol, os russos “estão usando a ameaça de desidratação para forçar a cidade a se render”. Um expediente tão antigo em conflitos armados quanto cruel: privar a população do item mais básico de sobrevivência. Direto de Kiev, o documentarista Gabriel Chaim relata as condições de infraestrutura e abastecimento da capital no momento em que a invasão completa um mês. Por lá, a situação ainda é bem melhor do que, por exemplo, na vizinha Irpin, onde faltam “água, comida e eletricidade”. Ele resume: “só tem bomba e bala”. Renata Lo Prete conversa ainda com Guga Chacra, comentarista da Globo em Nova York, que classifica o corte no fornecimento como “crime de guerra”, praticado para “estrangular os ucranianos”. Guga traça um panorama de guerras recentes em que essa prática também ocorreu, casos da Etiópia, Líbia, Síria e Iêmen.
Mar 25, 2022
O esquema dos pastores no MEC
1805
Às portas da campanha eleitoral, vem à tona um novo “gabinete paralelo” no governo Bolsonaro. Sem cargo ou formação para tanto, Arilton Moura e Gilmar dos Santos negociavam com prefeitos a liberação de recursos do Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação, revelou o jornal O Estado de S. Paulo. Com a anuência do ministro Milton Ribeiro, que, em áudio descoberto pela Folha de S. Paulo, orienta que sejam atendidos “todos os amigos do pastor Gilmar”, “um pedido especial do presidente da República”. Há anos dedicado à cobertura dessa área, o jornalista Antônio Gois (O Globo, CBN e Canal Futura) participa do episódio para explicar o que é o FNDE e que critérios devem, segundo a lei, pautar a partilha de suas verbas. Ele mostra ainda a completa anormalidade da conduta da dupla e de quem lhe deu cobertura. Renata Lo Prete conversa também com Vera Magalhães - colunista do jornal O Globo, comentarista da rádio CBN e apresentadora do programa Roda Viva, da TV Cultura - sobre o sequestro de um dos ministérios mais essenciais da Esplanada por um grupo de interesses diretamente ligado a Jair Bolsonaro. Vera lista os possíveis crimes cometidos no caso e observa como o procurador-geral da República tenta, mais uma vez, “ganhar tempo para não fazer nada”. Enquanto isso, Milton Ribeiro balança na cadeira, cobiçada pelo Centrão - que já manda muito na pasta, mas assim teria “controle total do MEC”.
Mar 24, 2022
Alckmin, o improvável que virou vice
1559
Depois de meses de tratativas e várias opções contempladas, o ex-governador de São Paulo, um dos fundadores do PSDB, filia-se ao PSB para ser o companheiro de chapa de Lula na disputa pelo Palácio do Planalto. Uma união que fez tremer as bases do petismo, por fim enquadradas pelo ex-presidente, e emparedou antigos aliados do ex-tucano, como seu sucessor no Bandeirantes, João Doria. Neste episódio, Renata Lo Prete conversa com o jornalista Fábio Zambeli sobre a surpreendente construção que devolveu protagonismo a um político escanteado por seus próprios correligionários depois da derrota em 2018, quando ficou em 4º lugar na corrida presidencial, com menos de 5% dos votos. E também sobre a ironia do destino: o escolhido por Lula, líder de todas as pesquisas para o pleito de outubro, foi, sob vários aspectos, um eterno estranho no ninho dos grão-tucanos - de perfil orgulhosamente modesto, à direita em questões de comportamento e mais pragmático como administrador. Analista-chefe da plataforma Jota em São Paulo, Zambeli aposta que, na campanha, Geraldo Alckmin cumprirá missões pontuais, em áreas onde transita bem, como o agronegócio. “Ele sabe que não faz sentido disputar espaço com quem está encabeçando a chapa e tem os votos", resume. Mesma lógica em caso de vitória, avalia o jornalista, lembrando que Alckmin foi um vice 100% leal a Mario Covas no governo paulista: “Lula já disse a pessoas próximas que confia nele nesse sentido”.
Mar 23, 2022
Rússia x Ucrânia: guerra de exaustão
1393
Quando o conflito começou, em 24 de fevereiro, muitos imaginavam uma “conquista rápida”, típica de situações nas quais há “grande assimetria de poderio militar”, lembra Oliver Stuenkel. Quase um mês depois, assistimos a uma “guerra de atrito”, ou “de exaustão”, na qual o exército invasor avança pela lenta asfixia do adversário e à custa de extrema violência, inclusive contra civis. Na conversa com Renata Lo Prete, o professor de Relações Internacionais da FGV resgata a história desse tipo de enfrentamento, que remonta à 1ª Guerra Mundial. E diz que o mais trágico exemplo dele, no momento, é Mariupol, onde centenas de milhares de pessoas permanecem sitiadas, há 3 semanas, progressivamente privadas de água, comida e energia elétrica. Mesmo depois de reduzir a cidade portuária a escombros, os russos viram negado, nesta segunda-feira, seu ultimato para que o governo ucraniano entregasse Mariupol. Um impasse alimentado por um paradoxo, explica Stuenkel: as cenas de horror tendem a alavancar a ajuda externa à Ucrânia e, portanto, sua capacidade de resistir, mais um sinal de que a guerra está longe do fim.
Mar 22, 2022
Arte e guerra: de Tolstói à Ucrânia
1511
Afastamentos voluntários e compulsórios. Apresentações suspensas. Obras e autores cancelados. Tudo isso se vê em resposta à invasão, num boicote tão ou mais global que o das sanções econômicas, capaz de descartar inclusive artistas que, em seu tempo, foram perseguidos exatamente por se opor ao autoritarismo e a aventuras militares. Neste episódio, Renata Lo Prete recebe o jornalista e tradutor Irineu Franco Perpétuo, autor de “Como Ler os Russos” (Todavia), para entender o que se perde com esse movimento. Ele começa por falar de Liev Tolstói, o pacifista que escreveu “Guerra e Paz” e “Contos de Sebastopol” - este baseado em sua experiência na Guerra da Crimeia (1853-1856). Ainda nos clássicos, trata de nomes que por si só representam o entrelaçamento histórico dos países agora em conflito - como Gogol, nascido no que foi o Império Russo e hoje é uma cidade ucraniana. Nesse sentido, Irineu aponta como especialmente emblemático o caso da Nobel de Literatura em 2015 Svetlana Alexijevich, cidadã bielorrussa nascida na Ucrânia e que escreve em russo (“Vozes de Tchernóbil” e “A Guerra Não Tem Rosto de Mulher”, entre outros). Música e cinema também fazem parte desta conversa sobre o lugar da arte em tempos de guerra.
Mar 21, 2022
O que poderia parar a guerra
1689
Enquanto o mundo assiste à tragédia humanitária em cidades ucranianas, sinais contraditórios emergem da mesa de negociação que reúne representantes de Kiev e de Moscou. Organismos multilaterais protestam contra ataques a alvos civis em termos cada vez mais duros. As palavras, porém, não têm surtido efeito. Para entender o que poderia interromper a destruição, Renata Lo Prete conversa com o historiador, diplomata e ex-ministro Rubens Ricupero, que recomenda tomar com cautela as declarações de autoridades participantes desses encontros. “Em geral, a negociação só evolui quando os dois lados têm mais a perder do que a ganhar com a continuidade do conflito”, diz Ricupero, que foi embaixador do Brasil em Washington. Ainda não é o caso da Rússia, diz ele, muito superior ao oponente em termos militares. Mas pode vir a ser, completa, porque a guerra custa caro, e vai se revelando mais longa e difícil do que imaginava o Kremlin. Na entrevista, Ricupero enumera os principais pontos que, em seu entender, eventualmente conseguiriam balizar um cessar-fogo - da “neutralidade” à aceitação de perda de território por parte dos ucranianos. Não descarta, porém, que a Rússia aceite um acordo apenas para ganhar tempo e mobilizar mais tropas. Estabelecendo comparações com outras guerras, ele afirma que, desta vez, Putin involuntariamente fortaleceu os laços da Otan, desencadeou o rearmamento europeu e “reativou como nunca o sentimento nacional dos ucranianos”.
Mar 18, 2022
Bolsonaro: sinais de recuperação eleitoral
1360
Depois de longo período de desgaste, o presidente da República retoma fôlego em pesquisas sobre o pleito de outubro. Embora continue ampla, a distância que o separa do primeiro colocado, Luiz Inácio Lula da Silva, diminuiu um pouco, movimento que analistas atribuem a pelo menos dois fatores: população com menos medo da pandemia (ainda um dos quesitos de maior desaprovação a Bolsonaro) e iniciativas do governo de impacto direto para os mais pobres, notadamente o Auxílio Brasil. Neste episódio do podcast, Renata Lo Prete conversa com o cientista político Antonio Lavareda, presidente do conselho científico do Ipespe e professor-colaborador da Universidade Federal de Pernambuco. Ele avalia as chances de consolidação dessa curva ascendente, considerando as incógnitas no front que, a seu ver, será determinante na disputa de 2022: o da economia, que, com a guerra na Ucrânia, ficou ainda mais vulnerável. Para Lavareda, o novo status de Bolsonaro estreita bastante o caminho que poderia levar algum nome da chamada “terceira via” a tomar-lhe o lugar no segundo turno. É esse ponto do calendário que o presidente já mira, tentando vitaminar o antipetismo, do qual foi o grande beneficiário em 2018. Missão complexa, prevê Lavareda: “Esta eleição será necessariamente sobre o governo dele”.
Mar 17, 2022
3ª Guerra: do que estamos falando
1894
Poucos dias depois de Joe Biden reafirmar que um eventual ataque a país integrante da Otan terá resposta defensiva, os russos bombardearam uma base militar ucraniana a apenas 25 km da fronteira com a Polônia - que integra a aliança. A proximidade entre os dois eventos, somada à escassez de progressos no campo diplomático, faz crescer o alerta em torno da possibilidade de o conflito na Ucrânia ganhar dimensão planetária. Um cenário que o professor de Relações Internacionais Tanguy Baghdadi considera improvável, porque indesejado por ambos os lados e também pelo potencial destruidor, que transformaria as duas primeiras Guerras Mundiais em mero “ensaio". Ele reconhece, porém, que alguns elementos característicos de um conflito global - como envolvimento, em algum grau, de todas as potências - estão presentes na atual conjuntura. E que a situação pode sair de controle. Direto de Lviv, o jornalista Lucas Ferraz explica a posição estratégica da cidade e da região onde ela fica: “O oeste ucraniano é a porta de saída dos refugiados e a porta de entrada de ajuda humanitária e equipamentos militares”. A única que restou: as fronteiras norte, leste e sul do país já estão quase que inteiramente sob domínio russo.
Mar 16, 2022
Pandemia: por que ainda não acabou
1488
Em março de 2020, a OMS conferiu à doença provocada pelo então “novo” coronavírus o status que ela tem até hoje. O mundo acumula mais de 6 milhões de mortes e quase 500 milhões de casos conhecidos de Covid, mas a curva descendente dos indicadores no Brasil, depois do arrastão produzido pela variante ômicron, faz com que muita gente desconsidere duas realidades. Primeiro, a de que ainda morrem, em média, mais de 400 pessoas por dia da doença no país. Segundo, a escalada de contágio que se vê no momento em regiões da Europa e da Ásia - sobretudo na China. A esta altura, está claro que “o vírus vai ficar entre nós”, afirma a epidemiologista Ethel Maciel, e que precisamos agir para “reduzir os danos”. Em entrevista a Renata Lo Prete, a professora da Universidade Federal do Espírito Santo aponta as principais omissões do governo brasileiro nessa tarefa: ausência, até hoje, de um programa consistente de testagem e falta de medicamentos eficazes contra a Covid (e já aprovados pela Anvisa) no SUS. Fora a “intensa campanha de desinformação”, liderada pelo presidente e pelo ministro da Saúde, contra a vacina pediátrica. Tudo somado, e derrubada a maioria das medidas de restrição, resta ao brasileiro analisar por si “como se comportar”. No caso específico das máscaras, Ethel recomenda usar em pelo menos 3 situações, mesmo sem a obrigatoriedade: ambientes pouco ventilados, aglomerações e na presença de pessoas pertencentes a um dos grupos de maior vulnerabilidade.
Mar 15, 2022
Rússia: o fechamento do regime
1478
Enquanto proliferam imagens da destruição na Ucrânia, está cada vez mais difícil obter informações confiáveis sobre o que acontece no país invasor. Em paralelo à ofensiva militar, o Kremlin acelerou o processo de silenciamento da imprensa independente, transformou os veículos oficiais em máquinas de propaganda e obteve do Congresso uma nova lei de censura, que permite encarcerar alguém simplesmente por chamar a guerra pelo verdadeiro nome, e não de “operação especial”. Quem protesta enfrenta a mão pesada das forças de segurança, que têm prendido até idosos e crianças em manifestações. “Regimes autoritários se sustentam em três pilares”, lembra Vicente Ferraro, mestre em ciência política pela Escola Superior de Economia de Moscou: ideologia (desumanização do adversário e união contra suposta ameaça externa, por exemplo), repressão e sensação de bem-estar material por parte da população. O professor da USP explica que os dois primeiros elementos estão presentes na conjuntura russa — e podem trazer ganhos de popularidade a Vladimir Putin, como já ocorreu na esteira de outras aventuras bélicas sob seu comando. Mas a prosperidade do início dos anos 2000, época do conflito na Chechênia, não existe agora. A Rússia é o país mais sancionado do mundo, e a população já começa a pagar por isso. Na avaliação de Vicente, é cedo para saber se a Rússia migrará da autocracia para o totalitarismo puro e simples. “Há um um esforço do governo para obter controle total da sociedade, mas ele ainda não tem capacidade de exercê-lo plenamente”.
Mar 14, 2022
Chile: a largada do governo Boric
1203
Foram quase três meses desde a vitória nas urnas. De lá até a posse, nesta sexta-feira, o ex-líder estudantil Gabriel Boric colecionou ineditismos, começando pela própria idade. Com 36 anos, é o mais jovem ocupante do Palácio de La Moneda - e o primeiro sem origem em nenhum dos dois grupos políticos que se revezaram no poder desde o fim da ditadura militar, em 1990. Montou um ministério diverso, de maioria feminina e ampla troca de guarda geracional. “É uma novidade bastante grande para a região, o que cria expectativa”, sintetiza Claudia Antunes, editora de Mundo do Jornal O Globo. Na conversa com Renata Lo Prete, ela analisa também a decisão de indicar, para o comando da economia, o presidente do Banco Central do agora ex-governo de Sebastián Piñera. Um movimento de composição de forças e aceno ao mercado, diz a jornalista, que deve ser entendido à luz de duas circunstâncias deste início de mandato: falta de maioria no Congresso e uma Assembleia Constituinte ainda em curso. É nesse ambiente volátil que Boric terá que atender, como ele próprio admite, “pelo menos parte” das demandas por mais serviços públicos e menos desigualdade social que o levaram à Presidência.
Mar 11, 2022
X-Tudo: projeto para liberar geral em terras indígenas
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O apelido vem do amplo espectro do texto enviado pelo governo Bolsonaro ao Congresso. Além de garimpo, autoriza construção de hidrelétricas, exploração de petróleo e até cultivo de transgênicos. “É a pior” de quase duas dezenas de propostas apresentadas para regulamentar a mineração nessas áreas desde que entrou em vigor a atual Constituição, em 1988. A avaliação é de Marcio Santilli, que foi deputado constituinte, presidente da Funai e um dos fundadores do Instituto Socioambiental. “Uma aberração”, continua ele, patrocinada pelo Palácio do Planalto com apoio engajado do comando da Câmara - nesta quarta-feira, a Casa aprovou urgência para levar o PL 191 a votação. Se for aprovado, vai parar no Supremo, aposta Marcio, tão flagrantes são suas inconstitucionalidades. E isso reforçará o ambiente de insegurança jurídica, benéfico apenas à “garimpagem predatória”, que “já vem barbarizando” essas terras há muito tempo e ao arrepio da lei. Para Alessandra Munduruku, primeira mulher a presidir a Associação Pariri, que representa aldeias do médio Tapajós, trata-se de “um projeto de morte”, ao qual ela promete resistir: “Jamais vou me ajoelhar diante de quem quer destruir meu povo”.
Mar 10, 2022
Deu a louca nas commodities
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O anúncio do boicote dos EUA a petróleo e gás da Rússia é o novo motor de uma escalada de preços que começou ainda antes da invasão à Ucrânia e já levou o barril a quase US$ 140, recorde em 14 anos. Um movimento em linha com “a narrativa” da Casa Branca em resposta à guerra, mas de efeito interno limitado, já que os americanos compram menos de 10% de seus estoques dos russos. Quem pondera é a professora da FGV Fernanda Delgado, observando que países europeus, mais dependentes de Moscou nessa matéria, optaram até aqui por outras sanções. Em entrevista a Renata Lo Prete, a diretora-executiva do Instituto Brasileiro de Petróleo e Gás (IBP) analisa o esforço diplomático dos EUA para encontrar alternativa inclusive com desafetos, como Venezuela e Irã, além de tentar convencer a Arábia Saudita a aumentar sua produção. E opina que a crise atual pode acabar atrasando a tão desejada transição para energia limpa. “O investimento de longo prazo seguirá com essa preocupação, mas, no momento, segurança é mais importante do que transição ou preço”, diz ela, que prevê aumento da demanda por carvão, por exemplo. Participa também Lucilio Alves, professor da Faculdade de Agricultura da USP, para tratar de outras commodities em disparada, em especial trigo e milho. Juntas, Rússia e Ucrânia responderam por 30% e 18%, respectivamente, das transações globais desses dois produtos nos últimos cinco anos. Enquanto países “buscam outros fornecedores”, a inflação dos alimentos seguirá pressionada, ele afirma, lembrando que o Brasil depende da importação do trigo.
Mar 09, 2022
Crimes de guerra: violações da Rússia
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Imagens de ataques a alvos civis e de áreas residenciais alvejadas na Ucrânia correm o mundo. É o caso do vídeo, feito por uma equipe do jornal The New York Times, do momento em que uma mãe e seus dois filhos são mortos por um explosivo quando tentavam fugir do cerco russo a Irpin, cidade próxima à capital, Kiev. É uma “guerra em tempo real”, afirma Flavia Piovesan, ex-secretária nacional de Cidadania e ex-integrante da Comissão Interamericana de Direitos Humanos. Ela se refere ao contínuo compartilhamento desses registros, do qual resulta um fenômeno que o jornalista americano Thomas Friedman chama de “globalização do repúdio moral” à invasão. Em entrevista a Renata Lo Prete, ela lembra que mesmo conflitos armados precisam respeitar “limites éticos e jurídicos”. Aperfeiçoado desde o fim da Primeira Guerra Mundial, esse regramento está hoje inscrito no Estatuto de Roma, assinado em 1998, e os casos afeitos a ele são analisados pelo Tribunal Penal Internacional. No entender da professora da PUC-SP, o que está acontecendo na Ucrânia dá margem a investigação e processo por crimes de guerra, contra a humanidade e de genocídio. Ela reconhece que não será simples fazer Vladimir Putin se curvar ao TPI, mas defende a importância de a comunidade internacional perseguir esse objetivo: “Para que não sejam punidos apenas os executores, mas os arquitetos da destruição”.
Mar 08, 2022
Guerra na Ucrânia: oligarcas na mira
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Alexei Mordashov, Alisher Usmanov, Igor Sechin. São alguns dos homens que construíram imensas fortunas privadas a partir dos escombros do Estado soviético, no início dos anos 90. Um “processo obscuro”, resume o jornalista Jaime Spitzcovsky, azeitado por laços estreitos com o governo russo, que lhes permitiu dominar setores como energia, mineração, telecomunicações e finanças. Na conversa com Renata Lo Prete, o ex-correspondente em Moscou, hoje colunista da Folha de S.Paulo, explica a origem, as relações e como essa elite foi enquadrada internamente. “Desde o início, o projeto do Putin é claro: restaurar o poder do Kremlin”, corroído nos anos de Mikhail Gorbatchov e Boris Yeltsin. Agora, com sanções que vão do congelamento de fundos ao sequestro de alguns dos apartamentos e iates mais valiosos do mundo, os EUA e seus aliados pretendem indispor esses bilionários com Moscou. Ainda é cedo, avalia Jaime, para saber se vai funcionar. “O que já dá para dizer é que a vida deles vai ficar bem menos confortável”, ironiza. Participa também do episódio Rodrigo Capelo, jornalista do ge e do Sportv. Especializado na cobertura de negócios do esporte, ele analisa a ascensão dos oligarcas russos no futebol e, em particular, a trajetória de Roman Abramovich, que na esteira das sanções anunciou a decisão de vender o Chelsea, clube inglês que comprou em 2003.
Mar 07, 2022
Guerra na Ucrânia: a ameaça nuclear
1348
Vladimir Putin prometeu “consequências nunca vistas antes” a quem tentar impedir o avanço de suas tropas. E já acenou explicitamente com uma carta que provoca o maior de todos os medos. Afinal, ninguém supera a Rússia hoje em número de ogivas - são mais de 6 mil. Na avaliação de Vitélio Brustolin, professor da Universidade Federal Fluminense e pesquisador de Harvard, trata-se da situação mais perigosa desde os “13 dias que abalaram o mundo”, durante a Crise dos Mísseis, que envolveu EUA, União Soviética e Cuba em 1962. Na conversa com Renata Lo Prete, ele explica que o arsenal global diminuiu 80% com o fim da Guerra Fria, mas se tornou mais destruidor - as atuais bombas são milhares de vezes mais poderosas do que as lançadas sobre Hiroshima e Nagasaki, em 1945. Fora o descontrole: menos respeito aos tratados em vigor, mais integrantes no clube dos países que têm esse tipo de armamento. Apesar da ausência de limites demonstrada por Putin na operação ucraniana, Vitélio considera que o presidente russo tenta tirar os adversários do prumo, mas não executará uma ameaça que representaria a “destruição total”. Para o professor, “mesmo na guerra os líderes tomam decisões racionais”.
Mar 04, 2022
Notícias de Kiev, por Gabriel Chaim
2056
No momento em que os russos intensificam os ataques contra as principais cidades ucranianas, O Assunto ouve Gabriel Chaim, um dos poucos jornalistas brasileiros a permanecer na capital do país. Fotógrafo e documentarista, com larga experiência na cobertura de guerras, ele chegou a Kiev dias antes da invasão, encontrando um centro urbano repleto de vida e história, que o fez lembrar de Praga, na República Tcheca. Não mais: o cenário que Gabriel descreve agora mistura o desespero de quem tenta ir embora e as estratégias de sobrevivência de quem decidiu ou simplesmente se resignou à ideia de ficar. Na principal estação ferroviária, milhares de pessoas que não sabem “qual será o próximo trem e para onde ele vai”. Em residências semidestruídas pelos bombardeios, “principalmente idosos, com menos mobilidade e menos recursos” para fugir. O momento “é crítico”, diz Gabriel, referindo-se ao cerco à capital e aos limites da resistência da população. “Ninguém sabe o que vai acontecer amanhã”.
Mar 03, 2022
Guerra na Ucrânia: os refugiados
1749
Em uma semana de invasão russa, mais de 600 mil pessoas deixaram o país - de trem, carro e até mesmo a pé. A ONU e a União Europeia estimam que esse número pode chegar a 4 milhões em questão de dias. Uma tragédia humanitária narrada neste episódio por dois repórteres, um de cada lado da fronteira. O fotojornalista André Liohn conversa com Renata Lo Prete a partir de Lviv, cidade a cerca de 60 km da Polônia que virou um “lugar de separação”. Como o governo tornou obrigatória a permanência de homens entre 18 e 60 anos, muitas famílias precisam seguir viagem partidas. “Uma menina, criança, perguntou para o pai: 'numa guerra todo mundo tem que lutar?’” André completa o relato: “Ele respondeu apenas que mulheres e crianças não, mas percebeu que a filha havia compreendido que eles se separariam". Da Polônia, onde os que têm sucesso na fuga chegam exaustos, depois de jornadas que duram dias, em condições precárias e sob frio gélido, fala o correspondente da TV Globo Rodrigo Carvalho. O país já recebeu mais de 370 mil pessoas, numa política de braços abertos no momento adotada também por Hungria, Moldávia, Eslováquia e Romênia - e que contrasta com barreiras impostas, no passado recente, a refugiados vindos da África e do Oriente Médio. Rodrigo resgata histórias duras, “que levamos tempo para processar”, como a de um idoso que mal conseguia caminhar com as próprias pernas no posto de imigração. O jornalista descreve também o fluxo contrário - muito menor, mas mesmo assim surpreendente. São ucranianos vindos de outras partes da Europa para combater em seu país de origem. Ou casos como o da mulher que disse a Rodrigo estar voltando, mesmo ciente do perigo, para cuidar da mãe idosa em Lviv.
Mar 02, 2022
Guerra na Ucrânia: asfixia econômica da Rússia
1410
Cinco dias depois dos primeiros ataques ao território ucraniano, Moscou sente o aperto total das sanções. Enquanto o exército de Vladimir Putin tenta tomar Kiev, o Banco Central russo vê congelada boa parte de suas reservas internacionais, hoje estimadas em US$ 630 bilhões. Fora a exclusão do Swift, sistema internacional que interliga pagamentos ao redor do mundo. Para conter a queda livre das ações, a Bolsa de Moscou foi fechada - e assim permanecerá nesta terça-feira. O rublo mergulhou 30% frente ao dólar, e o BC dobrou a taxa de juros, na tentativa de estancar a fuga de moeda e a corrida aos bancos. “Neste momento, o BC está encurralado”, explica Miriam Leitão em conversa com Renata Lo Prete neste episódio. Comentarista da Globo, apresentadora da GloboNews, colunista do jornal O Globo e da rádio CBN, ela detalha como, mesmo com a provável ajuda da China, a Rússia não conseguirá impedir que seu sistema financeiro tombe diante da ação coordenada dos Estados Unidos e de seus aliados, especialmente na Europa. "A Rússia está exposta porque os países entraram em acordo para atacá-la ao mesmo tempo". Miriam também fala dos efeitos colaterais, que serão sentidos inclusive no Brasil.
Mar 01, 2022
Carnaval e pandemia: há um século e hoje
1821
Em 2021, uma segunda onda feroz, quando a vacinação contra a Covid ainda engatinhava, impediu qualquer folia. Neste ano, a variante ômicron cuidou de adiar novamente a retomada plena da festa. Mas houve uma vez, muito tempo atrás, em que foi possível sair de uma tragédia sanitária e social direto para a celebração da vida. Uma história -ou “coleta de histórias”, como ele prefere- trazida pelo jornalista David Butter no recém-lançado livro “De Sonho e de Desgraça: o Carnaval Carioca de 1919”. Até onde dá para separar mito de realidade nessa matéria, ainda mais a tamanha distância no tempo, David concorda: aquele foi, sim, um Carnaval de extravasamento e superação no Rio de Janeiro. “Uma reunião na rua de sobreviventes” da gripe espanhola, que em meados de 2018 contaminou mais da metade da população, matando, em registros sabidamente subestimados, 15 mil pessoas, numa cidade então habitada por menos de 1 milhão (hoje são cerca de 6,8 milhões). Na conversa com Renata Lo Prete, David explica de que maneiras a memória da doença superada se fez presente nas marchinhas e nas fantasias. E aponta inovações introduzidas naquele ano que chegaram até os dias atuais, como o Cordão da Bola Preta. Ao comparar o efeito catártico do Carnaval de 1919 às limitações que o coronavírus ainda impõe, ele nota que, agora, há uma “desigualdade no alívio”, por enquanto privilégio de quem “pode pagar ingresso” em eventos fechados. O episódio tem participação especial da apresentadora da GloboNews Maria Beltrão, lendo trechos de jornais e outros documentos da época.
Feb 28, 2022
Guerra na Ucrânia: aberta a caixa de Pandora
1926
Depois de meses estacionando tropas na fronteira, a Rússia fez o que os Estados Unidos repetidamente disseram que ela faria. Uma invasão em ampla escala do território ucraniano, do tipo que a Europa não via desde o fim da 2ª Guerra Mundial, há quase 8 décadas. Em conversa com Renata Lo Prete neste episódio, o professor de Relações Internacionais Oliver Stuenkel explica que o ataque em curso marca o fim do sistema unipolar que vigorou no mundo desde a dissolução da União Soviética, no início dos anos 90. A despeito das palavras duras e de novas sanções econômicas, os americanos e seus aliados da Otan nada farão pela Ucrânia do ponto de vista militar. “A não ser, mais adiante, armar a resistência”, diz Stuenkel, lembrando que os EUA seguiram essa trilha no Afeganistão, na época da ocupação soviética, e mais tarde colheram resultado amargo. O professor chama a atenção para a retórica “pré-2ª Guerra” de Putin, que rasgou o princípio fundador da estabilidade no continente: respeito às fronteiras. Isso abre uma “caixa de Pandora” da qual sairá, além de uma nova onda de refugiados, muita instabilidade global.
Feb 25, 2022
Ucrânia invadida: as sanções contra a Rússia
1282
Enquanto a Rússia avança sobre o leste da Ucrânia, a comunidade internacional vai anunciando represálias econômicas. “Elas são um tipo de pressão, sem caráter bélico”, resume Fernanda Magnotta, pesquisadora do Centro Brasileiro de Relações Internacionais. Neste episódio, a professora começa por resgatar exemplos históricos do uso desse instrumento de dissuasão, destacando diferentes medidas impostas pelos Estados Unidos contra Cuba, Iraque e Irã, além da própria Rússia, quando esta anexou a Crimeia, em 2014. Se naquela ocasião Vladimir Putin conseguiu se virar sem maiores concessões, agora isso é ainda mais provável, explica Fernanda, pelo menos no curto prazo, porque o governo russo vem aumentando sua poupança em ouro e hoje tem patamar confortável de reservas internacionais. Providências que lhe “dão fôlego” caso tenha que socorrer bancos oficiais, integrantes da elite econômica e parlamentares atingidos pelas sanções. Na conversa com Renata Lo Prete, Fernanda avalia o alcance desses bloqueios financeiros e comerciais, apontando um paradoxo: quanto mais amplos, maior a chance de atingirem seu objetivo coercitivo; por outro lado, maior a probabilidade de um efeito bumerangue, com perdas não apenas para a Rússia. Esse “movimento em cadeia” tende a atingir, de imediato, os preços da energia e dos alimentos em escala global, com “mais pressão inflacionária”.
Feb 24, 2022
Militares e urnas: que confusão é essa?
1402
Em nova ofensiva contra o sistema de votação que o levou à Presidência da República, Jair Bolsonaro distorceu informações ouvidas de um general indicado pelo governo para uma comissão de transparência criada pelo Tribunal Superior Eleitoral. Na esteira da tentativa de golpe no 7 de Setembro, o TSE fez, além desse, um outro movimento para se aproximar dos militares: convidou o ex-ministro da Defesa Fernando Azevedo e Silva para assumir a direção administrativa da corte, oferta da qual ele acabou declinando, por motivos ainda não completamente esclarecidos. Em conversa com Renata Lo Prete, o jornalista Bernardo Mello Franco analisa a sucessão de eventos que contribuiu para dar às Forças Armadas um protagonismo no processo eleitoral brasileiro incompatível com o regime democrático. Colunista do jornal O Globo e comentarista da rádio CBN, ele lembra que o papel delas nessa matéria é essencialmente de apoio logístico, não lhes cabendo coordenar nem fiscalizar nada. Até porque, completa Bernardo, “os militares não são observadores desinteressados”, menos ainda neste governo, que lhes garantiu cargos em abundância e uma série de demandas atendidas. Ele também avalia as condições para se desativar, agora, uma armadilha para a qual a Justiça Eleitoral involuntariamente contribuiu. Convencido de que, se perder, Bolsonaro tentará desrespeitar a vontade das urnas, Bernardo recorre à comparação com Donald Trump: “Lá o golpe não deu certo, as Forças Armadas não deixaram. E aqui, como seria?”
Feb 23, 2022
Putin avança sobre o leste da Ucrânia
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Dois movimentos do Kremlin, nesta segunda-feira, colocaram em novo patamar uma crise que tem repercussões mundiais. Primeiro, o reconhecimento da independência de duas regiões separatistas no território ucraniano: Donetsk e Luhansk. Horas depois, o anúncio de que elas receberão tropas russas, em missão de “pacificação”. Com isso, Vladimir Putin “mexeu completamente no tabuleiro” de um jogo que vinha se desenrolando há meses na base da troca de ameaças entre Moscou e Washington, em meio a tentativas de mediação de líderes europeus. É o que explica, na conversa com Renata Lo Prete, o comentarista da TV Globo em Nova York Guga Chacra. Ao analisar o discurso feito por Putin, o jornalista observa que não se trata mais de exigir que a Ucrânia permaneça fora da Otan, mas de algo muito maior: questionar a própria existência do país como tal, advogando implicitamente a restauração geral do mapa que existia antes da dissolução da União Soviética, no início da década de 90. A partir de agora, analisa, o diálogo entre Putin e Joe Biden fica cada vez mais “complicado e improvável”. Para Guga, os próximos passos do governo de Volodymyr Zelensky serão determinantes para o desenrolar do conflito. Se a Ucrânia revidar, “poderemos caminhar para uma guerra aberta”.
Feb 22, 2022
Os 50 anos do 'Clube da Esquina'
2272
Foi um lugar -o encontro das ruas Divinópolis e Paraisópolis, em Belo Horizonte. E também um movimento que reuniu talentos excepcionais, como os irmãos Lô e Marcio Borges, Ronaldo Bastos e Fernando Brandt, guiados “pela inquietação e pela genialidade” de sua figura maior, Milton Nascimento. Quem relembra é o jornalista e antropólogo Paulo Thiago de Mello, autor de um livro sobre o Clube da Esquina e seu principal fruto: o disco homônimo lançado em março de 1972, divisor de águas na história da música brasileira. Um álbum duplo (dos primeiros a sair no país) de sonoridade sofisticada e caráter sinfônico, no qual se mesclam influências que vão das raízes mineiras aos Beatles. Na conversa com Renata Lo Prete, Paulo Thiago resgata o contexto histórico em que vieram à luz canções como “Cais”, “Trem Azul”, “Um Gosto de Sol” e “Nada Será Como Antes”. Elas refletem “a angústia e a asfixia” da pior fase da ditadura militar. Sinal disso, diz ele, é a presença de estrada em quase todas as letras, como um “portal para um universo que está no interior, e que só quem bota a mochila nas costas poderá encontrar". Chamado a comparar “Clube da Esquina” a outros discos seminais que saíram naquele ano (como “Acabou Chorare”, dos Novos Baianos), Paulo Thiago afirma que Milton e seus amigos levaram “o interior para a beira do mar". “A revolução deles foi musical”.
Feb 21, 2022
Celular roubado: muito além do aparelho
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Quem ainda não foi vítima tem pelo menos um familiar ou conhecido que já foi. Ver o telefone ser levado por ladrões, em abordagens cada vez mais violentas, vai se tornando cena recorrente nas cidades brasileiras. O choque do momento pode se desdobrar em meses de transtornos, porque ali está armazenada boa parte da vida da pessoa, inclusive o que mais interessa aos criminosos: dados financeiros. Repórter da Globo em São Paulo, César Galvão descreve neste episódio o modus operandi das quadrilhas e por que seus integrantes se expõem a risco em ações espetaculosas, que incluem quebrar vidros e “mergulhar” dentro de carros em pleno congestionamento: “eles querem o celular desbloqueado” para “ter acesso a senhas e contas bancárias”. César mostra ainda o despreparo de parte da polícia para lidar com um crime que atinge simultaneamente vários tipos de patrimônio. Renata Lo Prete conversa também com Thiago Ayub, especialista no desenvolvimento de ferramentas de segurança digital. Ele fala da responsabilidade das empresas fabricantes e recomenda “pensar na proteção do celular assim como pensamos na proteção da nossa casa”, tamanha a importância das informações que ele carrega.
Feb 18, 2022
Desastres naturais: adaptação urgente
1337
O maior volume de chuva em 24 horas registrado em quase um século de medições na região serrana do Rio de Janeiro. A água deslocou imensos blocos de terra dos morros, transformou as ruas de Petrópolis em rios de lama e foi destruindo tudo pelo caminho, numa tragédia que, na madrugada de quinta-feira, já passava de uma centena de mortos. “Água acima de 2 metros. A sensação era a de estar sendo engolido”, descreve o André Coelho, repórter da GloboNews. Do Morro da Oficina, um dos pontos mais afetados, ele contou a Renata Lo Prete o que viu ao chegar à cidade. Natural da vizinha Teresópolis, André detalha a geografia local, explicando os fatores de vulnerabilidade: “Encosta muito grande de rochas, vegetação insuficiente e ocupação desordenada”, uma mistura que, somada à omissão do poder público, faz com que os episódios de devastação se repitam. Participa também o economista Sérgio Margulis. Um dos autores do estudo "Brasil 2040”, ele lista providências que os governos precisam tomar. A primeira, afirma, é “estar atento e levar muito a sério” os impactos das mudanças climáticas. Do ponto de vista de infraestrutura, “as soluções são conhecidas e, agora, têm que ser implementadas”, e as autoridades deveriam estar dispostas a “pagar qualquer coisa para não deixar acontecer de novo”.
Feb 17, 2022
Lula em hora de vento a favor
1419
A pouco mais de sete meses da eleição, a liderança nas pesquisas segue folgada e estável. Dentro do PT, diminui a resistência à escolha do ex-tucano Geraldo Alckmin para vice. Uma conjuntura a que agora se somam duas novidades: um manifesto em defesa da candidatura, assinado por apoiadores tanto históricos quanto recentes; e uma entrevista na qual o presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, avalia que o mercado financeiro já digere bem a possibilidade de vitória de Lula. Neste episódio, Renata Lo Prete recebe Maria Cristina Fernandes, colunista do Valor Econômico e comentarista da Rádio CBN, para discutir esse quadro e o que pode alterá-lo. Na conversa, elas tratam também das dificuldades enfrentadas pelos nomes da chamada “terceira via” e do que esperar de Jair Bolsonaro na campanha: “Ele tentará reeditar o antipetismo, que foi a maior força eleitoral de 2018”. O problema é que há “outro fenômeno mais poderoso agora”, o antibolsonarismo.
Feb 16, 2022
Violência no campo: em alta e impune
1273
Em 2020, primeiro ano da pandemia e o último com dados consolidados disponíveis, o Brasil registrou mais de 1.500 conflitos de terra, recorde desde 1985. A Comissão Pastoral da Terra, ligada à Igreja Católica, aponta ainda aumento de 30% nos assassinatos derivados desses conflitos - crimes cuja investigação não raro dá em nada. “É uma impunidade recorrente”, afirma Carlos Lima, um dos coordenadores nacionais da CPT. Em entrevista a Renata Lo Prete, o historiador avalia de que modo as políticas do atual governo contribuem para disseminar, entre os agressores, a certeza de que “matar índio, quilombola e sem-terra” não resulta em condenação, menos ainda dos mandantes. A análise vem no momento em que ganha o noticiário um caso particularmente chocante: um menino de nove anos, filho de dirigente de sindicato de trabalhadores rurais, morto a tiros dentro de casa, diante da família, por homens encapuzados. O repórter Ricardo Novelino, do g1 em Pernambuco, recupera a história de Jônatas e explica o conflito em Barreiros, na Zona da Mata pernambucana.
Feb 15, 2022
Amazônia ilegal: modelo de subdesenvolvimento
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Dois anos e meio depois do evento que ficou conhecido como Dia do Fogo, quando criminosos se organizaram para incendiar centenas de hectares de floresta, uma área do sudoeste do Pará onde havia vegetação nativa hoje está tomada por extensa plantação de soja. “Eu consegui ver duas realidades”, conta Daniel Camargos, jornalista da organização Repórter Brasil, que esteve no local nos dois momentos. “A soja levou dinheiro, mas também violência, medo e morte”. Na conversa com Renata Lo Prete, ele narra a “expulsão” dos pequenos agricultores que, antes da destruição, seriam assentados perto da cidade de Novo Progresso (PA). Uma história, explica Daniel, de assédio para que arrendem ou vendam seus lotes, transformando-se em “laranjas da soja”. A despeito de investigações abertas pela Polícia Civil e pela PF, o que aconteceu no Dia do Fogo “entrou para a gaveta”, diz. Participa também do episódio Caetano Scannavino, coordenador da ONG Projeto Saúde & Alegria e integrante do Observatório do Clima. É ele que traz o contexto da “cultura da ilegalidade”, vigente em boa parte da região. “O que já era ruim agora está catastrófico”, afirma. O ambientalista explica por que deu errado: já foi desmatada uma área equivalente a duas Alemanhas e, no lugar, dois terços viraram pastagem de baixa produtividade. “É a insistência em um modelo de subdesenvolvimento”. E com consequências severas para o planeta: se fosse um país, o território que os mapas descrevem como Amazônia Legal seria um dos dez mais poluentes do mundo, tamanha sua emissão de gases do efeito estufa. “O agronegócio deveria ser o primeiro a se preocupar com as mudanças climáticas”, acrescenta Caetano. A solução, aponta, é investir no aumento da produtividade e em novas tecnologias da floresta. “Dá para tornar a Zona Franca de Manaus em um Vale do Silício da bioeconomia”.
Feb 14, 2022
Bolsonaro na Rússia em meio à crise militar
1236
O presidente brasileiro desembarca em Moscou no início da próxima semana para encontrar o russo Vladimir Putin. Na sequência, se reúne com o primeiro-ministro húngaro Viktor Orbán, em um giro de três dias numa região que vive tensão extrema: a estimativa é de que 130 mil soldados russos estejam perto da fronteira da Ucrânia, sinalizando risco de invasão iminente. Neste episódio, apresentado por Natuza Nery, o historiador Felipe Loureiro explica como a intenção de Putin ao receber Bolsonaro é mostrar “que a Rússia não está isolada” na atual crise internacional. Coordenador do curso de Relações Internacionais da USP e do Observatório da Democracia no Mundo, Loureiro avalia os significados do encontro de Bolsonaro com Putin e Orbán, dois líderes autoritários. O professor lembra como a Rússia é conhecida por interferir em eleições de outros países e alerta para o risco de a viagem servir como “laboratório” de métodos que possam causar disrupção na votação brasileira deste ano. Loureiro pontua ainda como Bolsonaro pode fazer aguar o esforço da diplomacia brasileira – que defende uma solução pacífica para o conflito entre russos e ucranianos. Segundo ele, uma eventual declaração desastrada de Bolsonaro prejudicaria a relação do Brasil com os EUA e ameaçaria até a prometida entrada do país na OCDE.
Feb 11, 2022
Agrotóxicos: o que muda com o PL do Veneno
1512
Desde 2015, o Brasil vem engordando a lista desses produtos autorizados para uso nas lavouras. Uma conta que disparou a partir de 2019 e no ano passado bateu recorde de liberações: mais de 560. Nesta quarta-feira, a Câmara aprovou o projeto de lei que facilita ainda mais a liberação. Um material extenso, “quase um código”, que “não deixa muito espaço para futuras regulamentações”, explica Rafael Walendorff. Em conversa com Renata Lo Prete, o repórter do Valor Econômico resgata a tramitação do PL e detalha os argumentos de quem o defende (“mais celeridade e segurança para o setor produtivo”) e de quem o rejeita (“abre muitas brechas e aumenta as pressões” pelo registro de mais agrotóxicos). Ele também aponta quem sai ganhando: “O Ministério da Agricultura fica com mais poder”, afirma sobre um dos pontos mais controversos do PL, que tira da alçada da Anvisa e do Ibama a decisão final sobre produtos potencialmente danosos à saúde humana e ao meio ambiente. “Vai ser um desastre”, prevê Luiz Claudio Meirelles, pesquisador da Escola de Saúde Pública da FioCruz e ex-gerente de toxicologia da agência. O agrônomo alerta para os riscos de permitir que mais defensivos agrícolas cheguem à mesa dos brasileiros. E lembra que o glifosato, embora declarado cancerígeno em 2015, ainda é o agrotóxico mais usado do país. Luiz Claudio aborda também o problema do monitoramento: “caro, demorado e não garante proteção”. Para ele, o caminho é justamente o contrário do previsto na nova lei: liberar cada vez menos.
Feb 10, 2022
Alfabetização: o pior dos retrocessos
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No início do ano letivo, aparecem as consequências de quase dois anos de apagão no ensino presencial regular. O quadro inclui evasão elevada, déficit de vagas na rede pública e a conclusão dramática de um levantamento feito a partir de dados da Pnad Contínua (IBGE): quase 41% dos alunos de 6 e 7 anos não sabem ler nem escrever, um salto de 66% na comparação com 2019. “Antes da pandemia, já era um desafio garantir que todos aprendessem”, diz a pedagoga Anna Helena Altenfelder. “Agora, piorou”. Na conversa com Renata Lo Prete, ela explica por que o ensino remoto funciona particularmente mal para essa faixa etária, além de ampliar as desigualdades. E defende que a criação de vagas é tarefa para ontem: cada dia sem aula é “um dia a mais de direito negado e um dia a menos de aprendizado”. Participa também do episódio a educadora Sônia Madi, que discorre sobre o comprometimento do futuro do aluno e da sociedade quando falta a base (leitura e escrita). Para ela, é o sistema que precisa se adequar a essa criança carente de ajuda para aprender, e não o contrário: “Não adianta apenas saber em que pé ela está. Precisa saber como faz para ela avançar”.
Feb 09, 2022
Imposto sobre combustível: o que pode mudar
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Já apareceu posto com o litro de gasolina acima de R$ 8. Em vários estados, ele está custando, em média, mais de R$ 7. Desde o início do ano passado, a alta acumulada é de 77%, uma das mais sentidas pelo consumidor, com efeitos que se espalham por toda a economia. Se antes as autoridades já temiam o custo político desse processo, que dirá agora, a oito meses da eleição. Por isso, sob pressão do presidente Jair Bolsonaro, o Congresso está coalhado de projetos que prometem colocar freio aos aumentos. Quem explica cada um deles neste episódio é a jornalista da GloboNews Bianca Lima, que resume assim: “Sobram propostas, falta consenso”. Ela se refere, por exemplo, à resistência dos governadores a perder arrecadação de ICMS (responsável por 70% das receitas dos estados). Ou da equipe econômica diante da possibilidade de se criar um fundo, com recursos da União, para amortecer as oscilações do preço do petróleo no mercado internacional. Com o barril superando os US$ 90 e o real se desvalorizando, o problema não será resolvido pela via dos tributos, explica o repórter Alvaro Gribel, do jornal O Globo. “Petróleo e câmbio: são esses os dois fatores”, diz. Na conversa com Renata Lo Prete, ele faz o histórico de como diferentes governos lidaram com a Petrobras e os preços de combustíveis, desde o período Lula. E examina a viabilidade das propostas dos pré-candidatos à Presidência nessa matéria.
Feb 08, 2022
Moradia primeiro: um serviço essencial
1363
Nas grandes cidades brasileiras, é visível, quando não gritante, que há mais gente vivendo nas ruas. Em São Paulo, censo recém-divulgado pela prefeitura detectou aumento de 31% entre 2019 e o ano passado, mas nem esse percentual dá conta da realidade, pois ainda existe muita subnotificação. Um quadro em que se misturam desemprego elevado, renda em queda e inflação acentuada do aluguel. E que provoca também mudança de perfil dos desalojados: “Agora você encontra mais famílias e crianças”, alerta Samuel Rodrigues, coordenador, em Minas Gerais, do Movimento Nacional de Pessoas em Situação de Rua. Ele, que já viveu 13 anos assim, conta como a ausência de políticas públicas está impondo a milhares de pessoas a necessidade de revirar lixo em busca de alimento. “O grito pela comida, neste momento, é o mais forte”. Na conversa com Renata Lo Prete, Samuel reforça a importância de pensar em moradia “não apenas como mercadoria, mas como serviço”, dentro da ideia de “housing first”, que gerou experiências exitosas em diversos países. Também entrevistado no episódio, o pesquisador André Luiz Freitas reforça que moradia é “o eixo condutor de acesso a outros direitos”, como saúde, assistência social e cultura. Professor e coordenador do programa Polos de Cidadania, da UFMG, ele explica como a carência de dados oficiais e confiáveis sobre a população de rua descumpre responsabilidades previstas na Constituição Federal e acaba resultando em “políticas de morte”.
Feb 07, 2022
A Funai contra os indígenas isolados
1788
Somente dentro dos limites da Amazônia Legal, são mais de 100 povos que optam por viver reclusos na floresta, muitas vezes pela lembrança de um passado sangrento. “Para eles, a proteção da Funai é vital. Literalmente vital”, resume Beto Marubo, integrante da Univaja, organização que luta pelos direitos desses grupos no Vale do Javari (AM). No entanto, o órgão federal incumbido da tarefa está na berlinda por fazer o contrário: deixá-los à mercê de desmatadores e grileiros. No comando, “um presidente da Funai que não gosta da Funai e que é contra a Funai”, diz Marubo, referindo-se ao delegado da PF Marcelo Xavier da Silva, que ocupa o posto desde julho de 2019. O capítulo mais recente do desmonte é a dificuldade para renovar portarias que restringem o acesso a áreas habitadas por esses povos - e até hoje não demarcadas. “Parece que existe intenção de ganhar tempo até que se encontre ambiente para uma decisão que agrade” os invasores, diz a Renata Lo Prete a advogada Carolina Santana, assessora jurídica do Observatório dos Direitos Humanos dos Povos Indígenas Isolados. Morador de uma das regiões com maior presença deles, Beto alerta para a contradição de abandonar justamente quem mais precisa do zelo do Estado: “Além de covarde, é criminoso”.
Feb 04, 2022
Juro básico de volta aos 2 dígitos
1211
Em menos de 12 meses, a Selic saltou de seu piso histórico (2% ao ano, em março de 2021) para os 10,75% anunciados nesta quarta-feira, num acréscimo de 1,5 ponto percentual. E com nova alta já contratada para a próxima reunião do Copom. O movimento tende a frear ainda mais uma atividade econômica já vagarosa, mas, na avaliação Sergio Lamucci, editor-executivo do Valor Econômico, não restava alternativa: “O Banco Central está sozinho” na causa de conter a inflação. Ele analisa como, em um cenário de câmbio desvalorizado, incerteza eleitoral e risco fiscal, o BC lança mão da política monetária para tentar reduzir à metade o IPCA, o que mesmo assim manteria a inflação acima do centro da meta para 2022 (3,5%). Como dano colateral, além da redução da atividade, ele prevê a retomada da trajetória de crescimento da dívida pública. Neste episódio, Renata Lo Prete conversa também com o economista Silvio Campos Neto, da Tendências Consultoria, sobre o fim da era de juros muito baixos no mundo, que terá como próximo e importante capítulo o início, em março, de um ciclo de aperto monetário nos EUA. “O que se espera é a redução do fluxo de capitais para países emergentes, como o Brasil, e um dólar ainda mais forte”.
Feb 03, 2022
O Brasil que lincha: o caso Moïse
1488
Agredido com socos, chutes e pauladas porque, de acordo com depoimentos da família, reivindicava dois dias pendentes de remuneração no quiosque onde trabalhava, na orla da Barra da Tijuca. Moïse Kabamgabe, 25 anos, encontrou a morte no país que sua mãe escolheu para criar os filhos, de modo a afastá-los da instabilidade violenta do Congo. Um caso no qual racismo e xenofobia se misturam a uma barbaridade que tem raízes profundas em nossa história: os “justiçamentos de rua”. Estudioso do tema, sobre o qual escreveu um livro, o sociólogo José de Souza Martins, professor emérito da USP, identifica no assassinato brutal de Moïse “um novo tipo de linchamento dentro de uma cultura de linchamentos”. Novo porque associado não a acusações de furto ou estupro, mais recorrentes, e sim a relações de trabalho, que vêm sofrendo um visível processo de degradação. Na conversa com Renata Lo Prete, Martins reflete sobre o “comportamento de multidão” dos linchadores. “Na multidão, o responsável pelo crime é sempre o outro”, observa. E portanto, sob a ótica dos agressores, não é ninguém. Ele lembra que linchamentos são também uma expressão de medo -do novo e do diferente. E que nossa sociedade é, com o estímulo do governo, cada vez mais “uma sociedade do medo”. Participa ainda do episódio Luana Alves, repórter da TV Globo no Rio, que conversou com a mãe e os irmãos de Moïse: “Uma família que fugiu de uma realidade difícil em sua terra natal e, mesmo assim, permaneceu unida e afetuosa”.
Feb 02, 2022
A vida na Ucrânia à espera dos russos
1370
Há 9 meses o país assiste ao deslocamento de um contingente que hoje soma mais de 120 mil soldados em suas fronteiras. Nos últimos dias, escalaram também as ameaças de Washington a Moscou, as réplicas desafiadoras de Vladimir Putin e o bate-cabeça de líderes europeus (mais expostos do que os EUA às consequências de um eventual descontrole na região). Mas, e os ucranianos? Consideram a invasão iminente? O que pensam sobre ser palco de um conflito em que se chocam interesses das grandes potências? “Uma frase que circula aqui é ‘se a gente sentir medo, eles venceram’”, conta o correspondente da Globo Pedro Vedova, enviado especial a Kiev. “É um país com mais resistência mental do que se pode imaginar”. A situação é diferente, ele explica, em áreas já ocupadas por forças russas ou pró-russas. “No leste da Ucrânia, não é tanto uma questão de se vai ou não ter invasão. É se vai ou não ser pior do que agora”. Na conversa com Renata Lo Prete, Vedova trata ainda da impopularidade do governo de Volodymyr Zelensky e das dificuldades econômicas que o país atravessa. “Antes da revolta de 2014, 12% dos ucranianos eram favor da Otan (aliança militar liderada pelos EUA). Agora, mais da metade são”.
Feb 01, 2022
Deportados: o duro caminho de volta
1242
Mais de 200 brasileiros devolvidos pelos EUA em um único voo, que chegou a Minas Gerais no último dia 26. O total já supera 3.800 desde que, em 2019, o presidente Jair Bolsonaro resolveu facilitar o processo de expulsão dos ilegais pelas autoridades americanas. Presente ao desembarque no aeroporto de Confins, o jornalista da TV Globo Dener Alano relata o que viu: predominantemente famílias, com “muitas crianças” (90, segundo a Polícia Federal). E ouviu: “São pessoas que tinham colocado uma expectativa grande. Largado emprego, feito empréstimo”. E que revelam ter sofrido, no centro de detenção no Estado do Arizona, vários tipos de agressões, além de passar frio e fome. “Uma refeição por dia”, diz Dener. Às vezes, “só bolacha”. Participa também do episódio o repórter Pedro Figueiredo, que no fim do ano passado cobriu, para o Fantástico, uma operação da Polícia Federal contra esquemas ilegais de entrada nos EUA. Entre eles, o “cai-cai”: “Basicamente, a pessoa se entrega na fronteira em troca de talvez entrar, talvez não. Se estiver acompanhada de criança ou mulher grávida, a chance aumenta”. Daí o uso crescente dos pequenos, expostos a todo tipo de risco. Pedro conta ainda o que descobriu sobre desilusão e ausência de perspectivas conversando com deportados. Um deles, depois de perder tudo o que tinha, está juntando dinheiro para tentar de novo.
Jan 31, 2022
Ômicron: sistema de saúde tomba de novo
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O rápido espalhamento da variante mais contagiosa do coronavírus produz recorde de infectados e volta a sobrecarregar os hospitais: em 6 Estados e no Distrito Federal, a taxa de ocupação de leitos de UTI está acima de 80%, situação crítica que há muito não se via. Em sua maioria menos graves, os casos, no entanto, são tão numerosos que impactam a linha de frente: em poucos momentos da pandemia houve tantos profissionais afastados do trabalho. Para quem fica, o sentimento é de exaustão e perplexidade. "Parece uma doença diferente”, conta a infectologista Ana Helena Germoglio, que quase dois anos atrás acompanhou a primeira paciente grave de Covid do DF e desde então segue atuante nas redes pública e privada da capital federal. “Uma doença do pescoço pra cima”, diz ela, referindo-se à recorrência de sintomas como dor de garganta e de cabeça. “E dos não-vacinados”, pois é esse o status da maior parte dos hospitalizados. Com tanto aprendizado obtido desde 2020, ela lamenta a sobrevivência do negacionismo, inclusive entre médicos. Na semana passada, Ana Helena assistiu à morte de um colega cardiologista, não imunizado e apologista de cloroquina. Para ela, a prioridade, agora, é avançar com a campanha infantil: “O adulto vacinado é como uma casa com muros; a criança sem vacina é uma casa sem muros, que o ladrão vai invadir”.
Jan 28, 2022
Negacionismo: Bolsonaro dobra a meta
1606
Quando muitos pensavam que o governo federal havia se conformado minimamente às realidades da pandemia, o Brasil vê renascer a disposição das autoridades para atrapalhar a vacinação, desta vez do público infantil, e promover um remédio que o mundo inteiro sabe, há tempos, ser ineficaz contra a Covid. Para o jornalista Carlos Andreazza, trata-se de um “padrão pendular” de conduta: “estica ao máximo a corda, e depois recua”. Ele reconhece, porém, pelo menos uma diferença na atual ofensiva: sem CPI, o presidente está convencido de que pode ultrapassar qualquer limite e tratar da crise sob o único prisma que lhe interessa, o eleitoral. “É a convicção de que, se segurar 15% de fiéis, alimentar os radicais, irá ao 2º turno”, diz o colunista do jornal O Globo e comentarista da rádio CBN. Na conversa com Renata Lo Prete, Andreazza observa também que o “fator ômicron” (mais gente pegando a doença, ainda que com quadros menos graves) fomenta a disseminação de fake news sobre vacinas. E lembra que essa confusão “com método” tem consequências na ponta: das reiteradas ameaças a funcionários da Anvisa à dificuldade para fazer a campanha das crianças decolar, providência que os epidemiologistas consideram indispensável para controlar o contágio.
Jan 27, 2022
Federação partidária: como vai funcionar
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Um tipo de associação em que as legendas preservam autonomia operacional e financeira, mas atuam em bloco no Legislativo e permanecem juntas por, no mínimo, 4 anos, num desenho que precisa ser respeitado tanto no palanque federal quanto nos regionais. Aprovada em setembro de 2021, a modalidade surgiu como resposta à cláusula de desempenho, que cobra dos partidos um piso de deputados federais para ter acesso a recursos públicos e tempo de TV. É o que explica neste episódio a cientista política Lara Mesquita, da FGV, identificando ainda outro fator na origem da ideia da federação: encontrar substituta para as extintas coligações em eleições proporcionais. Na conversa com Renata Lo Prete, Lara enumera semelhanças e diferenças entre coligação e federação, e aponta as duas maiores pedras no caminho desta última: a exigência de “verticalização” das alianças (cronicamente rejeitada pelos políticos) e as queixas, que começam a aparecer, à duração de 4 anos. Direto de Brasília, o repórter da Globo Nilson Klava atualiza as tratativas em curso para compor federações. A mais avançada é a que reúne PT, PSB (ambos reivindicam no TSE ampliar o prazo para concluir as negociações, atualmente fixado em 1º de março), PC do B e PV.
Jan 26, 2022
A vez dos games nos grandes negócios
1301
O recente movimento feito pela Microsoft chama a atenção primeiro pela cifra: quase US$ 69 bilhões (aproximadamente R$ 380 bilhões) para adquirir a Activision Blizzard. Ela é responsável por franquias consolidadas no mundo dos jogos interativos (como Call of Duty, Candy Crush e WarCraft), mas a importância do acerto vai muito além: mostra o quão central, para as empresas de tecnologia, tornou-se um mercado que movimentou quase US$ 200 bilhões em 2021. Com quase 3 bilhões de usuários (mais de um terço da população do planeta), os games já superam em valor ramos tradicionais da indústria do entretenimento, como o cinematográfico. Neste episódio, Vicente Martin Mastrocola, professor de Sistemas de Informação da ESPM, detalha as implicações dessa compra, que levará a Microsoft ao terceiro lugar no ranking do setor, atrás apenas da chinesa Tencent e da japonesa Sony. "A Microsoft, proprietária do Windows e do Xbox, vai investir pesado na integração desses jogos dentro de sua plataforma", diz. “O objetivo é conectar várias telas, como computador, consoles, tablets e smartphones, em um ecossistema só.” Na conversa com Renata Lo Prete, ele discute também o papel dos games na aposta da indústria no metaverso (integração de universos virtuais com o físico por meio de tecnologia imersiva).
Jan 25, 2022
Vida e obra de Elza Soares, por Ruy Castro
1875
Neste episódio especial, antecipado para homenagear uma de nossas maiores cantoras, O Assunto recebe o jornalista e escritor, profundo estudioso da música brasileira. Ele conduz o ouvinte por marcos da trajetória de Elza, que morreu na quinta-feira aos 91 anos: da estreia no programa de rádio de Ary Barroso, em 1953, à colaboração com jovens compositores em anos recentes, passando pela histórica gravação de “Língua”, de Caetano Veloso, que a resgatou de um período de ostracismo na década de 80. "Ela cantava muito com o corpo. Impressionante como tinha mobilidade, uma potência não só vocal, mas do corpo todo”, diz. Biógrafo de Garrincha, com quem Elza viveu longo e conturbado casamento, Ruy a entrevistou dezenas de vezes para a feitura do livro, colhendo em primeira mão relatos das adversidades enfrentadas desde a infância de menina negra na favela até a luta, em vão, contra o alcoolismo do jogador. "Ela encarava tudo”, afirma. “É uma coisa espantosa que tenha ‘recomeçado’ a carreira aos quase 80". Elza realmente “cantou até o fim”, conforme letra da canção destacada no obituário do jornal americano “The New York Times”. Dessa extensa produção, Ruy não titubeia quando chamado a escolher sua fase favorita: é a dos sambas, em especial até o início dos anos 70. Nesse capítulo, diz, não teve pra mais ninguém.
Jan 22, 2022
Os arrastados, 3 anos de Brumadinho
1800
No calendário, 25 de janeiro de 2019. Na vida de bombeiros, legistas e, principalmente, familiares dos 270 mortos, o maior desastre humanitário da história do país segue em curso - e não apenas porque seis das vítimas ainda não foram encontradas na lama e nos rejeitos liberados com o rompimento da Barragem 1 da mina Córrego do Feijão, da Vale. Neste episódio, O Assunto recebe Daniela Arbex, que reconstituiu cada detalhe do dia fatídico e deu voz a dezenas de personagens da tragédia em seu novo livro, “Arrastados”. O título remete a algo que a jornalista aprendeu acompanhando o trabalho incansável de médicos e técnicos do IML de Belo Horizonte: sem pele, “todos ficaram iguais na morte”. Na conversa com Renata Lo Prete, Daniela resgata as evidências de que a mineradora sabia, desde pelo menos um ano antes, dos riscos de rompimento da B1 - e da escala da destruição que isso provocaria. Sobre a luta inacabada dos sobreviventes por Justiça e reparação, ela diz: “Quando você é arrancado de seu lugar de origem, você passa a ser de lugar nenhum”.
Jan 21, 2022
China: limites da política de Covid zero
1535
Um cordão sanitário nas fronteiras e dezenas de milhões de pessoas em lockdowns focalizados. Às vésperas de seu principal feriado e de um evento global em Pequim, o país que primeiro identificou o novo coronavírus segue com as medidas mais draconianas para contê-lo. Aliada a uma taxa de vacinação superior a 85%, essa estratégia conseguiu segurar as mortes pela doença num patamar comparativamente baixo (em torno de 5 mil registradas desde o início da pandemia, contra mais de 850 mil nos EUA, por exemplo). Mas agora é questionada tanto do ponto de vista da eficácia (a variante ômicron já está presente em pelo menos 7 das 31 províncias) quanto de efeitos colaterais (recuperação insuficiente da atividade). Professor da Fundação Dom Cabral e da Universidade de Nova York em Xangai, o economista Rodrigo Zeidan conta como funciona na prática: “Se um caso for detectado num condomínio, as autoridades fecham o lugar com quem estiver dentro” e promovem testagem em massa. Empresas e governos estrangeiros podem torcer o nariz, mas essa abordagem tem “alto apoio popular”, afirma. Participa também do episódio o jornalista Carlos Gil, que por mais de três anos foi correspondente da TV Globo na Ásia. É ele quem explica as rígidas regras da “bolha” onde ficarão atletas e demais envolvidos nas Olimpíadas de Inverno, a partir de 4 de fevereiro na capital chinesa. Como público, nas arenas, apenas convidados e em número restrito. Gil compara esse ambiente ao dos Jogos de Tóquio, em 2021. “Na China, quem pisar fora do circuito fechado vai sofrer sanções”, até mesmo deportação.
Jan 20, 2022
A panela de pressão do funcionalismo
1483
Os atos desta terça-feira em Brasília são o capítulo mais recente de um movimento que começou ainda em 2021, quando Jair Bolsonaro operou para que fosse incluído, no Orçamento deste ano, R$ 1,7 bilhão destinado a reajustar os salários dos policiais federais, cujo apoio o presidente espera obter nas urnas em outubro. O tratamento diferenciado deflagrou reivindicações de servidores da Receita Federal e do BC, principalmente, mas reverbera em dezenas de outras categorias, com gestos de advertência e ameaças de paralisação. Neste episódio, O Assunto procura entender distorções e suas consequências conversando com os economistas Bruno Carazza e Daniel Duque. "É um grupo articulado e poderoso da administração pública", diz Carazza, doutor em direito e colunista do Valor Econômico, sobre os setores que lideram a atual temporada de reivindicações. Ele, que finaliza um livro a respeito do tema, resgata as origens da disparidade de remuneração e defende uma reforma que “racionalize carreiras e institua um sistema sério de avaliação". Pesquisador do Ibre-FGV, Duque detalha estudo comparativo da evolução salarial de diferentes categorias na última década, mostrando quem ganhou e quem perdeu da inflação. E chama a atenção para uma peculiaridade nacional: “O Brasil gasta com o Judiciário 3 vezes mais do que países desenvolvidos. Temos essa jabuticaba para resolver”.
Jan 19, 2022
Djokovic: quando a lei vale para todos
1437
Ele era o favorito para vencer o Aberto da Austrália, iniciado no domingo passado. O título seria seu 21º de Grand Slam, feito inédito na história do tênis. Mas, em vez de desfilar talento nas quadras de Melbourne, o número 1 do mundo foi deportado depois de uma queda-de-braço com as autoridades locais: o sérvio de 34 anos desembarcou sem ter tomado vacina contra a Covid, e ainda mentiu no formulário de imigração para burlar a perspectiva de quarentena. “Hoje, ele também não poderia disputar Roland Garros (França) e o US Open (Nova York)”, complementa Guga Chacra. Na conversa com Renata Lo Prete, o comentarista da Globo nos EUA detalha a carreira de um dos maiores tenistas de todos os tempos e relembra outros episódios de negacionismo em que ele se envolveu na pandemia -a lista inclui a promoção de um torneio sem nenhum protocolo restritivo e a realização de entrevista (sem máscara) após teste positivo para a doença. “A Austrália entendeu que ele é uma ameaça à segurança pública”, avalia Deisy Ventura, professora titular de ética da Faculdade de Saúde Pública da USP, sobre a decisão do governo, referendada por uma corte federal. A pesquisadora ainda analisa a diferença entre três diferentes políticas de estímulo à vacinação, a partir de exemplos do Brasil, do Canadá e da Áustria – que está prestes a impor a imunização a todos os adultos maiores de 18 anos.
Jan 18, 2022
A falta de fiscalização no turismo de natureza
1234
A tragédia de Capitólio, em Minas Gerais, colocou em evidência a falta de regulamentação para a visitação de atrações naturais no Brasil – e, consequentemente, o risco que oferecem aos turistas. Depois da paralisação quase total no setor durante a pandemia, o turismo voltou a aquecer no país, principalmente a partir de setembro, informa Luiz Del Vigna, diretor-executivo da Associação Brasileira das Empresas de Ecoturismo e Turismo de Aventura. Em entrevista a Natuza Nery, ele fala sobre o crescimento da procura por contato com o ambiente natural - “para descomprimir as tensões da pandemia” - e alerta para o problema colateral: a segurança. Seu diagnóstico relaciona a falta de cuidado dos próprios viajantes, a situação de informalidade de muitos profissionais do setor e, principalmente, a falta de fiscalização sobre a legislação vigente. “Precisamos minimizar os riscos para a aventura ocorrer somente no campo do imaginário”. A geóloga Joana Paula Sanchez, professora da Universidade Federal de Goiás, chama atenção para a falta de estrutura das pequenas cidades, cuja população pode até dobrar de tamanho durante feriados ou férias escolares. “Não tem hotéis ou mesmo saneamento básico suficiente”. Ela também alerta os turistas sobre os maiores perigos e recomenda o que fazer para garantir uma viagem segura.
Jan 17, 2022
A falta de exames e o autoteste para Covid
1473
Desde as últimas semanas de 2021, a demanda por diagnóstico cresceu como há muito não se via. Resultado, afirmam especialistas, de uma “tempestade perfeita” que atingiu o Brasil: um mix de festas de fim de ano, contágio acelerado da variante ômicron, surto de casos de gripe H3N2 e descuido nas medidas não farmacológicas de contenção do vírus. Neste episódio, a jornalista Ana Carolina Moreno, repórter de dados da Globo em São Paulo, conta como a procura por testes subiu quatro vezes desde novembro – e que a taxa de positividade explodiu de 9% para 30%. Ela também revela que os principais distribuidores no Brasil já estão em processo de reposição de estoque: “Já fizeram as compras e tem grande volume de testes em trânsito para cá”. Natuza Nery ouve também Claudio Maierovitch, coordenador do núcleo de epidemiologia e vigilância de saúde da FioCruz, que explica a importância da testagem em massa para o estabelecimento de políticas públicas de saúde: “Permite diminuir a velocidade com que o vírus se espalha”. Ele, que foi diretor da Anvisa entre 2002 e 2008, alerta para o risco de que a alta velocidade de transmissão sem a medição adequada pode resultar em mais casos graves e óbitos “sem que os sistemas de saúde tenham se preparado para isso”. E recorda os primeiros meses da pandemia: “Tenho a impressão de que estamos no começo de novo: propagação rápida e testes insuficientes”.
Jan 14, 2022
Burnout: o esgotamento do trabalho
1460
A partir de 1º de janeiro deste ano, a OMS incluiu a síndrome relacionada ao trabalho na classificação internacional de doença. Já há anos, o número de pessoas que recebem o diagnóstico cresce, mas houve um boom durante a pandemia – estima-se que, no Brasil, cerca de um terço da população seja afetada. A então publicitária Carol Milters sofreu em duas oportunidades: sintomas como dores no peito, reincidência em infecções e exaustão a afastaram de dois empregos. Hoje, ela, que mora na Holanda, é autora do livro “Minhas páginas matinais: crônicas da síndrome de burnout” e relata sua experiência ao Assunto. Também neste episódio, Natuza Nery conversa com a psicanalista Vera Iaconelli, que fala sobre a importância da decisão da OMS para jogar luz sobre a “patologia social” das relações laborais. E alerta: “Precisa tomar cuidado para entender que o problema não é com a pessoa, mas com a lógica de trabalho”. Ela explica as características da síndrome que, entre outros sintomas, leva à crença de que o trabalho deve “tomar todo o espaço” da vida e de que seus esforços “nunca são o suficiente”. Natuza e Vera falam também dos recortes de gênero e de raça em relação ao aumento de casos, que se multiplica principalmente entre mulheres e, sobretudo, mulheres negras. “Trabalhar cansa, mas não adoece”, resume Vera.
Jan 13, 2022
Explosão da ômicron: como ela mudou a pandemia
1479
O tsunami de infecções provocado pela nova variante registra, dia após dia, recorde no número de casos: no mundo, foram mais de 3,2 milhões em 24 horas; no Brasil, a média móvel subiu mais de 600%. Trata-se de um cenário inédito na pandemia, que o médico Márcio Bittencourt, mestre em saúde pública e professor da Universidade de Pittsburgh (Estados Unidos), explica neste episódio. Em entrevista a Natuza Nery, ele esclarece por que é possível deduzir desta nova onda conclusões otimistas. “Não é só o vírus que mudou, mas seu hospedeiro também”, afirma. “Hoje estamos mais protegidos e imunizados”. A lógica é a seguinte: embora a ômicron seja “intrinsicamente mais transmissível” e “escape da imunidade”, a vacinação se provou capaz de reduzir o risco de internação ou complicação decorrente da Covid em até 20 vezes. No entanto, embora as evidências científicas demonstrem que a nova variante é cerca de 30% menos grave do que a variante dominante anterior, a delta, sua alta transmissibilidade ameaça sobrecarregar os sistemas de saúde em todo o mundo – inclusive no Brasil – e coloca em risco principalmente as crianças, ainda não imunizadas. A retomada de atividades cotidianas, como ir a festas ou voltar ao trabalho presencial, expõe a população adulta a novas contaminações e “essas pessoas, que são as que mais interagem com as crianças, acabam levando o vírus para casa”. Bittencourt ressalta que novas medidas de enfrentamento à Covid devem levar em conta, além dos índices de saúde pública, fatores como economia e convívio social. Mas que, agora, estamos em um momento no qual “se não houver medidas de contenção novamente, a transmissão seguirá intensa e irá infectar grande parte da população”.
Jan 12, 2022
Por que está chovendo tanto?
1286
Em 2021, o Brasil passou por uma estiagem que fez a conta de energia subir e acendeu o alerta vermelho do risco de um apagão. Isso até dezembro chegar. De lá pra cá, todas as regiões do país sofreram com enchentes, inundações e deslizamentos de terra decorrentes do intenso volume de chuvas. O sul da Bahia foi a primeira região a enfrentar a força das águas, que agora devastam Minas Gerais. Um evento que, descreve Marcelo Seluchi, coordenador-geral do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden), pode ser considerado o “maior desastre das últimas décadas” no Estado. Em entrevista a Natuza Nery, ele explica a “zona de convergência do Atlântico Sul”, fenômeno que é o principal responsável pela alta na precipitação fluviométrica, e justifica que, embora as tragédias deste verão não estejam diretamente vinculadas às mudanças climáticas, a tendência é de mais irregularidades no regime de chuvas. “Não vai aumentar a média, mas as oscilações. Os extremos, tanto chuvas mais intensas como secas mais longas, serão mais comuns”. Neste episódio, participa também Pedro Luiz Côrtes, professor de ciência ambiental do Instituto de Energia e Ambiente da USP. Ele lista os principais mecanismos de mitigação dos eventos climáticos extremos no Brasil e resume: “A palavra-chave é prevenção”.
Jan 11, 2022
Cerrado: um bioma sob ameaça
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Ele é o segundo maior do Brasil e ocupa uma área de quase um quarto do território nacional, mas está em vias de ser deixado à mercê do desmatamento. A partir de abril, o Instituto de Pesquisas Espaciais (Inpe) irá encerrar o projeto que monitora a destruição do Cerrado – cujo custo anual é de R$ 2,5 milhões. “Falta visão estratégica”, resume Mercedes Bustamante, professora do departamento de ecologia da UnB e integrante da Academia Brasileira de Ciências, em relação ao fim do monitoramento. Ela explica que a “savana mais biodiversa do mundo” tem uma importância hidrológica que impacta todas as regiões do país. “Garante a segurança hídrica, energética e alimentar do Brasil”. E conclui que o avanço do agronegócio na conversão de terras é um “tiro no pé”. Também neste episódio, Natura Nery entrevista o jornalista Fábio Campos, da TV Anhanguera, afiliada da Globo em Goiás, que há duas décadas trabalha no Cerrado. Ele descreve a paisagem local, com suas “árvores baixas, troncos retorcidos e coloração amarelada” e conta por que os pesquisadores têm tanta urgência em estudar a região – que, informa, está sendo dizimada. “Hoje, as unidades de conservação representam 3% do que é o bioma”, informa. “O resto do Cerrado já não existe mais”.
Jan 10, 2022
Apagão: Brasil sem dados na pandemia
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Quando os sistemas do Ministério da Saúde sofreram um ataque hacker, em 10 de dezembro, o número de casos, hospitalizações e mortes por Covid estava no nível mais baixo do ano até então. Mas isso antes das celebrações de fim de ano, do surto de gripe em várias cidades e do avanço da variante ômicron, que já representa mais da metade das contaminações no país. Desde então, já há quase um mês, as autoridades sanitárias brasileiras enfrentam a pandemia de olhos vendados, sem os dados necessários para frear a nova onda de infecções - a taxa de positividade nos laboratórios particulares cresce acima de dois dígitos e os hospitais já registram lotação de leitos. “Informação é poder e não faz sentido a gente não ter”, diz Julio Croda, integrante da Fundação Oswaldo Cruz e presidente da Sociedade Brasileira de Medicina Tropical. Em entrevista a Natuza Nery, o infectologista detalha o que faz cada um dos sistemas integrados do SUS e qual o caminho da informação do atendimento nas unidades de saúde até a consolidação no Ministério. Ele também revela que conversou com diversos técnicos que trabalham com a rede do SUS – eles afirmam que “esse sistema poderia ser restabelecido em dias”. "O ataque hacker não justifica a lentidão”. Neste episódio, participa também Leonardo Bastos, pesquisador do Programa de Computação Científica (Procc), da Fiocruz, que explica como funciona a análise dos dados para a avaliação que guia as possíveis ações de políticas públicas no combate à Covid. “Tendo essas informações, as autoridades podem fazer algo, como abrir mais leitos”, afirma. “Inclusive o cidadão pode olhar para isso e pensar: ‘opa, não vou mais àquela festinha que eu ia’”.
Jan 07, 2022
O começo de 2022 para Bolsonaro
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O fracasso na condução da pandemia, a economia em estado vegetativo e o derretimento da aprovação nas pesquisas assombraram o fim de ano do presidente. Vieram as férias - que não foram interrompidas sequer diante da tragédia provocada pelas chuvas no sul da Bahia. Depois do susto que o levou a uma internação hospitalar repentina, Bolsonaro inicia 2022 pensando em um só objetivo: a reeleição. “Há um eleitor duro do bolsonarismo, que está em torno de 20% nas pesquisas”, afirma o jornalista e analista político Thomas Traumann, colunista da revista Veja do site Poder360. “Pode não ser alto o suficiente para ganhar o segundo turno, mas é muito alto para ele deixar de estar no segundo turno”. Em entrevista a Natuza Nery, o autor do livro “O pior emprego do mundo”, sobre a passagem de 14 ministros pela Fazenda, analisa as pesquisas de opinião para avaliar as chances de o capitão reformado chegar ao segundo mandato: para ele, Bolsonaro “já pagou o preço pela pandemia” eleitoralmente, mas sofre com uma economia estagnada na qual, “se nada for feito não reelege o presidente”. Thomas explica ainda as principais estratégias do bolsonarismo para a corrida eleitoral. Duas já estão em andamento: a “tática de jogar com os seus” - a exemplo do aumento concedido a policiais federais em detrimento a todos os outros funcionários públicos - e a “narrativa dos problemas de saúde decorrentes da facada”. O movimento mais importante, no entanto, deve ocorrer durante a campanha formal ao Planalto: Thomas explica que a “pergunta clássica” em casos de reeleição é se o presidente merece mais 4 anos. “Assim, ele não se reelege. Mas vai tentar mudar a pergunta: o PT merece voltar?”
Jan 06, 2022
Vacina: direito das crianças
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Nicolas Rodrigues dos Santos, de 9 anos, começou a se sentir mal ainda no início de dezembro. Depois de um vai-e-volta nos hospitais de Astorga, interior do Paraná, foi internado com apendicite e veio a confirmação de Covid-19. Um dia depois do Natal – para qual sua avó já comprara uma bicicleta para presenteá-lo – ele se tornou uma das mais de 500 crianças mortas durante a pandemia no Brasil. “Foi por causa da Covid que ele faleceu”, lamenta Marta Cristina Machado, avó do garoto. “Estava esperando ter a vacina para ele tomar, mas não deu tempo”. Embora a Anvisa já tenha anunciado a decisão de liberar doses da Pfizer para 35 milhões de crianças entre 5 e 11 anos (em uma versão com dosagem diferente da usada em adultos) em 16 de dezembro, o Ministério da Saúde ainda não deu o aval para a imunização em massa. Neste episódio, em entrevista a Natuza Nery, o médico e advogado Daniel Dourado explica a diferença nas atribuições da Anvisa - quem “reconhece a vacina como válida para ser usada no Brasil” - e do Ministério da Saúde - quem “define política pública, caso da vacinação em si no SUS, na esfera federal”. Ele analisa o que diz o Estatuto da Criança e do Adolescente sobre o dever do Estado brasileiro de garantir a imunização e a obrigação de pais e responsáveis em levar menores de idade para a vacinação. O pesquisador do Centro de Pesquisa em Direito Sanitário da USP ainda avalia o passo a passo das decisões tomadas pela pasta comandada por Marcelo Queiroga: desde a lentidão no pedido de novas doses para a Pfizer até a consulta pública com “perguntas mal elaboradas e amostragem que não temos como considerar”. “É uma maneira de fazer aceno para sua base antivacina e ao mesmo tempo ganhar tempo”, resume.
Jan 05, 2022
Covid a bordo: cruzeiros suspensos no país
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Depois de quase dois anos, foram liberadas as primeiras viagens de cruzeiro no Brasil. Milhares de turistas embarcaram atrás de dias de descanso e lazer, mas acabaram presos dentro de cabines. Um deles é o empresário Maxwell Rodrigues, apresentador do programa Porto 360 Graus, da TV Tribuna, afiliada da Globo em Santos. Em entrevista a Natuza Nery, ele relata as falhas de comunicação a bordo do navio Costa Diadema: desde a falta de contato após a realização do teste de Covid até o “silêncio ensurdecedor” sobre as informações de casos confirmados entre tripulação e passageiros. Ele recorda também como, ao atracar na costa de Salvador, os turistas receberam a notícia de testes positivos de coronavírus no navio pela imprensa. “Depois do anúncio do lockdown, começou a correria em busca de comida”. Participa também deste episódio a pesquisadora em saúde Chrystina Barros, integrante do Grupo Técnico de Enfrentamento à Covid da UFRJ. É ela quem explica por que, mesmo no caso de as operadoras de turismo terem cumprido à risca os protocolos, não há como evitar novos casos dentro dos navios: “Não dá para conter, é uma realidade aumentada da sociedade”. E aponta que a ômicron e eventuais novas variantes tornam imprevisível o cenário para a volta dos cruzeiros – a partir da recomendação da Anvisa, a associação de empresas do setor interrompeu as atividades até dia 21 de janeiro.
Jan 04, 2022
Os 100 anos da Semana de Arte Moderna
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No palco principal do Teatro Municipal de São Paulo, em 13 de fevereiro de 1922, o escritor Graça Aranha abriu a Semana de Arte Moderna da seguinte forma: “Para muitos de vós, essa curiosa e sugestiva exposição que gloriosamente inauguramos hoje, é uma aglomeração de horrores”. Naqueles dias, artistas como Heitor Villas-Lobos, Victor Brecheret, Di Cavalcanti, Oswald de Andrade, Mário de Andrade e Anita Malfatti – a quem os especialistas creditam o mérito de ser a “primeira realmente modernista” do país – apresentaram composições, peças, quadros e poemas que seriam um “catalizador das várias iniciativas e direções da implementação da arte moderna no Brasil”, como define Luiz Armando Bagolin, um dos curadores da exposição Era Uma Vez o Moderno, em São Paulo. Em entrevista a Natuza Nery, o professor e pesquisador do Instituto de Estudos Brasileiros da USP disseca os eventos históricos que culminaram no evento, cujo ”forte efeito de propaganda” foi fundamental para chamar a atenção ao movimento e impulsionar o modernismo no Brasil. Ele recorda como o Abaporu, mais célebre obra de Tarsila do Amaral, dá origem à antropofagia e como daí nasce o conflito que afastaria Mário de Andrade do núcleo duro do modernismo. “Mário foi o primeiro autor brasileiro a buscar entender antropologicamente o que é o ‘Brasil profundo’”, afirma. “Ele dizia que o Brasil não conhece o Brasil e que apenas assim se poderia conhecê-lo de verdade”. O desgaste entre o autor de Macunaíma com os demais modernistas, explica Bagolin, se intensifica sob o projeto ultranacionalista do Estado Novo, que “coopta o movimento” e mata aquilo que ele descreve como “dimensão utópica do modernismo”. Nos últimos 100 anos, sua herança passa pela construção da capital Brasília, assinada pelo mais célebre arquiteto modernista, Oscar Niemeyer, e pelo tropicalismo, que reforma a cultura nacional na música, cinema e teatro entre as décadas 1960 e 1970. Bagolin e Natuza resgatam ainda o balanço de Mario de Andrade sobre o modernismo. “Não adianta uma arte moderna em uma sociedade desigual”, cita o pesquisador. “E 100 anos depois, vivemos a mesma coisa: somos modernos, mas ainda temos irmãos que não conseguem comer”.
Jan 03, 2022
REPRISE: Em busca das árvores gigantes da Amazônia
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Elas se erguem muito acima da média do dossel da floresta. Como conseguem crescer tanto e não quebrar é algo que sempre intrigou estudiosos. Em outubro, quatro guias e quatro engenheiros florestais partiram da pequena Cupixi, na região central do Estado do Amapá, e se embrenharam durante três dias no rio e na mata com o objetivo de chegar à segunda mais alta já identificada pelos radares do Inpe: um angelim vermelho de 85 metros, marca que o faz superar um prédio de 30 andares ou duas vezes a estátua do Cristo Redentor no Rio de Janeiro. Concluída a expedição – na qual equipe de cientistas captou áudios especialmente para o episódio do podcast que O Assunto reprisa neste 31 de dezembro – o professor Diego Armando Silva conversou com Renata Lo Prete a respeito da importância do projeto que coordena. "As árvores gigantes são as mães da floresta", diz. “Além de resistir ao vento, à luz e às tempestades, elas precisam sustentar o próprio peso". A observação de perto, o inventário e a coleta de informações nos ensinam não apenas sobre elas, mas sobre “a estrutura da floresta”. E ele não tem dúvida: ainda há muitas gigantes por mapear e conhecer na Amazônia.
Dec 31, 2021
REPRISE: Brasileiros sem documento - os verdadeiros invisíveis
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Segundo o último dado oficial disponível, são cerca de 3 milhões de pessoas que, como Maria Helena Ferreira da Silva, chegam à vida adulta (e eventualmente à idade avançada) sem certidão de nascimento: um problema nacional que foi tema da redação do Enem neste ano e do episódio que O Assunto reprisa neste 30 de dezembro. No caso da agricultora de 70 anos, que vive no interior do Paraná, a carência virou barreira na hora de se vacinar contra a Covid-19. No posto, recomendaram-lhe que se conformasse em ficar sem o imunizante, “porque o governo nem sabia que eu existia”. Ela só veio a receber a primeira dose meses depois, por ação da Defensoria Pública, e agora está perto de conseguir a tão sonhada certidão de nascimento. “A gente fica envergonhado, né?” O relato feito por Maria Helena ao podcast introduziu a conversa entre Renata Lo Prete com Fernanda da Escóssia, autora do livro "Invisíveis - Uma Etnografia sobre Brasileiros sem Documento", fruto da tese de doutorado da jornalista na Fundação Getúlio Vargas. Ela explica o papel fundador desse registro e o efeito bola de neve que a ausência dele provoca: vai ficando mais difícil obter outros documentos e, com o passar dos anos, limitações muitos concretas se apresentam, notadamente no acesso aos serviços públicos de educação e saúde. Editora na revista Piauí, com longas passagens pelos jornais O Globo e Folha de S. Paulo, Fernanda se interessa há quase duas décadas por um fenômeno que descreve como “transversal”, porque ligado a múltiplos fatores, como miséria e desestruturação familiar. Em sua pesquisa e nesta entrevista, ela conta histórias de pessoas que conheceu no momento em que buscavam o registro de nascimento e reencontrou tempos depois -- quando haviam resgatado direitos, cidadania e às vezes o próprio "fio da vida".
Dec 30, 2021
REPRISE: Fogo na Cinemateca - memória destruída
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“Todo mundo sabia que ia acontecer. E aconteceu", diz o diretor Cacá Diegues sobre o processo crônico de negligência e asfixia de recursos que culminou no incêndio do galpão na Vila Leopoldina, em São Paulo, em 29 de julho deste ano. O fogo destruiu cerca de um milhão de documentos que registravam décadas da produção audiovisual brasileira, entre trabalhos de artistas de renome e de anônimos, e que contavam a história do país. O descaso vem de longe, mas o desejo de extermínio é recente, diferencia Cacá, integrante da Academia Brasileira de Letras “Não é que o atual governo não se interesse pelo cinema. Ele é contra o cinema, contra a cultura e não quer que o Brasil exista”. Na conversa com Renata Lo Prete, que O Assunto reprisa neste 29 de dezembro, o diretor reflete sobre o significado de seu “Bye Bye Brasil”. O filme, que no ano 1 da pandemia completou quatro décadas, aborda temas para lá de atuais, como destruição ambiental e aniquilação de povos indígenas. A despeito das dificuldades, Cacá continua a criar e mantém a esperança de que ninguém conseguirá matar o cinema brasileiro. E afirma que sem a arte “você corta a possibilidade de o país se organizar e ser alguma coisa".
Dec 29, 2021
REPRISE: Simone Biles - saúde mental primeiro
1950
A maior ginasta de todos os tempos chegou aos Jogos Olímpicos sob pressão para ampliar sua lista de medalhas. Já em Tóquio, a atleta revelou que passava por uma espécie de bloqueio ao saltar e desistiu de quatro finais olímpicas para priorizar o cuidado com sua saúde mental – e abriu um debate que rompeu as fronteiras do esporte. No episódio que O Assunto reprisa neste 28 de dezembro, Renata Lo Prete recebe dois convidados: o ex-repórter da Globo Marcos Uchoa e a doutora em psicologia pela USP Vera Iaconelli. “O que ela faz ninguém mais é capaz de fazer”, resume Uchoa sobre o fenômeno Biles. Ele, que cobre Olimpíadas há mais de três décadas, descreve o estresse a que são submetidos desde muito cedo os atletas de alta performance, especialmente na ginástica. “Há uma deformação da infância e da adolescência", diz. Vera, que também é diretora do Instituto Gerar de Psicanálise, analisa o caso da ginasta sob o aspecto da “relação com os nossos desejos". Ela questiona a caracterização do gesto da atleta como “um problema”, e pondera: “Saúde mental é poder dizer não a certas coisas que não são aceitáveis. E não tentar loucamente se adaptar a elas".
Dec 28, 2021
REPRISE: Militares de novo no poder: as origens
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Primeiro, eles saíram dos quartéis para o front internacional em missões de grande visibilidade, notadamente a do Haiti. Depois, foram chamados a atuar em segurança pública interna, numa escalada de operações que culminou com a intervenção de 2018 no Rio de Janeiro. Logo depois da eleição de Jair Bolsonaro, o então comandante do Exército, Eduardo Villas-Bôas, qualificou como “volta à normalidade” a atuação de quadros das Forças Armadas em áreas de natureza civil da administração federal -hoje em patamar sem precedentes. “Este é um governo de militares", afirma Natália Viana, autora do livro “Dano Colateral”, um dos mais importantes lançamentos de 2021, tema do episódio que O Assunto reprisa neste 27 de dezembro. No momento em que eles disputam terreno com políticos do Centrão -e recebem a conta do desempenho desastroso na pandemia-, a jornalista resgata o capítulo inaugural dessa história. Mostra, com apuração minuciosa, a opacidade de informações e a impunidade de atos cometidos, em especial no Rio. E constata que “a democracia já está rota” quando um general (Braga Netto, ministro da Defesa) se sente à vontade para ameaçar ninguém menos do que o presidente da Câmara com a ruptura do calendário eleitoral. “Eles entraram na política e não pretendem se retirar”.
Dec 27, 2021
REPRISE: O vale-tudo das “narrativas”
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O dicionário diz que se trata da “exposição de uma série de acontecimentos mais ou menos encadeados”. Na política, porém, a palavra se perdeu numa epidemia de usos equivocados, quase sempre voltados ao diversionismo e à tentativa de ocultar verdades inconvenientes. No episódio que O Assunto reprisa neste 24 de dezembro, o apelo incessante à carta da “narrativa”, notadamente pelos bolsonaristas na CPI da Covid, compõe a trilha sonora da conversa de Renata Lo Prete com o jornalista Eugênio Bucci, professor da Universidade de São Paulo e autor do livro “A Superindústria do Imaginário”. Eugênio resgata o sentido original do termo -em diferentes mitologias, na literatura e no jornalismo. Passa por transformações ligadas à lógica dos mercados e chega às fake news, um território onde “a verdade não pesa”. Para ele, abster-se de responder pelos fatos é o "objetivo final dessa discurseira vazia e histérica".
Dec 24, 2021
O Orçamento capturado de 2022
1193
A peça aprovada pelos parlamentares evidencia o que os especialistas vinham apontando: menos de metade do “espaço” de R$ 113 bilhões criado com a aprovação da PEC dos Precatórios irá para o novo programa social do governo. “Não houve, de fato, preocupação em reforçar o Auxílio Brasil”, observa Adriana Fernandes, repórter especial e colunista do jornal O Estado de S. Paulo. Em compensação houve, ela explica, ampla e bem-sucedida preocupação em contemplar os interesses do presidente Jair Bolsonaro (como R$ 1,7 bilhão para dar reajuste a policiais federais, deflagrando a ira de outras categorias do funcionalismo) e de deputados e senadores (caso dos R$ 16,5 bilhões para emendas do relator, que seguirão quase tão secretas quanto antes). Na conversa com Renata Lo Prete, Adriana também descreve as idas e vindas que resultaram num Fundo Eleitoral de quase R$ 5 bilhões, a baixa no volume de recursos para investimento e a primazia dada à Defesa sobre pastas como Saúde e Educação. A jornalista destaca ainda o caráter simbólico das ausências de Bolsonaro e do ministro da Economia, Paulo Guedes, de Brasília quando da aprovação: “Quem realmente está mandando no Orçamento é o Congresso”.
Dec 23, 2021
Lula: chapa, pesquisas e mais sobre 2022
1632
O ano termina com o petista na liderança isolada das intenções de voto para a Presidência, enquanto negocia uma composição que, até recentemente, poucos sequer imaginariam, com o ex-governador Geraldo Alckmin, recém-saído do PSDB. Se concretizada, será “a aliança do establishment político da Nova República”, diz o cientista político Miguel Lago, que leciona na Universidade Columbia, em Nova York, e na Sciences Po, em Paris. Daí vem sua força e, segundo ele, também seu calcanhar de Aquiles, que Jair Bolsonaro tentará explorar. Na conversa com Renata Lo Prete, Lago analisa movimentos e falas de Lula. Reconhece que nenhum outro candidato desperta tanto no eleitorado pobre, amplamente majoritário no Brasil, a lembrança de dias melhores, mas pondera que o país mudou bastante desde os dois mandatos do ex-presidente. Ele cita dois exemplos: o trabalho formal encolheu para dar lugar ao chamado “precariado”, e a religião ganhou peso no debate e nas definições de perfil. A dicotomia, afirma o professor, agora se dá entre “batalhadores” e “encostados”, estes últimos bem representados, segundo ele, pela família Bolsonaro. “São milionários e nunca fizeram nada".
Dec 22, 2021
Chile: a esquerda no poder
1400
Ao final do primeiro turno, muitos previam disputa acirrada e até mesmo favoritismo do candidato da extrema-direita. Porém, encerrada a apuração da etapa final, o ex-líder estudantil Gabriel Boric emergiu vencedor com mais de dez pontos percentuais de vantagem sobre José Antonio Kast. “Era preciso atrair o eleitor do centro. E Boric soube fazer isso melhor do que Kast”, afirma Oliver Stuenkel, professor de Relações Internacionais da FGV. Na conversa com Renata Lo Prete, ele analisa a sucessão de eventos inaugurada no país com os protestos de 2011, até chegar à Assembleia Constituinte e, agora, à eleição do primeiro presidente que não saiu de nenhuma das duas coalizões que se alternaram no poder desde o fim da ditadura do general Pinochet, em 1990. “É preciso ter cuidado com as expectativas”, pondera Stuenkel. O jovem eleito (35 anos) terá que lidar não apenas com um Congresso dividido, mas com reticências em sua própria aliança. “O Partido Comunista está distante”, diz. Mais importante: num cenário de inflação e fim dos auxílios da pandemia, precisará enfrentar a desigualdade econômica e social que inflamou as ruas. Sem desconsiderar o histórico recente de resultados eleitorais da América Latina, o professor matiza: “Boric é uma outra esquerda, mais parecida com partidos progressistas da Europa. Um fenômeno típico chileno, difícil de imaginar em países como Paraguai, México ou o próprio Brasil”.
Dec 21, 2021
Pandemia: o que esperar do ano 3
1462
Ao fim de 2020, o trauma de meses dificílimos cedeu lugar à euforia com o início da vacinação. De fato, onde ela avançou mais, o quadro melhorou bastante. Mas a desigualdade na aplicação contrapõe países com mais de 80% da população completamente imunizada a outros, quase sempre pobres, nos quais o percentual não chega a 10%. “Mais do que um imperativo ético e moral, o acesso equitativo às vacinas ainda é a melhor resposta à pandemia”, afirma Jarbas Barbosa, vice-diretor da Opas, braço da OMS nas Américas. Isso porque somente o controle da transmissão do vírus poderá impedir o surgimento sem fim de variantes de preocupação. A ômicron, mais recente delas, embaralhou todos os prognósticos para 2022, ao combinar manifestações aparentemente menos graves da doença à maior transmissibilidade vista até aqui. “Mesmo países com sistemas de saúde fortes poderão enfrentar problemas”. Em entrevista a Renata Lo Prete, o médico brasileiro analisa estudos preliminares sobre a ômicron e a necessidade das doses de reforço. E lança um olhar esperançoso sobre o futuro: “Se tivermos vigilância genômica funcionando, mantivermos a adesão da população às recomendações de saúde pública e avanço da vacinação, acredito que possamos chegar ao final de 2022 com perspectiva de controle”.
Dec 20, 2021
Gripe fora de época se espalha no Brasil
1391
Os primeiros sinais surgiram na UPA da Rocinha, onde explodiu o número de pacientes com queixas respiratórias. Alguns dos sintomas se assemelhavam aos da Covid, mas testes deram outra resposta: influenza. E uma variante diferente, a Darwin, que predominou no hemisfério norte no início de 2021 e agora, atipicamente longe do inverno, ganha terreno por aqui. Neste episódio, Renata Lo Prete conversa com Marcelo Gomes, coordenador do Boletim Infogripe, da Fiocruz. O pesquisador em saúde pública explica a piora do quadro, notadamente no Rio de Janeiro e no Espírito Santo, onde a doença já adquiriu caráter epidêmico, com espalhamento dos casos. Cidades como São Paulo, Salvador, Belém e Manaus também enfrentam surtos, com sobrecarga de seus hospitais e postos. “Infelizmente, a perspectiva para as próximas semanas é de mais ocorrências”, diz Marcelo. Ele cita entre os motivos a “queda na cobertura vacinal deste ano” no Brasil. Ainda que o imunizante disponível não proteja contra a variante H3N2, ele não tem dúvida em recomendar que especialmente os segmentos mais vulneráveis da população tomem a vacina. Para prevenção, as recomendações são as mesmas dos últimos dois anos: usar máscaras de boa qualidade e sempre, preferir lugares abertos e evitar aglomerações.
Dec 17, 2021
Violência obstétrica: como se proteger
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O relato da influenciadora digital Shantal Verdelho sobre abusos sofridos durante o nascimento de sua filha em um hospital privado paulistano evidenciou um drama silenciado por longo tempo e que atinge uma legião de mulheres no país. Um tipo de violência que pode ocorrer no atendimento pré-natal, no parto ou depois dele, e se manifestar em intervenções cirúrgicas (realizadas sem consentimento ou mesmo à revelia da paciente) e assédio moral (por meio de gritos e ofensas), explica a jornalista Giovanna Balogh, especialista em temas ligados à maternidade e à infância. “Os profissionais da saúde não querem cometer violência, mas reproduzem condutas que aprenderam, estão desatualizados ou são insensíveis ao fato de haver uma mulher atrás daquela vagina”. A ginecologista e obstetra Larissa de Freitas Flosi, do coletivo Nascer, enxerga o momento histórico em que o trabalho de parto saiu maciçamente do ambiente familiar, entre as décadas de 1950 e 1960, como uma espécie de marco zero desses casos. “Virou um evento médico”, que ocorre “no momento de maior vulnerabilidade física e emocional” da mulher e envolve traços da sociedade como machismo, racismo e preconceito de classe. A médica afirma que a assistência obstétrica precisa ser baseada em dois pilares: ciência e autonomia da mulher. Para a gestante, o mais importante é ter informação de qualidade. “É o melhor item do enxoval”.
Dec 16, 2021
O desmanche das decisões da Lava Jato
1458
Na largada, em março de 2014, a operação investigava lavagem de dinheiro e evasão de divisas. A partir daí vieram as descobertas de malfeitos bilionários, relacionados sobretudo à Petrobras, e a prisão de representantes da elite empresarial e política. Numa sucessão espetacular de fases, a Lava Jato conquistou grande apoio popular, mas não sem danos colaterais. Excessos cometidos pelos investigadores passaram a ser questionados pelo Judiciário: hoje, nas cortes superiores, condenações em série são revertidas, e pilares da operação, derrubados. “A decisão do STF de deixar na vara de Curitiba apenas casos relativos à Petrobras foi um divisor de águas”, afirma Marco Aurélio de Carvalho, integrante do Grupo Prerrogativas. Assim como, no entender dele, a de remeter à Justiça Eleitoral casos de crimes comuns relacionados a caixa dois. Tudo isso, acredita Marco Aurélio, faz parte de um processo de depuração e restabelecimento de marcos institucionais, no qual ele inclui ainda a declaração de suspeição de Sergio Moro para julgar o ex-presidente Lula. Neste episódio, Renata Lo Prete recebe também Raquel Pimenta, professora de direito na FGV. Ela, que estuda corrupção e poder econômico, analisa erros e acertos no uso, pela Lava Jato, de instrumentos como delações premiadas e acordos de leniência.
Dec 15, 2021
Os evangélicos e seu espaço no Judiciário
1535
Logo no início do mandato, Jair Bolsonaro prometeu que levaria ao STF um nome “terrivelmente evangélico”. André Mendonça foi o segundo escolhido pelo presidente (depois de Nunes Marques), mas não corresponde exatamente ao perfil. “Ele é, na verdade, um conservador moderado”, define a socióloga Christina Vital da Cunha, “que inclusive já apoiou governos à esquerda”. Em entrevista a Renata Lo Prete, a professora da Universidade Federal Fluminense, também colaboradora do Instituto de Estudos da Religião, explica que o interesse de grupos religiosos pelo Judiciário é anterior ao atual governo e vai além dos evangélicos. Em sua origem está a dificuldade de fazer avançar, via Legislativo, determinados pontos da agenda conservadora. E a necessidade de se contrapor ao que consideram “ativismo do Judiciário”, sobretudo em pautas comportamentais. Christina recorda a entrevista que fez em 2014 com o então candidato à Presidência Pastor Everaldo (PSC), na qual ele reconhecia que o projeto era “trocar a cabeça”, com a finalidade de indicar ministros afinados com os interesses de seu grupo. O alinhamento de muitas lideranças evangélicas com o bolsonarismo se deu ainda no discurso anticorrupção que prevaleceu nas eleições de 2018 -mesma pauta que “agora motiva o rompimento” de parte do segmento com o presidente. Essa é uma das razões, acredita, pelas quais o eleitorado evangélico pode chegar a 2022 fragmentado entre a reeleição de Bolsonaro, a nostalgia dos tempos de prosperidade de Lula e o apelo lavajatista de Sergio Moro. Um racha que o presidente terá de enfrentar também diante da base parlamentar e ativista que empurrou Mendonça até a aprovação pelo Senado - onde a indicação ficou quatro meses parada e enfrentou expressiva resistência. “Se ele atuar conforme o interesse dos grupos que realmente o apoiaram, entrará em choque com Bolsonaro, inevitavelmente”.
Dec 14, 2021
Natal com fome: como ajudar quem precisa
1473
O ano 2 da pandemia agravou uma situação que já era a de milhões de brasileiros em 2020: insegurança alimentar. Ao longo de 2021, a demanda por doações cresceu 30%, enquanto o volume caiu 20%. Uma realidade que Renata Alves, uma das responsáveis pelas ações de enfrentamento à Covid na favela paulistana de Paraisópolis, define como “perturbadora”. Ela relata que a crise tem levado pessoas a buscar comida até em Unidades Básicas de Saúde. Para Daniel Souza, presidente do conselho da ONG Ação da Cidadania, o quadro resulta do “desmonte criminoso das políticas públicas” em anos recentes. Por maior que seja o imperativo da solidariedade, “é só por meio delas que poderemos sair novamente do mapa da fome”, afirma. A terceira entrevista de Renata Lo Prete é com Preto Zezé. O presidente da Central Única das Favelas mostra como o empobrecimento atinge parcelas da sociedade antes relativamente protegidas -resultando no aumento da população de rua e em mais de 20 milhões de brasileiros sem alimentação básica. Para responder a essa tragédia, ele espera promover uma mobilização “mais contagiosa do que o próprio vírus”. A exemplo do que viu acontecer com mães de Fortaleza: em uma ação na capital cearense, havia 50 cartões no valor de R$ 120 reais para distribuir entre essas mulheres; no entanto, 100 apareceram. Então, as primeiras 50 da fila compartilharam o dinheiro com as demais. “Elas fizeram isso não só em um momento difícil do Brasil, mas no pior momento”. O episódio traz indicações de como doar para organizações de ajuda atuantes em todo o Brasil.
Dec 13, 2021
Capes: a crise na pós-graduação
1517
De setembro a dezembro deste ano, por força de uma decisão judicial, centenas de pesquisadores da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior não puderam executar a avaliação de cursos de mestrado e doutorado. Muitos deles responsabilizam a presidência do órgão, ligado ao Ministério da Educação, que não teria recorrido a instâncias superiores com a devida celeridade para reverter esse quadro. Em meio a esse impasse, e diante de uma série de outras denúncias, pelo menos 114 pesquisadores de quatro áreas deixaram a Capes, em movimento inédito. Renata Lo Prete recebe o ex-ministro da Educação e ex-diretor da Capes, Renato Janine Ribeiro, e a repórter do jornal O Globo Paula Ferreira para explicar a questão. Paula apresenta os argumentos dos pesquisadores, segundo os quais a pós-graduação no Brasil “não é mais política de Estado”. Eles apontam ainda falta de diretrizes e de consultas aos técnicos - a presidente da Capes, terceira a ocupar o cargo no governo Bolsonaro, rejeita todas as acusações. Renato lembra que, na produção científica brasileira, "a base de tudo é a avaliação”, um trabalho “barato”, que custa ao governo apenas as despesas dos avaliadores. Para explicar a importância da Capes, Janine lembra que quase toda a ciência no Brasil é feita na pós-graduação. Assim como em outras áreas, ele reforça que, para a ciência, é fundamental ter um plano "que diga quais são as prioridades para o futuro".
Dec 10, 2021
Ucrânia: vai ter invasão da Rússia?
1461
Até meados de novembro, o serviço ucraniano de inteligência estimava em 90 mil os soldados russos deslocados para a fronteira entre os dois países. Os Estados Unidos sugerem que pode ser o dobro, no que enxergam como preparativos para uma ofensiva a partir de janeiro. E ameaçam impor novas sanções a um velho adversário, que por sua vez insinua disposição de pagar para ver. Na perspectiva da Rússia, é a Otan (aliança liderada pelos EUA) que pretende cruzar a “linha vermelha” tentando atrair para seus quadros a mais estratégica das ex-repúblicas soviéticas. Para analisar essa reencenação da Guerra Fria, motivo de teleconferência na terça-feira entre os presidentes Joe Biden e Vladimir Putin, Renata Lo Prete recebe Guga Chacra. O comentarista da Globo em Nova York começa por lembrar que “a Ucrânia faz parte do sentimento de nação dos russos” desde o tempo dos czares e que isso não mudou depois do fim da URSS, em 1991. Para explicar a tensão atual, ele resgata o capítulo anterior, ocorrido em 2014, quando um movimento de inflexão pró-ocidente na Ucrânia terminou com a anexação, pela Rússia, da península da Crimeia. Assim como há sete anos, diz Guga, os americanos não pretendem e dificilmente teriam condições de avançar sobre a vizinhança de Putin. Com outros problemas para resolver, Biden espera, no máximo, manter influência e “uma certa estabilidade na Europa”. Quanto a Putin, embora esteja promovendo a maior mobilização de contingente militar no Leste Europeu em décadas, ainda é cedo para cravar se pretende ir até o fim.
Dec 09, 2021
O aparelhamento da Polícia Federal
1389
Desde o início do mandato, o presidente da República é claro sobre seu projeto de subordinação. Na fatídica reunião ministerial de 22 de abril de 2020, prometeu trocar o diretor-geral e o ministro da Justiça, se necessário - e assim o fez. “Não estamos aqui para brincadeira”, sentenciou no evento. Desde então, acelerou-se o “processo de tomada da PF pelo bolsonarismo”, como define Allan de Abreu, repórter da revista Piauí. Em conversa com Renata Lo Prete, ele descreve as conexões políticas que levaram ao cargo o atual “DG”, Paulo Gustavo Maiurino, conhecido por subordinados como “delegado de cativeiro”, devido à pouca experiência em investigações. O jornalista observa que, ao decretar o fim do “segredismo” na corporação, durante evento interno em maio, Maiurino estava na verdade escancarando a diretriz de tornar a PF uma “polícia política” nas mãos do presidente. O jornalista recorda outras trocas nas quais “gente de confiança” do Executivo assumiu posições de diretoria ou superintendência portando “currículos não tão auspiciosos” e cita especialmente a perseguição ao delegado Felipe Leal - que, depois de investigar afastamentos suspeitos de colegas, acabou ele mesmo sendo retirado do inquérito que apura a interferência de Bolsonaro na PF. Renata e Allan traçam o histórico de conquista de autonomia e protagonismo da corporação a partir dos anos 2000. “Agora é o oposto”, compara Allan. “Uma delegada me disse: aquilo que a instituição demorou anos para construir foi destruído em meses”.
Dec 08, 2021
Por que é preciso exigir passaporte vacinal
1382
A recomendação da Anvisa, emitida há quase um mês, é direta quanto à necessidade de impedir o acesso ao Brasil de viajantes não imunizados contra a Covid. Em suas notas técnicas, a agência pondera que esse é um movimento global diante do aumento no número de casos e da emergência da variante ômicron, mais transmissível. Em entrevista a Renata Lo Prete, a jornalista Isabela Camargo, repórter da GloboNews em Brasília, observa que a atitude da Anvisa foi apoiada por Estados e municípios, além de reiterada pelo Tribunal de Contas da União. Mas nada disso basta num caso que envolve fronteiras nacionais, lembra a jornalista: “só uma portaria do governo federal pode estabelecer a exigência do passaporte da vacina”. E, diante da ostensiva oposição de Jair Bolsonaro, até uma reunião interministerial para tratar do tema foi cancelada nesta segunda-feira -pouco depois de o ministro do Supremo Luís Roberto Barroso cobrar uma posição do Executivo em até 48 horas. Para Rosana Richtmann, infectologista do Instituto Emílio Ribas, esse comprovante e o de testagem são fundamentais para proteger os brasileiros da ômicron. “Ela é quase outro vírus, se comparada a variantes anteriores”, afirma. “E o problema é que outras virão”. A médica cita o caso da febre amarela, cuja vacina é exigida há décadas por pelo menos 100 países, como exemplo de que “a liberdade individual deve ser limitada quando tem impacto no bem coletivo”. E reforça que, para a segurança do país, não bastam ações de administradores locais: “é necessário o governo federal” agir.
Dec 07, 2021
Alemanha: na 4ª onda e sob nova direção
1520
Depois de 16 anos, a era Merkel deve chegar ao fim nesta quarta-feira, quando o Parlamento se reunir e confirmar Olaf Scholz como chanceler. De cara, às portas do inverno, o social-democrata terá de enfrentar o arrefecimento da pandemia - e a resistência de parte da população a se vacinar. Isso será “prioridade absoluta do novo governo”, afirma Kai Enno Lehmann, professor de Relações Internacionais da USP. Angela Merkel e seu sucessor vêm trabalhando juntos em medidas nessa área. Depois da transição, no entanto, conflitos em torno de temas menos consensuais podem emergir. Afinal, a coalizão formada é a primeira, desde a metade do século passado, a abrigar três partidos distintos e “ideologicamente bem diferentes” (verdes e liberais completam o trio). “São parceiros pouco naturais, e isso vai produzir muito debate”, sobretudo a respeito da sempre adiada reforma do sistema previdenciário. Entre as concordâncias, ele aponta investimento na transição para uma economia mais verde - o que, prevê o professor, ameaça colocar mais pressão nas tratativas da União Europeia com o Brasil. Na conversa com Renata Lo Prete, Kai também analisa o longo período Merkel. Segundo ele, a cientista que se tornou uma das políticas mais influentes do mundo “encarnou muito bem” a estabilidade que a Alemanha buscava e conseguiu alcançar, mesmo diante de sucessivas turbulências globais. A democracia-cristã de Merkel foi derrotada nas urnas, mas a chanceler sai de cena com alta popularidade. “Ela tem perfil cauteloso, mas, quando a oportunidade se apresenta, ela pega”, resume. “E esse jeito frio de lidar com as crises conquistou os alemães”.
Dec 06, 2021
Recessão técnica: daqui vamos para onde?
1508
O resultado do PIB brasileiro teve o segundo trimestre seguido no vermelho: de acordo com o IBGE, a economia retraiu 0,1% no 3° trimestre de 2021 em relação ao período anterior - condição que coloca o país em recessão técnica. Miriam Leitão, comentarista da Globo, da CBN e colunista do jornal O Globo, analisa em conversa com Renata Lo Prete o processo de recuperação dos índices neste 2021 em relação ao ano anterior - “um Brasil que caiu, levantou mas não conseguiu andar”. E por que estamos ficando para trás em relação ao resto do mundo. Parte das respostas está em Brasília, nas figuras de um presidente “desorganizador e criador de conflitos” e de um ministro da Economia “fora da realidade”. Miriam fala das perspectivas para 2022: com juros mais altos, a previsão é de "economia parada", mas com inflação menor, "em parte pela produção maior da agricultura". E como a alta menor nos preços dos alimentos deve aliviar o orçamento das famílias “que estará apertado por um país que não cresce, e por um desemprego muito alto". Participa também deste episódio Mauro Rodrigues Júnior, professor da USP e economista do site “Por quê? Economês em bom português”. Ele explica a composição do PIB, número que “dá o valor de tudo o que foi produzido”. E como o resultado reflete “a renda total da economia”, além de detalhar os mecanismos para a medição dos resultados. E aponta ainda para onde olhar para diagnosticar a saúde econômica do país: “é preciso entender a renda média”, conclui, ao apontar que, muito desigual, “o Brasil está muito mal”.
Dec 03, 2021
Centrão-raiz: esteio de Bolsonaro para 2022
1511
Depois de passar mais de dois anos sem legenda, Bolsonaro ingressou na nona de sua carreira política. E se declarou “em casa” na cerimônia de filiação ao Partido Liberal, que teve a presença também de lideranças do Progressistas (PP) e do Republicanos. É nesse trio que o presidente pretende apoiar sua campanha à reeleição - na contramão de 2018, quando concorreu como candidato “antissistema”. Neste episódio, Renata Lo Prete conversa com Bernardo Mello Franco, colunista do jornal O Globo e comentarista da rádio CBN, para entender motivos, vantagens e riscos desse consórcio. Bernardo começa por lembrar que, quando deixou o PSL, a ideia de Bolsonaro era criar um partido, mas isso “exige organização e trabalho, duas coisas que não são o forte dele”. Resgata também as opções que o presidente cogitou até finalmente se decidir. “Pesou a favor do PL o fato de ter dono único”, explica. Ele se refere a Valdemar Costa Neto, político de 7 vidas condenado no mensalão e influente em todos os governos. Para o cacique, Bolsonaro representa, no mínimo, um impulsionamento de votos capaz de expandir uma bancada que já é das maiores da Câmara. E, no melhor cenário, oferece a perspectiva de entrar no principal gabinete do Palácio do Planalto “pela porta da frente e sem bater”. Desde que a aliança se mantenha firme até a eleição - o que, Bernardo ressalva, depende de muitos fatores e ninguém tem como garantir.
Dec 02, 2021
Boate Kiss: enfim caso vai a julgamento
1379
São quase nove anos desde o incêndio na casa noturna da cidade gaúcha de Santa Maria, no qual morreram 242 pessoas, a maioria estudantes universitários. A data era 27 de janeiro de 2013, mas “é como se esses meninos e meninas morressem todos os dias” desde então, afirma Daniela Arbex, autora do livro “Todo Dia a Mesma Noite - A História Não Contada da Boate Kiss”. Isso porque, até hoje, ninguém foi responsabilizado pelas irregularidades e negligências que resultaram na tragédia. “Eu percebo que a falta de Justiça dói tanto quanto a morte”, diz a jornalista, referindo-se a suas conversas com familiares e sobreviventes (estes, mais de 600, muitos com sequelas graves). Nesta quarta-feira, depois de longo e acidentado processo, um júri popular começa a decidir o destino de quatro réus - dois ligados à boate e dois à banda que se apresentava no local e deu início ao fogo. Na conversa com Renata Lo Prete, Daniela destaca a luta dos pais, sem a qual, ela acredita, o julgamento jamais aconteceria. A memória daquela noite é motivo de “adoecimento permanente” para eles, que enfrentam ainda a “hostilidade” de outros moradores, que os culpam pelas dificuldades econômicas de Santa Maria. “Hoje, é uma cidade dividida entre as pessoas que perderam seus amores e aquelas que querem que a história seja esquecida”.
Dec 01, 2021
Ômicron: por que o mundo tem medo
1807
Em poucos dias, a nova variante do coronavírus, de origem ainda desconhecida, mas sequenciada primeiro na África do Sul, alcançou o status de “gravidade máxima”, conferido pela Organização Mundial da Saúde. “Foi a mais rápida”, observa Ethel Maciel, professora da Universidade Federal do Espírito Santo. Na conversa com Renata Lo Prete, ela explica o que levou a comunidade científica e o mercado ao estado de alerta em tempo recorde: o risco de que as mutações da ômicron saibam “escapar” da resposta imune desenvolvida por pessoas vacinadas. Nas próximas duas semanas, estima a epidemiologista, os principais laboratórios do planeta devem estabelecer o nível de eficácia dos atuais imunizantes contra a nova variante. Até lá, cabe ao governo brasileiro “ampliar o programa de testagem e de vigilância genômica”. Se for constatado que a ômicron tem mesmo grande potencial de dano, analisa o jornalista do Valor Econômico Assis Moreira, haverá mais pressão para que os países se entendam sobre a suspensão de patentes. Mesmo que ela só venha a se mostrar útil “numa próxima pandemia”. “Vai levar anos para que todos consigam produzir”, ele afirma. E alerta para o relatório em que a OMS prevê mais 5 milhões de mortes “se tudo continuar como está” do ponto de vista da distribuição global de vacinas. No campo da diplomacia, China, Rússia e Estados Unidos prometem a transferência de bilhões de doses para reverter a desigualdade: os países do G-20 compraram 89% de todas as disponíveis - e já anteciparam a aquisição majoritária das futuras. “Já existe vacina suficiente para todo o mundo; o problema é o desequilíbrio”.
Nov 30, 2021
Pobreza Menstrual: sociedade reage
1316
Na esteira do veto de Jair Bolsonaro à lei que prevê fornecimento gratuito de absorventes a mulheres em situação de vulnerabilidade, prosperaram iniciativas locais, dos setores público e privado, para atacar uma carência essencial de milhões de brasileiras. A forte repercussão ameaça reverter o próprio gesto do presidente — está em curso uma articulação no Congresso para derrubá-lo na próxima sessão de análise de vetos, no início de dezembro.
Nov 29, 2021
Garimpo: Serra Pelada no Rio Madeira
1521
Um arrastão de centenas de balsas num dos mais importantes afluentes do Amazonas, lar de cerca de 1.200 espécies de peixes. Atracadas em trecho situado no município de Autazes, a 133 km de Manaus (AM), elas são o traço mais visível de uma corrida do ouro que muitos já comparam à que se deu nos anos 80 na Serra dos Carajás (PA). O repórter Alexandre Hisayasu, que sobrevoou a área, descreve uma “invasão em massa de garimpeiros” que, por lei, não poderiam operar ali. Nesta quinta-feira, depois de duas semanas de tensão escalando, o vice-presidente Hamilton Mourão anunciou que será criada “uma força-tarefa” para lidar com o problema. Em conversa com Renata Lo Prete, o jornalista da Rede Amazônia, afiliada da Globo, detalha o funcionamento do garimpo sobre balsas e seu impacto ambiental - uma vez que tudo, “incluindo mercúrio”, é jogado de volta no rio. Para Raoni Rajão, professor de Gestão Ambiental e Estudos Sociais da Ciência e Tecnologia da UFMG, esse tipo de ação remete ao modo como agem as Farc do lado de lá da fronteira, “desafiando a autoridade e a soberania do Estado brasileiro”. A ousadia crescente dos garimpeiros, analisa Rajão, relaciona-se com o desmonte de órgãos como o Ibama e o “apoio explícito de parte do poder público” à atividade ilegal. Resultado de uma legislação criada décadas atrás para atender a lógica da lavra artesanal e que hoje é desvirtuada, facilitando a prática de crimes que mobilizam milhões de reais, equipamentos sofisticados e até helicópteros e aviões. Na Amazônia, mais da metade do ouro tem indícios de ilegalidade, afirma o pesquisador, gerando prejuízos de “escala bilionária”, muito superiores aos impostos arrecadados com a mineração legal. “Como um todo, é negativo para a sociedade”.
Nov 26, 2021
Carne: embargo da China e outras pressões
1409
Destino de 15% da carne bovina brasileira, a China suspendeu suas compras no início de setembro, depois que o Brasil reportou dois casos da doença da vaca louca. Agora, depois de mais de dois meses, dá sinal verde para a retomada parcial das importações. Roberto Rodrigues, ministro da Agricultura entre 2003 e 2006, analisa em conversa com Renata Lo Prete o impacto do embargo para o Brasil. Ele explica como a pandemia trouxe à tona duas questões que estão diretamente relacionadas ao agro: sustentabilidade e segurança alimentar. E seus resultados práticos: corrida acelerada dos países pela compra de mais comida, com pressão inflacionária global - com efeito mais severo para o mercado interno, diante da desvalorização do real em relação ao dólar. Em paralelo ao contencioso com a China, o ex-ministro fala sobre a preocupação do agro nacional com o eventual embargo ameaçado pela União Europeia sob argumento ambiental: uma “espécie de barreira não-tarifária”, que ele considera “protecionismo injustificado”. Participa também Rafael Walendorff, repórter do Valor Econômico. Ele atualiza o status da negociação entre os governos para a liberação da carne nos portos chineses e contextualiza a “jogada comercial” da China em derrubar parcialmente o embargo: repõe seu estoque interno de proteína animal (que tradicionalmente cai nos fins de ano) e “sinaliza boa vontade” aos frigoríficos brasileiros.
Nov 25, 2021
Para onde vai o Chile no 2º turno?
1444
Desde a redemocratização, coalizões de centro-direita e de centro-esquerda se alternaram no poder. Uma equação, ao menos na aparência, mais estável que a de outros países da região até 2019, quando milhares de chilenos tomaram as ruas por dois meses. “A panela de pressão explodiu”, resume a socióloga Beatriz Della Costa, diretora do Instituto Update, que estuda inovação política na América Latina. Para ela, dois fatores explicam a virada de vento: “brutal desigualdade social” e “baixo acesso a serviços públicos”. Os protestos abriram caminho para uma Assembleia Constituinte, eleita em maio deste ano, de configuração majoritariamente progressista. E agora, apenas seis meses depois, nova inflexão: no primeiro turno da disputa presidencial, realizado no domingo passado, o candidato da extrema-direita, José Antonio Kast, chegou na frente, com 28% dos votos. Na etapa final, seu adversário será o Gabriel Boric, de esquerda, que obteve 25%. “O que está em jogo é a capacidade de mobilização” de cada um, afirma Beatriz. Para o historiador Felipe Loureiro, os eleitores de Franco Parisi (terceiro colocado, com 13%), serão o fiel da balança. E, até aqui, os sinais são de que Kast teria capacidade de atraí-los em maior número. Loureiro, coordenador do curso de Relações Internacionais da USP e do Observatório da Democracia no Mundo, explica que a agenda econômica e o discurso de ordem de Kast têm aderência no mercado e entre nostálgicos da ditadura -ele é defensor ferrenho de Augusto Pinochet. Já a pauta de Boric, ligada a temas como preservação ambiental e defesa dos direitos humanos, encontra eco no eleitorado mais jovem.
Nov 24, 2021
Prévias frustradas: o apagão tucano
1579
De 1994 até 2014, o PSDB foi protagonista de todas as eleições presidenciais, vencendo as duas primeiras (com FHC) e perdendo para o PT no 2º turno das demais. Mesmo em 2018, Geraldo Alckmin conseguiu reunir a maior coalizão do pleito, antes de terminar em 4º lugar, com menos de 5% dos votos. Naquela altura, “o eleitor antipetista começou a enxergar mais defeitos no partido”, lembra o jornalista Fábio Zambeli, analista-chefe em São Paulo da plataforma Jota. E migrou em peso para Jair Bolsonaro. Desta vez, sem nenhum postulante com força suficiente para se impor de saída na disputa interna, a sigla marcou inéditas prévias para escolher entre João Doria (SP), Eduardo Leite (RS) e Arthur Virgílio (AM). Mas, na hora H, a milionária plataforma de votação simplesmente não funcionou. E agora os tucanos se bicam sobre o que fazer, expondo fraturas de difícil conserto. Na avaliação de Zambeli, o desastre de domingo “é um case de antipropaganda para o eleitor arrependido do voto em Bolsonaro” e empurra ainda mais o PSDB à condição de “plano C” para o espectro político que vai do centro à direita - atrás do próprio presidente e do ex-juiz Sergio Moro. “Há mais dúvida do que convicção na empreitada, seja com Doria ou com Leite”, diz. Favorito para vencer caso as prévias aconteçam, o governador de São Paulo será o mais prejudicado se o impasse se estender indefinidamente.
Nov 23, 2021
Amazônia: a marcha batida da destruição
1648
O balanço anual do Inpe indica, pela quarta vez seguida, avanço do desmatamento na região. No comparativo com o período anterior, a alta foi de 22%, correspondente a mais 13 mil km². Números não apenas assombrosos como ocultados pelo governo desde outubro, para que só viessem à luz depois da Cúpula do Clima da ONU. De posse das informações, o agrônomo André Guimarães, diretor-executivo do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazonia (Ipam), dimensiona o estrago: uma perda anual equivalente a quatro vezes o tamanho do Distrito Federal, 90% em operações ilegais e mais da metade em terras públicas, griladas para especulação fundiária. “Ao perder floresta, perdemos biodiversidade, serviços ambientais e ciclos hídricos que ela mantém”, explica. Esse longo período de desmatamento em patamares elevados coincide com o protagonismo dos militares no Conselho da Amazônia, contextualiza a jornalista Marta Salomon, colaboradora da revista Piauí e doutora em Desenvolvimento Sustentável. Ela se baseia em documentos públicos para afirmar que a atual estratégia oficial para o bioma remonta à época da ditadura. “É uma visão de que não se trata de um território estratégico para mudanças climáticas, mas sim de uma fronteira de recursos naturais a ser explorada”. Marta explica também que as Forças Armadas assumiram não só o comando estratégico, mas também o das verbas públicas: em 2020, geriram R$ 370 milhões para a Amazônia, o dobro do que os órgãos ambientais tiveram no período. E os resultados vemos agora.
Nov 22, 2021
Os “sem-nada” são quase 30 milhões
1503
Em um contexto no qual a inflação se aproxima dos dois dígitos e o desemprego nas faixas de menor renda atinge um terço da população, o mês de novembro marca o fim da última fase do auxílio emergencial e a substituição completa do Bolsa Família, criado há 18 anos, pelo Auxílio Brasil. Uma operação que vai empurrar para a pobreza mais brasileiros - a maior parte mulheres, negras, jovens, com filhos, sem trabalho formal e moradoras de periferias e favelas, como descreve Lucia Xavier, assistente social há mais de 30 anos e coordenadora da ONG Criola, que atua no Rio de Janeiro. Ela relata que vê pessoas sem condições de comprar até medicamentos e comida, sobretudo proteínas animais. “As pontas das carnes eram compradas em açougues ou mercados, mas, agora, o recurso não alcança”, conta. O economista Marcelo Neri, diretor da FGV-Social, dimensiona e analisa: a renda dos mais pobres caiu 21,5% desde o início da crise sanitária. “É um Brasil bem pior do que antes da pandemia”. E com sinais econômicos apontando para mais deterioração. Neri explica que, ao olhar para trás, observam-se duas grandes crises - a recessão brasileira de 2016 e a mais recente, agravada pela pandemia. Mas, ao mirar à frente, a paisagem aponta estagflação. E um governo incapaz de focalizar sua política social. Diante de um “apagão de informações” que atrapalha a aplicação das políticas públicas, a vulnerabilidade é a nova regra. “Os mercados gostam de estabilidade, mas são os beneficiários desses programas que precisam muito mais dela”.
Nov 19, 2021
Argentina em seu labirinto pós-eleitoral
1382
O presidente Alberto Fernandez terá que atravessar os dois anos remanescentes de mandato sem maioria no Senado e com vantagem estreita na Câmara. E, nessas condições, enfrentar uma inflação que neste ano já supera 40%, mesmo percentual da população que vive na pobreza. Em conversa com Renata Lo Prete sobre desdobramentos das eleições legislativas de domingo passado, o jornalista Ariel Palacios resgata o histórico de uma crise econômica que vem de longe, foi agravada pela pandemia e agora cobra a conta do condomínio peronista instalado no poder central. “Condomínio que mais parece um hospício”, diz o correspondente da Globo em Buenos Aires. Ele se refere, principalmente, à disputa permanente entre os apoiadores de Fernandez e de sua vice, a ex-presidente Cristina Kirchner - também derrotada nas urnas. Ariel analisa ainda mudanças dentro da coalizão oposicionista, com perda de poder do ex-presidente Mauricio Macri. E recomenda prestar atenção à chegada da extrema-direita ao Congresso, com a eleição do economista “antissistema” Javier Milei.
Nov 18, 2021
Lockdown: agora para não-vacinados
1368
Diante da quarta onda de infecções por Covid-19, a Áustria resolveu resgatar uma medida dos primeiros tempos da pandemia. Pelos próximos dias, vai impor restrições drásticas à circulação de pessoas, mas, desta vez, apenas aquelas que não se imunizaram. Direto de Viena, a jornalista Amanda Previdelli conta que, para entender o presente, é preciso lembrar do que aconteceu desde o verão passado: o distanciamento foi derrubado, e uma hora a vacinação “empacou”. Em parte porque, segundo ela, “o governo falhou em conversar com as pessoas”. Já efeito do isolamento recém-anunciado foi imediato: “filas para fazer teste de PCR e tomar vacina”. Participa também do episódio Bianca Rothier, correspondente da Globo na Suíça. Ela dá um panorama de medidas adotadas por países como Alemanha, Holanda e Dinamarca - num momento em que a Europa voltou a ser o epicentro da pandemia. E mostra que a situação é pior onde a vacinação menos avançou - casos de Rússia, Romênia e Bulgária, por exemplo.
Nov 17, 2021
Inflação: a do Brasil e a do mundo
1787
A aceleração de preços é global. Mas aqui ela não apenas alcança taxas mais elevadas como tem motores específicos. Com a ajuda de dois estudiosos do tema, este episódio procura explicar tanto o fenômeno geral quanto as peculiaridades do caso brasileiro. Para a primeira tarefa, o convidado é Otaviano Canuto, ex-diretor-executivo do FMI e do Banco Mundial. De Washington, onde dirige o Centro para Macroeconomia e Desenvolvimento, ele analisa o momento histórico “extraordinário”, no qual o aquecimento da demanda (especialmente nos países ricos) não encontra correspondência na oferta (ainda impactada pelo efeito disruptivo da pandemia nas cadeias produtivas). Canuto descreve as faces da crise de energia em diferentes regiões e a escassez de mão-de-obra nos Estados Unidos - onde a inflação anualizada é a maior em três décadas. Na comparação com ciclos passados, ele vê vantagem no fato de hoje não haver a “dinâmica perversa da corrida entre salários e preços”, nem economias tão fechadas, o que oferece “possibilidade maior de substituição de produtos”. A questão principal, diz, é “quando os agentes privados acham que a situação vai se estabilizar”. E conclui: não antes do meio de 2022. Renata Lo Prete conversa também com André Braz, pesquisador do Ibre-FGV, que aponta o espalhamento como um dos traços distintivos da inflação brasileira. Puxada sobretudo por energia elétrica e combustíveis (estes sob efeito permanente de uma desvalorização cambial acima da média), ela hoje está disseminada por todos os preços da economia, e em outubro atingiu o maior patamar, para esse mês, desde 2002. Braz chama a atenção para outro elemento complicador: “como nossa inflação não é de demanda, e sim de custos, aumentar a Selic ajuda pouco a resolver”. Ele se refere à elevação da taxa básica de juros que o Banco Central vem promovendo. Melhor remédio, avalia o economista, seria o fiscal. Mas ele mesmo acha improvável que, com uma campanha eleitoral pela frente, governo e Congresso tomem medidas relevantes de corte de gastos.
Nov 16, 2021
Avanços e frustrações: saldo da COP-26
1581
A mais aguardada cúpula climática desde o Acordo de Paris (2015) vai chegando ao fim com resenha mista, feita neste episódio por Daniela Chiaretti, repórter especial do Valor Econômico. Com a experiência de quem cobriu esta e as 12 conferências anteriores, ela destaca, entre os ganhos, o entendimento para cortar drasticamente as emissões de metano - ainda mais poluente que o gás carbônico. Aponta como revés o fato de EUA, China e Índia terem pulado fora de compromisso para reduzir a produção de carvão. E reconhece que, no cômputo geral, os resultados do evento devem ficar aquém da “palavra mágica” que o precedeu: “ambição”. Até porque o financiamento das medidas para conter o aquecimento do planeta “é sempre um problema”, lembra Daniela. Também participando do episódio direto de Glasgow, na Escócia, a administradora pública Natalie Unterstell, especialista em mudanças climáticas, analisa o papel desempenhado pelo Brasil, que chegou à COP-26 “como pária”. Isso obrigou a diplomacia do país a adotar posição “muito humilde” em várias discussões. Para além de gafes cometidas pelo ministro do Meio Ambiente, Joaquim Leite, o que fica de mais surpreendente, segundo ela, são concessões feitas num ponto central: os mercados de carbono.
Nov 12, 2021
Vacina para crianças: a hora do Brasil
1316
No mundo todo, a prioridade dada a grupos mais expostos às formas graves de Covid-19 empurrou a imunização dos pequenos para o final da fila. Desde setembro, porém, ela é realidade em muitos países, e por aqui a Anvisa analisa pedidos nesse sentido. Nada mais oportuno, na avaliação de Marco Aurélio Sáfadi, presidente do Departamento de Infectologia da Sociedade Brasileira de Pediatria. Num momento em que outras faixas etárias já estão mais protegidas, é natural que a participação das crianças no universo de doentes aumente, e com ela a conveniência de vaciná-las. Além disso, diz Sáfadi, a “desproporcionalidade” com que a doença colhe vítimas entre os mais idosos “faz com que a gente se distraia” de uma estatística cruel: o Brasil tem uma das mais altas taxas de mortalidade por Covid entre crianças e adolescentes. Na contramão do Ministério da Saúde, que até aqui manifesta desinteresse em incluí-los no plano nacional, o infectologista defende a medida e prevê que “não vai parar por aí”: logo mais, segundo ele, estaremos discutindo a vacinação de bebês.
Nov 11, 2021
Enem: retrocessos em série
1618
Já são quase 3 anos (com uma pandemia no meio) de ideias fora de lugar no Inep, responsável pelo Exame Nacional do Ensino Médio. Todas no sentido de enfraquecer uma ferramenta essencial de avaliação do aprendizado, que desde 2008 funciona também como maior vestibular do país. Agora, a menos de 2 semanas do Enem de 2021, mais de três dezenas de servidores do instituto entregaram seus cargos, muitos de coordenação do exame. Denunciam um quadro que inclui de assédio moral a fragilidade técnica do comando. “E eles têm provas”, afirma com conhecimento de causa a pedagoga Maria Inês Fini, uma das idealizadoras do Enem, que esteve à frente do Inep entre 2016 e 2018. Para ela, o desmonte do órgão, que no governo Bolsonaro já teve quatro presidentes, não é acidental, e sim um “processo programado de exclusão” - a prova deste ano tem o menor número de inscritos desde 2005. Na entrevista a Renata Lo Prete, ela resgata a história do exame e sua importância para a democratização do acesso ao ensino superior. Participa também do episódio a jornalista da Globo Ana Carolina Moreno, para lembrar que o desmantelamento em curso tem consequências mais amplas do que se imagina: hoje o Inep não divulgou os dados relativos à prova passada, instrumento estratégico para conhecer o perfil dos alunos e definir políticas públicas.
Nov 10, 2021
Curto-circuito no Orçamento secreto
1871
Ao mandar suspender o pagamento das “emendas de relator” e determinar a publicidade das informações acerca dos beneficiários desses recursos, a ministra Rosa Weber deu um nó no sistema que sustenta o governo Bolsonaro no Congresso. Nesta “superterça”, como define a jornalista Vera Magalhães, o plenário virtual do Supremo estará recebendo os votos dos colegas de Rosa para confirmar ou rejeitar a decisão liminar. Enquanto isso, em outro ponto da Praça dos Três Poderes, o presidente da Câmara pretende votar em segundo turno a PEC dos Precatórios - mesmo diante de questionamentos da própria ministra, relatora também de ações que apontam desrespeito ao regimento na primeira e apertada aprovação do texto. Colunista do jornal O Globo, comentarista da rádio CBN e apresentadora do programa Roda Viva, da TV Cultura, Vera relata o bastidor do tribunal quanto a essa questão. Na conversa com Renata Lo Prete, ela aposta numa “saída conciliatória”, que preserve prerrogativas do Legislativo e, ao mesmo tempo, restaure alguma transparência no manejo do dinheiro público. O diagnóstico é compartilhado por Valdo Cruz, colunista do g1 e comentarista da GloboNews, que participa deste episódio para analisar os humores do Congresso e do Palácio do Planalto. Ele fala da urgência, para Bolsonaro e Lira, em aprovar a PEC que viabilizará a vitrine eleitoral de um (Auxílio Brasil) e o instrumento de poder do outro (mais recursos para emendas parlamentares), às custas de um drible no teto de gastos. E relembra votações anteriores igualmente regadas com o pagamento de “emendas de relator”. Também para deputados e senadores, “o que está pesando é o ano que vem”, quando muitos enfrentarão recondução difícil a seus mandatos.
Nov 09, 2021
Moro e Dallagnol: Lava Jato vai às urnas
1691
Em 2018, com Lula preso, quase duas centenas de outros personagens condenados e mais de R$ 12 bilhões recuperados para os cofres públicos, a operação viveu o apogeu de sua influência. Ajudou a eleger o presidente da República e outros nomes que se apresentaram como desafiadores da corrupção e do “sistema”. Agora, às vésperas de um novo ciclo eleitoral, os dois principais símbolos da República de Curitiba preparam sua entrada na pista. Sergio Moro, ex-juiz e ex-ministro de Jair Bolsonaro, está com filiação marcada ao Podemos. Foi “um dos poucos partidos que se dispuseram a abrigá-lo”, conta Andréia Sadi, repórter da Globo, colunista do G1 e apresentadora da Globonews. Moro mira o Planalto, buscando espaço no miolo em que se acotovelam vários “candidatos a candidato” da chamada “terceira via” -pelotão hoje distante de Lula e Bolsonaro, primeiro e segundo colocados nas pesquisas, respectivamente. Já Deltan, que acaba de anunciar seu desligamento do Ministério Público Federal, almeja cadeira na Câmara dos Deputados. O mandato lhe daria algo que sempre criticou: imunidade parlamentar, útil diante das denúncias que enfrenta pela atuação na Lava Jato. Na conversa com Renata Lo Prete, Andréia reconstrói as movimentações de ambos e avalia cenários para cada um. Ainda neste episódio, o consultor Mauricio Moura, fundador do instituto Ideia, aponta o grau de conhecimento que o eleitorado tem de Moro como principal ativo dele na comparação com outros postulantes da “terceira via”. Por outro lado, Mauricio mostra com números como a aprovação ao ex-juiz caiu desde seu desembarque do governo. E projeta que, em 2022, a conversa se dará principalmente sobre temas como emprego, inflação e pobreza. “É a eleição na qual a pauta econômica terá mais peso desde 1994”.
Nov 08, 2021
PEC dos precatórios: como ler a votação
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Perto do limite do tempo regulamentar, o governo conseguiu colocar de pé seu “plano A” para 2022: um programa social que entre no lugar do já extinto Bolsa Família. Para que ele saia do papel, venceu a tese do calote constitucionalizado em dívidas da União e do abandono do teto de gastos. A PEC dos Precatórios é a torneira da qual sairão recursos para o Auxílio Brasil e também para encher ainda mais o tanque das emendas parlamentares no ano da eleição. “Todo governo faz barganha, mas este se reduziu a isso”, resume Maria Cristina Fernandes, colunista do jornal Valor Econômico e comentarista da rádio CBN. Na votação da PEC em primeiro turno na Câmara, a operação funcionou, mas por pouco: a proposta passou com apenas 4 votos acima do mínimo necessário. E para isso contou com todo o empenho do presidente da Casa, que permitiu até votação remota de deputados que estão fora do Brasil. A “chicana de Arthur Lira”, explica Maria Cristina, está relacionada à compreensão de que a “lógica das emendas de relator vai morrer” - e que portanto o Centrão precisa se mobilizar para garantir seu naco no Orçamento do ano que vem. Na conversa com Renata Lo Prete, ela analisa ainda o racha em partidos como o PDT (que levou Ciro Gomes a “suspender” sua pré-candidatura ao Planalto) e PSDB (reflexo do “drama tucano” de ver se esvaírem suas condições de liderar uma eventual “terceira via” na disputa presidencial).
Nov 05, 2021
5G: o leilão e o que muda depois dele
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A disputa pela exploração das frequências da internet de 5ª geração, marcada para esta quinta-feira, é o primeiro passo para revolucionar a conectividade no Brasil. “O 5G realmente é a próxima internet”, reforça Fabro Steibel, diretor-executivo do Instituto de Tecnologia e Sociedade. Essa tecnologia não só permite conexões até 100 vezes mais rápidas do que as atuais -melhorando, por exemplo, a qualidade de chamadas de vídeo- como irá impactar a estrutura das cidades, a produtividade da indústria e a eficácia dos transportes. Sua implementação será fundamental para que a chamada “internet das coisas” vire realidade. “A experiência será muito mais presente”, diz Fabro em entrevista a Renata Lo Prete. “Talvez passe a ser até estranho ter algo em sua casa que não seja conectado”. Ele alerta, no entanto, que até o ano que vem teremos apenas um “5G caviar”, aquele do qual “só se ouve falar”: a perspectiva é de que a implementação completa leve até 10 anos. Também neste episódio, a repórter Ivone Santana, do Valor Econômico, explica as condições impostas pela Anatel às operadoras, os prazos previstos para o início da prestação do serviço e por que a chinesa Huawei -mesmo depois do lobby contrário do então presidente Donald Trump- não foi impedida de atuar no país, como grande fornecedora de equipamentos ao setor.
Nov 04, 2021
A cultura do sigilo na era Bolsonaro
1620
Às vésperas do aniversário de 10 anos da Lei de Acesso à Informação, o direito ao conhecimento de dados públicos nunca esteve tão ameaçado. Assistimos a uma série de embargos centenários impostos a itens que vão desde a carteira de vacinação do presidente da República até registros da presença de seus filhos na sede do governo, passando pelo julgamento que absolveu o general Eduardo Pazuello após flagrante manifestação política. “São exemplos até caricatos”, resume o advogado criminalista Luís Francisco Carvalho Filho, que presidiu, entre 2001 e 2004, a Comissão Especial de Mortos e Desaparecidos. Na conversa com Renata Lo Prete, ele descreve tipos de informações estratégicas e, portanto, passíveis de sigilo -- e pondera que, no caso de autoridades públicas, “não se pode usar destes mesmos princípios para esconder” nada. “O que prevalece é a coisa pública”. Comentando o fato de que o Ministério da Defesa é o que mais reduziu o atendimento de pedidos via LAI, Luís Francisco observa que a “tradição de sigilo das Forças Armadas é exagerada”. E lembra que Bolsonaro, por sua vez, já descumpriu sigilos que haviam sido determinados pela Justiça: “Aí entramos no caminho da delinquência política”. Participa deste episódio também Jorge Hage, ex-ministro-chefe da Controladoria Geral da União à época da implementação da LAI. “O Brasil se integrou a toda uma mobilização internacional em uma crescente evolução para medidas de transparência”, relata. A questão atual, para Hage, é que, ao momento da elaboração tanto da Constituição quanto da lei, “não se imaginava a realidade de hoje” no quesito fake news. “O problema não é o governo apenas resistir a abrir suas informações, mas ainda patrocinar a divulgação de informações falsas”.
Nov 03, 2021
CLIMA: jovens à frente do movimento
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Os seis anos que se passaram desde o Acordo de Paris viram a frustração das metas de corte das emissões de gases que aquecem o planeta, mas também a ascensão do ativismo para salvá-lo. A sueca Greta Thunberg é a figura mais conhecida entre milhares de jovens que, primeiro, foram às ruas em várias cidades do mundo, para em seguida ganhar voz também nos grandes fóruns globais. Neste quinto e último episódio de uma série especial preparatória da COP-26, O Assunto traz depoimentos de jovens brasileiros que participam do evento iniciado neste domingo em Glasgow, na Escócia. E uma entrevista com a baiana Catarina Lorenzo, de 14 anos -- estudante, surfista e embaixadora da ONU para Águas Internacionais. Aos 12, ela discursou na sede do Unicef, em Nova York, depois de ter apresentado, junto com outras 14 novas lideranças, uma reclamação formal contra o Brasil por não agir no enfrentamento da crise. Na conversa com Renata Lo Prete, ela relata como se deu conta da destruição do meio ambiente cedo e na prática -- estranhando a temperatura da água e o embranquecimento dos corais ao mergulhar na região de Maraú. “Quando depois aprendi sobre mudanças climáticas na escola, acendeu uma lâmpada em minha cabeça”, relata. “E eu precisava agir”.
Nov 01, 2021
Máscaras: nova fase, novas regras
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Desde o início da pandemia, elas foram incorporadas ao figurino e se tornaram essenciais para conter o avanço do contágio. Com a chegada dos imunizantes, países que progrediram mais rapidamente na aplicação começaram a deixá-las de lado - e alguns se arrependeram. Agora, com cerca de metade da população totalmente vacinada, o Brasil revê seus protocolos - em mudanças já decididas ou em estudo por Estados e municípios. Em entrevista a Renata Lo Prete, o engenheiro biomédico Vitor Mori, integrante do Observatório Covid 19 BR, afirma que esse debate deve tratar de modo diferente ambientes abertos e fechados: nos primeiros, já cabe falar em flexibilização; nos outros, os riscos ainda são grandes. Ele defende “políticas de incentivo” ao uso de espaços abertos e a adoção de critérios além da taxa de imunização para definir a hora de suspender a obrigatoriedade das máscaras. Participa também a imunologista Ester Sabino, para analisar um fator embutido nessa discussão: o efeito aparentemente controlado da variante Delta no Brasil, ao contrário do que se viu em outros países. Ester levanta hipóteses que explicam o fenômeno, mas recomenda cuidado: é preciso “trabalhar dia a dia” para evitar retrocessos. Ela conclui que, no melhor cenário, o Brasil pode servir de laboratório para responder a uma pergunta central: quando será possível não se preocupar mais com o uso de máscaras?
Oct 29, 2021
Combustíveis nas alturas: os efeitos
1397
Desde o início do ano, a gasolina subiu mais de 73%, e o diesel, 65%. A arrancada dos preços bate mais duro em categorias como motoristas de aplicativo e caminhoneiros, mas já modifica hábitos até de quem simplesmente tinha no carro particular seu principal meio de locomoção. E a perspectiva é de que o patamar “continue elevado” por um bom tempo, afirma a economista Julia Braga, da Universidade Federal Fluminense. Os motivos, que ela explica na conversa com Renata Lo Prete, devem ser buscados primeiro no mercado internacional, onde o valor do barril de petróleo vem batendo seguidos recordes. E dizem respeito tanto à demanda (turbinada pelos países em recuperação mais acelerada na pandemia) quanto à oferta (limitada pelos produtores reunidos na OPEP). Soma-se a isso um fator interno de grande peso: o câmbio. O real vem se desvalorizando mais do que a maioria das moedas, e a Petrobras, desde 2016, pratica preços que acompanham as flutuações externas - embora ainda com alguma defasagem. Julia analisa, do ponto de vista técnico, o embate entre o presidente Jair Bolsonaro e governadores em torno das alíquotas do ICMS, imposto estadual que incide sobre os combustíveis. Ela não descarta ajustes (“algum nível de política tributária ajuda”), mas crava: “O ICMS não é o responsável pelo aumento que estamos assistindo em 2021”.
Oct 28, 2021
Mentiras que matam: fake news na pandemia
1745
A falsa associação feita por Jair Bolsonaro entre vacina contra a Covid e risco de contrair o vírus da Aids recolocou na ordem do dia o efeito letal da desinformação numa crise sanitária. Um processo acompanhado de perto por Roney Domingos, jornalista do g1 que integra o projeto de checagem Fato ou Fake. Neste episódio, ele lembra que, enquanto o coronavírus atacava sobretudo na China, vídeos e outras montagens fraudulentas procuravam maximizar o horror. Mas, quando a doença chegou com força ao Brasil, houve uma “inversão de sinal”, e negacionistas passaram a usar o mesmo expediente para subestimar o perigo, promover tratamentos sem eficácia e boicotar o distanciamento social. Entre tantos personagens que acompanhou nessa cobertura, Roney não se esquece de Iomar, irmão gêmeo do enfermeiro Anthony Ferrari, que espalhou dezenas de fake news sobre a Covid até morrer da doença, junto com vários familiares. “Em 15 dias, perdeu as pessoas que mais amava” e se foi, conta sobre Iomar. Renata Lo Prete conversa também com Fernando Aith, do Departamento de Política, Gestão e Saúde da Faculdade de Saúde Pública da USP. O professor lista pelo menos quatro crimes contidos na fala mais recente de Bolsonaro. Avalia o que esperar do procurador-geral da República, Augusto Aras, principal destinatário do recém-aprovado relatório da CPI. Analisa também os esforços, aqui e no mundo, para regular as plataformas digitais, que “lucram, e não é pouco, com fake news”, diz. “A gente ainda pode evoluir com a legislação brasileira, assim como outros países estão tateando nesse sentido".
Oct 27, 2021
Orçamento secreto, obra de Bolsonaro
1814
No momento em que o governo tenta disseminar a falsa ideia de que vai furar o teto de gastos porque não haveria outra maneira de bancar um programa social, O Assunto trata de uma deformidade que perpassa esse debate: as chamadas “emendas gerais do relator”, um instrumento adaptado para garantir recursos polpudos (R$ 19 bilhões este ano) a deputados e senadores aliados do Palácio do Planalto que, além de tudo, têm seus nomes mantidos em sigilo. “Se você não conhece o autor de uma solicitação de repasse e a motivação, todo o processo fica opaco”, afirma o repórter Breno Pires, que desde maio vem revelando, no jornal O Estado de S. Paulo, os meandros do Orçamento secreto. Ele explica o funcionamento dessa verdadeira “bolsa reeleição” dos parlamentares, repleta de indícios de irregularidades na aplicação do dinheiro. E aponta “as digitais do Planalto” nas mudanças que viabilizaram o chamado “tratoraço”. Em sintonia com as informações de Breno, o cientista político Fernando Limongi, da FGV e do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap), chama a atenção para o equívoco de atribuir esse estado de coisas principalmente ao Congresso. O presidente Jair Bolsonaro endossou tudo, lembra Limongi, em busca de proteção contra o impeachment e também porque “não tem a menor ideia do que fazer com o Orçamento”. Ele ressalta que a participação do Legislativo na destinação dos investimentos é legítima, e que mesmo o caráter impositivo das emendas individuais não é, em si, um problema. Já as emendas do relator, em sua forma atual, representam a volta ao padrão de descalabro revelado no célebre escândalo dos “Anões do Orçamento”, no início dos anos 90. E com “transparência zero. O que significa que o retrocesso é ainda maior”.
Oct 26, 2021
CLIMA: a parte do agro na crise e na solução
2056
No mundo, o sistema de produção de alimentos responde por aproximadamente um quarto das emissões de gases do efeito estufa. No Brasil, a parcela é ainda mais significativa, superada apenas pela do desmatamento. Num círculo vicioso, agricultura e pecuária são diretamente afetadas pelo aumento da temperatura global, em produtividade e qualidade. Neste quarto episódio de uma série especial preparatória da COP-26, O Assunto discute o papel dessas atividades no enfrentamento da crise. O engenheiro agrônomo Carlos Eduardo Cerri, professor do Departamento de Ciência do Solo da Esalq (USP), explica como sistemas integrados de cultivo estimulam a “fixação de carbono e a redução das emissões”. Ele detalha usos que resultam em solos saudáveis, capazes de dar às plantas mais “chance de sobreviver em períodos de eventos extremos”. E mostra como o Brasil pode seguir avançando para ser menos poluente num dos pilares de sua economia. Renata Lo Prete conversa também com Leonardo Resende, sócio e gestor da Fazenda Triqueda, em Minas Gerais. Cofundador do projeto Pecuária Neutra e Regenerativa, ele lembra que “pastagens degradadas” ainda são realidade em 70% das fazendas do país o que fez para reverter esse quadro em sua propriedade. “A pastagem é um ser vivo. Precisa ser bem manuseada para produzir bem”, diz. A série especial é publicada às segundas-feiras até a Conferência do Clima da ONU, que começa no próximo dia 31 em Glasgow, na Escócia.
Oct 25, 2021
A implosão do teto e da equipe econômica
2102
O governo rasgou o que restava de sua fantasia de responsabilidade fiscal ao executar manobra que abrirá espaço de R$ 83 bilhões no Orçamento de 2022. Na prática, isso rompe o limite de gastos introduzido na Constituição em 2016. Parte desse dinheiro será usada para bancar o Auxílio Brasil, substituto do Bolsa Família que Jair Bolsonaro pretende usar como ativo na campanha do ano que vem. E parte é cobiçada pelo Congresso na forma de mais emendas. Neste episódio, o professor João Villaverde, da FGV, explica a gambiarra e suas consequências de longo prazo - entre as imediatas está a debandada de vários secretários do ministro Paulo Guedes, além de novo tombo da Bolsa e empinada do dólar. Autor do livro “Perigosas Pedaladas”, sobre a contabilidade criativa que precipitou a ruína do governo de Dilma Rousseff, João descreve a "esculhambação institucional" do atual momento. Ela está em tantas áreas que “você não sabe nem para onde olhar: Orçamento secreto, precatórios, caminhoneiros”, lista ele na conversa com Renata Lo Prete. Participa também a economista Tereza Campelo, ex-ministra do Desenvolvimento Social e Combate à Fome (2011-2016), para lembrar que a discussão sobre o Auxílio Brasil não pode ser apenas fiscal. Ela considera no mínimo impreciso tratá-lo como um Bolsa Família “rebatizado”, porque são dois programas muito diferentes. Este, "simples e muito claro em seus objetivos", acaba de completar 18 anos, tendo gerado impactos positivos "generalizados" e mundialmente reconhecidos. O novo é uma “árvore de Natal” da qual pouco se sabe, repleto de condicionantes e diferenciações que acabam por "excluir pessoas". Fora as incertezas sobre o valor do benefício para além do ano eleitoral.
Oct 22, 2021
CPI: o relatório e o que vem agora
2204
Ao final de 6 meses de investigações, a Comissão Parlamentar de Inquérito mais importante da história do Brasil decidiu indiciar o presidente da República por crime contra a humanidade e mais 8 tipos penais. As ações e omissões que legaram ao país mais de 600 mil mortos na pandemia renderam acusações a outras 65 pessoas - entre elas 4 ministros, 2 ex-ministros, deputados, empresários e 3 filhos de Jair Bolsonaro. “O governo deixou uma série de digitais nas cenas desses crimes”, resume Bernardo Mello Franco, colunista do jornal O Globo e comentarista da rádio CBN. Falando direto de Brasília, onde acompanhou a apresentação do relatório, ele faz com Renata Lo Prete um balanço dos trabalhos da CPI. Destaca contribuições decisivas, como elementos de prova da macabra aposta do presidente e seu gabinete paralelo na imunidade de rebanho por contágio, bem como do corpo mole na compra de imunizantes. “Bolsonaro não trouxe o coronavírus, mas se aliou à doença contra a população que deveria proteger”, diz Bernardo. A comissão avançou também sobre o “camelódromo de vacinas com personagens do submundo” (caso Covaxin), além de bater no iceberg do escândalo Prevent Senior. Por outro lado, o jornalista aponta a timidez dos senadores na responsabilização dos militares e o pouco interesse em ir a fundo na questão indígena. O episódio contempla ainda o próximo capítulo dessa história, em que as atenções se voltam para o que fará o procurador-geral da República, Augusto Aras.
Oct 21, 2021
PEC da vingança: de quem contra quem
1506
Uma disputa que tem, de um lado, parlamentares de variados partidos, e, de outro, o Ministério Público. No meio, uma proposta de emenda à Constituição para mudar a forma como são indicados os integrantes do conselho fiscalizador das atividades dos procuradores - que, por sua vez, fiscalizam o poder público. Nesta terça-feira, por falta de consenso, o presidente da Câmara adiou mais uma vez a votação da matéria, enquanto entidades de representação do MP seguem reivindicando alterações num texto que qualificam como retrocesso institucional. Neste episódio, Renata Lo Prete coloca na balança, em conversa com Julia Duailibi, argumentos das duas partes. “Os mecanismos de investigação precisam ser protegidos”, lembra a apresentadora da GloboNews e colunista do g1. “Mas também aperfeiçoados". Julia resgata a Operação Lava Jato, com seu saldo inédito de condenações de empresários e políticos, como origem “do sentimento de autoproteção” que move o Congresso nesse e em outros projetos - como a recém-aprovada mudança na Lei de Improbidade. Ao mesmo tempo, “o Conselho Nacional do Ministério Público, como está, talvez não dê respostas suficientes à sociedade”. Ela se refere, por exemplo, à reação tíbia do CNMP às revelações da “Vaza Jato” sobre irregularidades na atuação da hoje extinta força-tarefa de Curitiba. “Agora, não é o controle via Centrão, como está sendo proposto, que vai resolver a situação.
Oct 20, 2021
Aula presencial: hora de reverter a evasão
1357
Retomado há tempos em outros países, o ensino 100% na escola só agora volta a ser realidade em grande escala no Brasil. Cerca de metade dos Estados já se decidiu pela volta plena - em 3 deles, ela entrou em vigor nesta segunda-feira. Falando de São Paulo, da Bahia e do Mato Grosso, respectivamente, os repórteres Zelda Melo (TV Globo), Camila Oliveira (TV Bahia) e Leonardo Zamignani (TV Centro América) atualizam a situação. Descrevem a emoção de alunos, professores e funcionários. E acidentes de percurso: em São Paulo, por exemplo, parte das unidades da rede ainda terá que seguir no modelo híbrido, por falta de condições de cumprir protocolos básicos da pandemia. A despeito das diferenças regionais, um traço se mantém em todo o país: muitos estudantes perderam totalmente o contato com a escola, e vice-versa. Entrevistada por Renata Lo Prete, a pedagoga Julia Ribeiro, oficial de Educação do Unicef no Brasil, fala sobre o imperativo de empreender uma “busca ativa” para resgatá-los. Ela lembra que, em 2020, mais de 5 milhões de crianças e adolescentes entre 6 e 17 anos não tiveram acesso à educação, o que levou o fundo da ONU a alertar para o risco de o país “regredir duas décadas" nesse quesito. Julia destaca ainda que o abandono está longe de ser homogêneo, comprometendo o futuro principalmente de estudantes pobres - negros, pardos e indígenas.
Oct 19, 2021
CLIMA - o desafio maior das cidades
1710
Em menos de 2% da superfície, elas concentram mais da metade da população e respondem por 60% das emissões de gases que aquecem o planeta. Sentem particularmente as consequências –na forma, por exemplo de temperaturas extremas e inundações– e são, ao mesmo tempo, território para a busca de soluções. É esse o tema do terceiro episódio da série especial que O Assunto publica como preparação para a Conferência da ONU sobre o Clima -a partir de 31 de outubro em Glasgow, na Escócia. “Os lugares para começar a atuar dentro das nossas cidades são aqueles onde vivem os mais vulneráveis”, afirma o geógrafo Henrique Evers, gerente de desenvolvimento do Instituto WRI Brasil. Ele se refere a áreas de risco urbanizadas no atropelo, e explica por que, a esta altura, será preciso não apenas mitigar as ameaças, mas também inventar adaptações a mudanças climáticas já em curso. Na conversa com Renata Lo Prete, Henrique detalha experiências como a dos “jardins de chuva” e apoia a ideia de cobrir de plantas toda a superfície possível das cidades. A natureza, lembra ele, não é barreira, e sim “fonte de solução”. Participa também o arquiteto e urbanista Roberto Montezuma, professor da Universidade Federal de Pernambuco. Ele analisa problemas e experiências de Recife, capital especialmente exposta a um dos efeitos mais dramáticos do aquecimento global: a elevação do nível dos oceanos. A série especial será publicada às segundas-feiras, até o início da COP-26.
Oct 18, 2021
Os vereadores mortos na Baixada Fluminense
1430
No ano eleitoral de 2020 houve quase uma centena de assassinatos de políticos no Brasil. Em 2021, mesmo sem urnas, a violência continua solta. Embora disseminada pelo país, ela tem sido mais recorrente no conjunto de municípios que concentra quase 60% dos votantes do Rio de Janeiro. Na maior dessas cidades, Duque de Caxias, 3 dos 29 vereadores foram mortos apenas nos últimos 7 meses. Em conversa com Renata Lo Prete neste episódio, o repórter Luã Marinatto, do jornal Extra, detalha o caso de Sandro do Sindicato (Solidariedade), atingido por tiros de fuzil nesta quarta-feira, assim como os de Danilo do Mercado (MDB) e Quinzé (PL) - ocorridos, respectivamente, em março e setembro. Luã relata ainda a própria experiência de crescer temendo pela segurança da mãe, que foi vereadora em Nova Iguaçu. Participa também o sociólogo José Cláudio Souza Alves, autor do livro "Dos Barões ao Extermínio: Uma História da Violência na Baixada Fluminense". Ele explica a relação de muitos desses crimes com disputas por territórios e negócios, progressivamente controlados pelas milícias e pelo tráfico de drogas. Lembra que as milícias jamais teriam chegado ao atual patamar de domínio sem conexão direta com o Estado, do qual saem seus quadros. E aponta uma mudança alarmante de padrão no fato de haver tantos assassinatos de políticos mesmo longe do próximo ciclo eleitoral.
Oct 15, 2021
Bolsonaro na terra sem lei do Telegram
1483
Em números absolutos, a rede social nascida na Rússia em 2013 ainda não se compara a gigantes como o WhatsApp. Seu crescimento, porém, é vertiginoso. Isso vale tanto para o percentual de smartphones que carregam o aplicativo quanto para a audiência de usuários ilustres, como Jair Bolsonaro. O presidente da República acaba de ultrapassar a marca de 1 milhão de inscritos em seu canal oficial nessa rede que adota a “filosofia da mínima moderação”, como explica Guilherme Caetano, repórter do jornal O Globo. Guilherme foi aos subterrâneos do Telegram, abriu “portas secretas” e voltou para descrever um ambiente no qual prosperam conteúdos impróprios e mesmo atividades criminosas. Neste episódio, Renata Lo Prete conversa também com Giulia Tucci, pesquisadora da Universidade Federal do Rio de Janeiro, para entender por que o Telegram virou uma ferramenta valorizada pelos políticos, em especial de extrema direita. Ela resgata o histórico das postagens de Bolsonaro e prevê dificuldades para enquadrar o Telegram em qualquer regramento da Justiça Eleitoral para a campanha de 2022. Até aqui, a plataforma - atualmente sediada em Dubai - nem mesmo respondeu às tentativas de contato do TSE.
Oct 14, 2021
Em busca das árvores gigantes da Amazônia
1396
Elas se erguem muito acima da média do dossel da floresta. Como conseguem crescer tanto e não quebrar é algo que sempre intrigou estudiosos. Na expedição mais recente, quatro guias e quatro engenheiros florestais partiram da pequena Cupixi, na região central do Estado do Amapá, e se embrenharam durante três dias no rio e na mata com o objetivo de chegar à segunda mais alta já identificada pelos radares do Inpe: um angelim vermelho de 85 metros, marca que o faz superar um prédio de 30 andares ou duas vezes a estátua do Cristo Redentor no Rio de Janeiro. Concluída a missão - repleta de áudios captados especialmente para este episódio do podcast - o professor Diego Armando Silva conversou com Renata Lo Prete a respeito da importância do projeto que coordena. "As árvores gigantes são as mães da floresta", diz. “Além de resistir ao vento, à luz e às tempestades, elas precisam sustentar o próprio peso". A observação de perto, o inventário e a coleta de informações nos ensinam não apenas sobre elas, mas sobre “a estrutura da floresta”. E ele não tem dúvida: ainda há muitas gigantes por mapear e conhecer na Amazônia.
Oct 13, 2021
CLIMA: quem pagará a conta das mudanças?
1636
No segundo episódio de uma série especial, O Assunto aborda “a discussão que vai pegar” na Conferência das Nações Unidas, a partir de 31 de outubro em Glasgow, na Escócia. Quem alerta é Claudio Angelo, coordenador de comunicação do Observatório do Clima. Ele lembra que a responsabilização dos países ricos, historicamente os maiores emissores dos gases que aquecem o planeta, esteve na pauta da cúpula de Paris, 6 anos atrás. Mas nem por isso foi cumprida a promessa de que eles alocariam US$ 100 bilhões por ano para medidas de mitigação. Agora, num contexto econômico degradado pela pandemia, a negociação promete ser ainda mais dura. “Os países ricos não querem ver isso como compensação. Não vão produzir provas contra si próprios”, diz o jornalista. Renata Lo Prete conversa também com Ana Toni, ex-presidente do conselho do Greenpeace Internacional e diretora-executiva do Instituto Clima e Sociedade. A economista defende “uma conversa séria” não apenas sobre investimentos, mas também sobre como são empregados os recursos que já existem - dando como exemplo o fato de que governos continuam a subsidiar a indústria de combustíveis fósseis. O Brasil, afirma, chega à COP-26 em posição delicada: “Querem ação e entrega. E a entrega brasileira continua terrível.” A série especial será publicada às segundas-feiras, até o início da cúpula.
Oct 11, 2021
Malária: por que a vacina é um evento histórico
1292
Uma das doenças infecciosas mais antigas do mundo, que ainda atinge 200 milhões de pessoas por ano. E que colhe a ampla maioria de suas vítimas num continente e numa faixa etária: das cerca de 400 mil mortes anuais, 94% acontecem na África, onde há "hospitais carregados de crianças com quadros graves de malária", relata Carolina Batista, integrante da organização Médicos sem Fronteiras. Elas respondem por dois terços dos óbitos. Convidada de Renata Lo Prete neste episódio, Carolina conta o que viu participando de missões na região entre 2007 e 2018. Ela descreve barreiras geográficas, financeiras e culturais para cuidar dos pacientes e narra em detalhes a história de uma menina que conseguiu salvar por um triz. Participa também o infectologista Marcus Lacerda, doutor em medicina tropical e pesquisador da Fiocruz Amazônia. Ele lembra que “a imunologia praticamente começou com o estudo da malária”. As décadas que se passaram até a recomendação de uma vacina pela Organização Mundial da Saúde dão testemunho da dificuldade em desenvolver um imunizante contra o parasita causador. Apesar da eficácia relativamente baixa do produto aprovado, Marcus não tem dúvida de que se trata de uma virada de jogo: de saída, será possível "evitar 30% de mortes” num universo de 260 mil crianças africanas a cada ano. Marcus fala ainda do Brasil, que não se beneficiará neste momento, porque seus casos são majoritariamente de outro tipo, menos agressivo. O especialista conta o que o país fez para reduzir a transmissão e tratar os infectados, obtendo queda consistente no número de casos e de óbitos ao longo do tempo.
Oct 08, 2021
PSL+DEM e outras costuras para 2022
1503
“O DEM entra com a experiência, e o PSL, com os recursos”. Assim o repórter da Globo Nilson Klava resume a fusão, agora formalizada, dos dois partidos. Neste episódio, ele faz o balanço dos dotes de cada um - em fundos e tempo de TV - e narra cenas do casamento que deu origem ao União Brasil, de saída dono da maior bancada da Câmara. Desse ponto, Renata Lo Prete parte para uma conversa com Fabio Zambeli, analista-chefe da plataforma Jota, sobre o significado desse e de outros movimentos de acumulação de forças a um ano das próximas eleições. Ele mostra como o DEM, sigla tradicional porém declinante da centro-direita, vinha se ressentindo dos avanços do concorrente PSD, de Gilberto Kassab. E como o PSL, que passou de nanico a grande em 2018, teve que se virar depois de “perder a alavanca” representada por Jair Bolsonaro. O jornalista acrescenta ao quadro o PP, “Centrão raiz”, do presidente da Câmara, Arthur Lira, e lembra que o jogo que se trava no momento é principalmente parlamentar: “Ser o partido de maior peso no Congresso equivale a mandar nos rumos do país talvez até mais do que o presidente eleito". Seja ele qual for, acrescenta.
Oct 07, 2021
Guedes e Campos Neto nos papéis de Pandora
1637
O ministro da Economia e o presidente do Banco Central figuram como donos de empresas offshore numa coleção de quase 12 milhões de documentos, relativos a mais de 300 personagens de 91 países, trazida à luz pela investigação jornalística internacional Pandora Papers. A prática é legal, desde que informada à Receita, mas suscita todo um debate sobre conflito de interesses quando se trata das duas principais autoridades econômicas do país. Agora, ambos foram chamados a prestar esclarecimentos a comissões do Congresso. Campos Neto encerrou as atividades de sua empresa 15 meses depois de entrar no governo. Mas a de Guedes - ministro que, além de tudo, conduz uma proposta de reforma do Imposto de Renda - permanece aberta, e atualmente abriga o equivalente a R$ 51 milhões. “Em 28 de setembro de 2021, ele ainda aparecia como controlador”, pontua Carlos Andreazza. Na conversa com Renata Lo Prete, o colunista do jornal O Globo e apresentador da rádio CBN chega ao seguinte resumo: “A rigor, o patrimônio fora do Brasil protege Guedes do governo do qual faz parte”. Participa também do episódio Tathiane Piscitelli, professora de direito tributário e finanças públicas da FGV, para explicar o que diz a legislação brasileira sobre abertura e manutenção de empresas em paraísos fiscais. E como as restrições são maiores para agentes públicos, submetidos ao Código de Conduta da Alta Administração Federal. Tathiane analisa também o crescente movimento global por maior transparência e justiça fiscal, ilustrado pelas revelações em série desse consórcio de jornalistas.
Oct 06, 2021
O apagão do WhatsApp
1230
Foram mais de 6 horas sem três das maiores redes sociais do planeta, todas pertencentes ao império de Mark Zuckerberg. As consequências atingiram bilhões de usuários -interrompendo comunicações, comprometendo a execução de tarefas cotidianas e causando muitos prejuízos. No caso do próprio Facebook, o tombo no valor de mercado foi de US$ 6 bilhões em um único dia. Para dimensionar, discutir hipóteses de causa e extrair lições do que aconteceu, Renata Lo Prete recebe Ronaldo Lemos, diretor do Instituto de Tecnologia e Sociedade do Rio de Janeiro. “Um apagão de larga escala", ele explica, no qual o “mapa da internet" parou de funcionar para o Facebook e todos os serviços do grupo, incluindo Instagram e WhatsApp (este último, de longe o aplicativo de troca de mensagens mais usado no Brasil). Ele também descreve o funcionamento das “fazendas de servidor", galpões gigantes onde ficam computadores armazenadores de dados. E analisa o impacto desse tipo de evento sobre uma sociedade que, cada vez mais, "constrói formas de trabalhar e viver que dão como certo o fato de você sempre ter acesso à internet", que ele chama de "a nova eletricidade".
Oct 05, 2021
CLIMA: onde estamos 6 anos depois de Paris
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O histórico acordo de 2015, firmado entre mais de 190 países, pretendia reduzir as emissões de gases do efeito estufa a um patamar capaz de conter o aumento da temperatura do planeta. Não aconteceu. Nem mesmo a recessão pandêmica derrubou as emissões na proporção necessária. Agora, em meio a eventos extremos como a seca que aflige vários Estados brasileiros, e sob pressão global de ativistas, uma nova cúpula do clima patrocinada pelas Nações Unidas pretende atualizar compromissos e lançar “um alerta vermelho para a humanidade”, nas palavras do secretário-geral Antonio Guterres. No episódio introdutório de uma série especial a ser publicada todas as segundas-feiras até a COP-26 -- que tem início marcado para 31 de outubro em Glasgow, na Escócia -- Renata Lo Prete recebe Carlos Nobre, presidente do Painel Brasileiro de Mudanças Climáticas e pesquisador sênior do Instituto de Estudos Avançados da USP. A conversa é para entender a ciência que pauta o debate público sobre o tema, e Nobre não poderia ser mais claro. Ele mostra a velocidade sem precedentes da escalada da temperatura na Terra. Explica a diferença entre conseguir limitar a alta a 1,5 grau Celsius até 2100 (como queriam os signatários do Acordo de Paris) ou deixá-la subir 3 graus. Dá exemplos de adaptações, como agricultura regenerativa, que precisarão ser feitas mesmo no cenário menos catastrófico -- porque parte das mudanças climáticas já está contratada. E é assertivo ao enunciar a consequência maior de subestimar a emergência: “As novas gerações vão viver num mundo muito mais perigoso”, diz. “Num outro planeta, muito pior, em todos os sentidos, para a vida humana e para as outras espécies.”
Oct 04, 2021
Botijão de gás a R$ 100
1422
Os preços dos combustíveis são uma questão global - agravada, no Brasil, por um dado básico da equação macroeconômica: câmbio. O real está entre as moedas que mais se desvalorizaram na pandemia. Também a inflação aqui bate forte - puxada, no momento, justamente pelos combustíveis. Assim, o item usado por 90% das famílias para cozinhar está custando, em média, R$ 93, e consumindo 10% do salário-mínimo em 16 Estados. Entre os mais pobres, passou a ser substituído por lenha e outros produtos tóxicos. Nesta semana, quase ao mesmo tempo, a Câmara e a Petrobras ensaiaram resposta a esse quadro de risco social. Os deputados aprovaram uma espécie de “vale-gás” - ainda a ser examinado pelo Senado. E a estatal anunciou que vai subsidiar o botijão para consumidores de baixa renda. Neste episódio, o repórter Raphael di Cunto, do jornal Valor Econômico, explica a ciranda de pressões políticas por trás dessas duas medidas. Pressionada pelo presidente Bolsonaro, principalmente por causa dos preços da gasolina e do diesel, a Petrobras correu para sinalizar algum alívio no gás de cozinha tão logo saiu a decisão da Câmara. Renata Lo Prete conversa também com o economista Adriano Pires, do Centro Brasileiro de Infra-Estrutura, que defende uma “tarifa social” mais duradoura, como existe no setor elétrico”, para enfrentar o problema. “Muitas pessoas não têm noção do que famílias passam para cozinhar" o mínimo.
Oct 01, 2021
Escândalo Prevent: a hora da ANS
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A sequência estarrecedora de revelações deixa no ar a pergunta: como foi possível a operadora ir tão longe no desrespeito à vida de seus clientes e na prestação de serviços ao Palácio do Planalto? Parte da resposta está nas revelações da CPI da Covid, atualizadas neste episódio por Octavio Guedes, colunista do G1 e comentarista da GloboNews. Ele destaca a convicção da Prevent Senior -relatada no depoimento da advogada de médicos da empresa - de que jamais seria incomodada por órgãos de fiscalização, dado seu relacionamento estreito com o “gabinete paralelo” de assessoramento do presidente na pandemia. Com as costas quentes, a Prevent se sentiu à vontade para conduzir um “campo de experimentos anticientíficos”, diz Guedes. Outro depoimento, o do empresário Luciano Hang, desnudou o empenho dos governistas em boicotar qualquer tipo de lockdown em nome de “salvar a economia”. “Mas nunca foi a economia”, lembra Guedes. “Sempre foi a reeleição de Bolsonaro”. A segunda parte da resposta Renata Lo Prete foi buscar em entrevista com o advogado Matheus Falcão, pesquisador do Núcleo de Direito Sanitário da USP e assessor jurídico do Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor (Idec). Ele mostra como funciona a Agência Nacional de Saúde Suplementar, órgão regulador que apenas nesta semana, quando a pilha de denúncias graves já transbordava, emitiu a primeira autuação contra a Prevent. A ANS, explica Falcão, tem corpo técnico qualificado, formado por servidores públicos concursados, mas suas decisões finais ficam a cargo de uma diretoria composta por cinco indicados pela Presidência da República. Ele fala também do Conselho Federal de Medicina, que até aqui fez cara de paisagem diante das pressões para que profissionais da Prevent empurrassem aos pacientes remédios ineficazes contra a doença. Matheus conclui como esta situação "chegou ao limite" e demanda ação do Estado.
Sep 30, 2021
Explosão dos despejos, agora suspensos
1399
De um lado, perda de emprego e renda. Do outro, alta do aluguel -mais de 30% em 12 meses. Resultado: crescimento exponencial do contingente de famílias removidas de suas casas ou vivendo sob essa ameaça. Pessoas que precisam escolher entre "pagar o aluguel ou colocar comida na mesa", conta o repórter da TV Globo Giba Bergamin, que acompanha de perto movimentos por moradia há quase duas décadas. Ele narra como, na esteira desse drama agravado pela pandemia, uma ocupação na Zona Leste de São Paulo saltou de 200 famílias em julho para 800 agora. Participa também deste episódio Bianca Tavolari, pesquisadora do Cebrap e professora do Insper. É ela quem analisa a decisão do Congresso de derrubar o veto do presidente da República à lei que estabelece uma espécie de moratória dos despejos até 31 de dezembro. "Pela primeira vez, temos uma proteção importante" a pessoas em situação de vulnerabilidade habitacional. Mas a medida é paliativa e de curta duração, alerta. Bianca aponta ainda a escassez de dados oficiais sobre o problema, o que dificulta a elaboração de políticas públicas acertadas, e resume: "Para além da pandemia, ter uma moradia é porta de acessos a direitos".
Sep 29, 2021
Térmicas: emergência ou longo prazo?
1412
Diante da situação crítica dos reservatórios, o governo vem recorrendo progressivamente a uma energia mais cara e mais poluente do que a extraída da água. O movimento agora ganha contornos de estratégia, a ser implementada por meio de leilões que vão implicar na manutenção, por vários anos ainda, de fatia generosa para as termelétricas na nossa matriz (hoje, elas respondem por cerca de 32% do total gerado, enquanto as hidrelétricas amargam sua menor participação histórica, em torno de 50%). Letícia Fucuchima, repórter do jornal Valor Econômico, traz detalhes sobre esses leilões e mostra como a atual política não favorece a expansão de energias limpas como a solar e a eólica. "O racionamento de 2001 inaugurou uma safra de termelétricas", relembra Diogo Lisbona, pesquisador do Centro de Estudos e Regulação em Infraestrutura da FGV, também entrevistado por Renata Lo Prete. Ele explica por que o consumidor não deve esperar refresco tão cedo. "Tem termelétrica que gera energia ao custo de R$ 2 mil o megawatt hora", compara, enquanto no mercado o custo médio é de R$ 250.
Sep 28, 2021
O público de volta aos teatros
1481
Foram necessários 2 anos, 70 pessoas trabalhando diretamente e outras 400 na prestação indireta de serviços para colocar de pé um espetáculo que, depois de apenas 9 apresentações, saiu de cartaz em março de 2020. “Fomos os primeiros a parar e os últimos a retornar”, resume, em depoimento ao Assunto, a atriz Karin Hills, que faz o papel-título no musical sobre a trajetória da cantora disco Donna Summer. Em conversa com Renata Lo Prete, a produtora-geral e coreógrafa Barbara Guerra narra uma saga de ano e meio vivida por boa parte da classe artística: morte de colegas por Covid, contas a pagar sem receita para cobrir, luta para garantir algum suporte financeiro à equipe. Mesmo compartilhando com todos a emoção da reestreia, ela faz questão de frisar: “A pandemia ainda está aí. Voltamos, mas com protocolos e muita disciplina”. Para o sociólogo Danilo Santos de Miranda, há mais de três décadas diretor do Sesc-SP, a cena cultural brasileira passa por uma “euforia do retorno”, mas é preciso lembrar que ele ocorre num contexto de crise econômica, sanitária e sobretudo política -diante do “desmonte perpetrado” pelo governo federal numa área que, até a pandemia, respondia por cerca de 2% do PIB e abrigava 6% do total de pessoas ocupadas no país. “O presencial é indispensável à cultura”, afirma. “E nós vamos restabelecer isso, porque conhecemos o caminho”.
Sep 27, 2021
Os números maquiados da Prevent Senior
1662
Subnotificação de óbitos de pacientes que participaram, sem conhecimento, de experiência com cloroquina. Mortes registradas com outras causas, ocultando a verdadeira. Reclassificação sistemática de prontuários, apagando a referência a Covid. As evidências que se acumulam contra uma das maiores operadoras de saúdes do país são detalhadas neste episódio por Guilherme Balza, repórter da GloboNews que investiga as práticas da empresa desde o início da pandemia e já revelou capítulos importantes dessa história. Neste episódio, Renata Lo Prete conversa também com Daniel Dourado, médico, advogado e pesquisador do Centro de Pesquisa em Direito Sanitário da USP. "Não se pode fazer pesquisa dessa maneira", pontua Daniel sobre as evidências de que pacientes participaram de estudos sem consentimento. Ele esclarece as possíveis consequências contra a empresa e o governo. Para Daniel, a punição às autoridades federais pode ser pensada de duas maneiras: "indicações penais e dos crimes de responsabilidade". Ele sinaliza ainda quais cuidados clientes de operadoras de saúde podem adotar para se proteger.
Sep 24, 2021
Precatórios: pedalada ou calote?
1369
São R$ 89 bilhões em dívidas judiciais da União a pagar em 2022, montante que o Executivo quer reduzir drasticamente para encaixar no Orçamento do ano eleitoral um Bolsa Família turbinado e que Jair Bolsonaro possa chamar de seu. Depois de algumas movimentações mal-sucedidas, surge um esboço de acordo entre os presidentes da Câmara e do Senado e o ministro da Economia. A proposta - detalhada neste episódio pela repórter Julia Lindner, do jornal O Globo - prevê limitar o desembolso com precatórios no ano que vem ao patamar de 2016, quando foi instituído o teto de gastos. Em valores corrigidos, R$ 40 bilhões. O restante - mais da metade, portanto - seria objeto de algum “encontro de contas” ainda por definir ou simplesmente empurrado para 2023. Também entrevistado por Renata Lo Prete, Felipe Salto, diretor-executivo da Instituição Fiscal Independente, dá nome às coisas: ele explica por que algumas das manobras em discussão constituem pedalada fiscal, quando não configuram calote puro e simples. Uma “bola de neve” arriscada e, no entender de Salto, desnecessária: “É possível pagar” os precatórios em sua totalidade e elevar o valor do Bolsa Família, avalia o economista, autor de uma proposta alternativa baseada no remanejamento de recursos discricionários.
Sep 23, 2021
Crise da Evergrande e impacto no Brasil
1376
A ameaça de calote da segunda maior incorporadora chinesa, cujo passivo chega a US$ 300 bilhões, levou pânico aos mercados na largada da semana. "O risco financeiro é dentro da China, não fora", sintetiza Rodrigo Zeidan, professor da Universidade de Nova York em Shangai, de onde fala com Renata Lo Prete. Zeidan descreve a importância do setor imobiliário num um país em que mais de 1 bilhão de pessoas migraram do campo para as cidades nos últimos 30 anos. "Imóveis são vistos como algo que traz riqueza para a família", explica, lembrando o peso do setor no PIB. Zeidan diz ainda que, ao contrário da crise com o banco norte-americano Lehman Brothers, em 2008, agora a expectativa é que a China socorra e “estanque a crise financeira", mais do que a empresa, mas pondera que é difícil saber o "tamanho certo" da intervenção. Participa também do episódio Lívio Ribeiro, pesquisador do Ibre-FGV. É ele quem detalha os possíveis efeitos para o Brasil, principalmente para empresas do setor de mineração. Lívio pontua como 85% das exportações brasileiras para a China são de minério de ferro, soja e petróleo. Por isso os impactos podem ser sentidos aqui, principalmente pela desvalorização da moeda brasileira e da queda do preço das commodities.
Sep 22, 2021
Submarinos para a Austrália e o conflito do futuro
1487
O anúncio de que os Estados Unidos fornecerão submarinos à Austrália, atropelando um acordo de mais de US$ 50 bilhões que a França havia firmado para o mesmo fim, provocou uma crise diplomática entre Washington e Paris - de onde fala, neste episódio, a jornalista Adriana Moysés, da Rádio França Internacional. Ela explica por que, para o país, tratava-se do “contrato do século”, tanto do ponto de vista econômico quanto de ambição estratégica. E interpreta o ocorrido como mais um sinal do esvaziamento da Otan - a aliança militar que uniu americanos e europeus desde o final da 2ª Guerra Mundial. Também entrevistado por Renata Lo Prete, o cientista político Mathias Alencastro usa justamente a expressão “Otan do Indo-Pacífico” para se referir à nova parceria entre EUA, Austrália e Reino Unido, que tem como pano de fundo a competição entre americanos e chineses. Para ele, o que se encena na região é o “conflito do futuro”, enquanto o recém-encerrado em Cabul seria o do passado. A União Europeia, diz Alencastro, já foi mais impactada por 6 meses de Joe Biden do que por 4 anos de Donald Trump, e será obrigada a se reinventar.
Sep 21, 2021
IOF maior: novo improviso na economia
1375
Sem ter de onde tirar recursos para turbinar o Bolsa Família, Jair Bolsonaro e Paulo Guedes engoliram as próprias palavras e adotaram uma solução por decreto: aumentar a alíquota do Imposto sobre Operações Financeiras. Isso deve bastar para o lançamento do programa rebatizado, principal aposta eleitoral do governo, “mas não há nada garantido para o ano que vem”, avisa Adriana Fernandes, repórter especial e colunista do jornal O Estado de S. Paulo. Para que o benefício vigore em 2022, “há uma conta de R$ 60 bilhões a ser fechada” no Orçamento. Conta que passa, explica Adriana, pela encrencada negociação, com Legislativo e Judiciário, para reduzir o saldo de quase R$ 90 bilhões de precatórios da União a pagar nesse período. Jornalista que acompanha há mais de duas décadas a agenda econômica em Brasília, Adriana analisa, na conversa com Renata Lo Prete, o potencial impacto negativo da elevação do IOF sobre a atividade já enfraquecida. Interpreta a medida como mais um sinal do “improviso” que tem pautado as decisões do governo, e aponta o vespeiro bilionário no qual ninguém quer de fato mexer: os chamados incentivos fiscais.
Sep 20, 2021
CPI e as cobaias humanas da pandemia
1885
Revelados pelo repórter da GloboNews Guilherme Balza, os indícios de acordo entre o governo Bolsonaro e a Prevent Senior para empurrar cloroquina a doentes de Covid estão na mira da Comissão Parlamentar de Inquérito. Depois de receber denúncia formal de médicos da operadora, os senadores vão ouvir seus dirigentes para tirar a limpo relatos de fraude em estudo sobre o medicamento e estímulo à circulação de pessoas em plena primeira onda da doença no Brasil. Neste episódio, além de conversar com Balza, Renata Lo Prete entrevista a jurista Deisy Ventura, professora titular de ética da Faculdade de Saúde Pública da USP. Coordenadora de um levantamento que tipificou ações e omissões do governo na pandemia, ela mostra como o caso Prevent Senior, assim como o desabastecimento de oxigênio em Manaus, pode acabar enquadrado na mais grave das categorias: crime contra a humanidade. “Houve banalização das mortes”. E muito mais do que incompetência: “O elemento da intencionalidade é fundamental para entender o que aconteceu”.
Sep 17, 2021
Mix de vacinas: por que e como fazer
1240
A estratégia de aplicar diferentes imunizantes contra a covid na mesma pessoa tem sido usada em países como EUA, Canadá, Alemanha, Israel e Coreia do Sul. Estudos preliminares indicam que, a depender da combinação, a resposta imune cresce. E até “dilui o risco de eventos adversos”, explica o professor Edecio Cunha-Neto, chefe do Laboratório de Imunologia Clínica e Alergia da Universidade de São Paulo. No Brasil, a prática passou a ser adotada por necessidade, em resposta a um apagão de Astrazeneca no início de setembro. Em estados como São Paulo, quem estava com a segunda dose pendente completará o esquema vacinal tomando Pfizer. A repórter da TV Globo Mariana Aldano conta como a população reagiu nos postos: de início teve dúvidas, mas logo entendeu a eficácia do arranjo e, principalmente, a importância de tomar as duas doses. Mariana mostra também como, mais uma vez, os governos federal e paulista se desentendem sobre como administrar a campanha de vacinação. E Edecio opina sobre outro ponto de discórdia: a ciência, ele afirma, dá razão aos que recomendam evitar a Coronavac como 3ª dose (o reforço) para os mais idosos, ao contrário do que prega a gestão Doria.
Sep 16, 2021
Bolsa Família: fila e incertezas
1571
Enquanto o governo busca espaço no Orçamento para chegar ao ano da eleição com uma versão turbinada do programa, na vida real cerca de 1,2 milhão de famílias aptas a receber o benefício seguem desassistidas. Um drama que se desenrola em meio ao aumento da pobreza no país, prestes a se agravar com o fim do auxílio emergencial da pandemia, explica Fernanda Trisotto, repórter do jornal O Globo. Neste episódio, Renata Lo Prete conversa também com a socióloga Marta Arretche, professora titular da USP e pesquisadora do Centro de Estudos da Metrópole. Ela mostra como o Bolsa Família, embora visto como ativo eleitoral pelos políticos, é vulnerável a cortes e roda hoje em patamares muito inferiores aos do passado. “O programa é pouco protegido contra estratégias silenciosas de retração”, ao contrário do que acontece, por exemplo, com o Benefício de Prestação Continuada, inscrito na Constituição. “Seu tamanho depende da disposição do governo de plantão”. Marta não acredita que a solução seja “constitucionalizar” o Bolsa Família, mas defende clareza e respeito a critérios de elegibilidade e fontes mais estáveis de financiamento.
Sep 15, 2021
Quanto dura o Bolsonaro “moderado”?
1616
O golpismo escancarado do presidente da República no 7 de Setembro provocou palavras duras de autoridades importantes, mas, apenas dois dias depois, a temperatura baixou, e a perspectiva de alguma consequência concreta desapareceu, por obra de uma operação de socorro capitaneada por ninguém menos do que Michel Temer. “A turma do deixa-disso barrou o impeachment", resume o sociólogo Celso Rocha de Barros, colunista da Folha de S. Paulo. Ele reconhece que o impedimento de Jair Bolsonaro via Congresso nunca foi cenário provável, mas avalia que o crime de responsabilidade enunciado com todas as letras na avenida Paulista colocou as coisas em outro patamar. E, como o presidente continua “sem a menor intenção” de mudar, pretendendo de fato "melar a eleição" de 2022, a sustentabilidade do arranjo endossado por boa parte do establishment político ainda está por ser demonstrada. Na conversa com Renata Lo Prete, Celso também analisa os protestos do fim de semana passado, capitaneados por ex-apoiadores de Bolsonaro como MBL e Vem pra Rua, e as dificuldades de construção de uma Frente Ampla. E lembra que, enquanto o país segue em suspense na trama do golpe, “não está nem por um segundo” se debruçando sobre seus graves problemas reais.
Sep 14, 2021
Estagflação: perigo real e imediato
1229
A escalada dos preços foi sentida primeiro e não parou mais: a taxa acumulada em 12 meses vai se aproximando dos dois dígitos. Recentemente, somaram-se a isso sinais de que a retomada da atividade patina: o PIB ficou negativo no segundo trimestre. “Não chega a ser recessão, mas praticamente não tem crescimento; e, apesar disso, a inflação está muito elevada”. Assim a economista Silvia Matos, do Ibre-FGV, define o quadro de estagflação que, em seu entender, já se configura no Brasil. Como em outros países, parte do problema se deve à pandemia, mas ela aponta pelo menos dois diferenciais: desvalorização da moeda local muito além da média e acentuada instabilidade política. “O governo contribui para a depreciação cambial”, diz. Embora reconheça o efeito perverso sobre a atividade, Silvia não vê alternativa ao aumento dos juros promovido pelo Banco Central, que tenta ser “bombeiro” enquanto o Planalto “joga gasolina” na inflação. Para abrir espaço no Orçamento aos programas sociais, ainda mais urgentes diante da corrosão da renda das famílias, ela defende o enfrentamento de algumas perguntas inconvenientes. “Precisamos de R$ 35 bilhões para emendas parlamentares?” ou de tantos “benefícios fiscais ineficientes?”.
Sep 13, 2021
A ameaça do bolsonarismo de caminhão
1870
Por dois meses, o presidente da República insuflou a mobilização de caminhoneiros para o 7 de Setembro. No dia seguinte, o país viu rodovias bloqueadas e, com elas, o fantasma da grande paralisação da categoria em 2018. E daí Jair Bolsonaro teve que “desarmar a bomba que ele próprio armou”, diz Valdo Cruz. O colunista do G1 e comentarista da GloboNews se refere à mensagem de áudio que o presidente enviou, para espanto desses apoiadores, pedindo que liberassem as estradas. Para desativar outra bomba - a da ofensiva contra o Supremo - foi chamado ninguém menos do que o ex-presidente Michel Temer, completando o dia de ressaca do golpismo. Neste episódio, Valdo narra e analisa o bastidor desses eventos, enquanto o economista Claudio Frischtak explica por que a perspectiva de caminhões parados assusta, em especial diante da atividade já fraca e da inflação em alta. Ele observa que desta vez o movimento - estimulado por empresários bolsonaristas - tem demandas "predominantemente políticas". E que, se não for controlado, "todos nós perderemos".
Sep 10, 2021
Um repórter pelo mundo pós-11 de Setembro
1723
Os atentados fundadores do século 21 produziram alguns de seus efeitos mais duradouros bem longe dos Estados Unidos, onde aconteceram. Para discuti-los, Renata Lo Prete recebe neste episódio o jornalista da TV Globo Marcos Uchôa, que ao longo dessas duas décadas visitou 22 países do mundo islâmico. O primeiro foi aquele em que a chamada guerra ao terror começou e do qual os americanos só agora se retiraram. Ele conta que nunca, em sua trajetória profissional, sentiu tanto medo quanto no Afeganistão. E que, ao mesmo tempo, se lembra de saraus vespertinos "para conversar sobre poemas de 800 anos com idosos, mulheres e crianças". A alternância de análise política e memórias do cotidiano das pessoas que encontrou dá o tom do depoimento de Uchôa sobre suas passagens por lugares como Iraque, Tunísia e Síria. Prestes a lançar uma série no GloboPlay com esse rico material, ele conclui que, duas décadas depois, a questão do terrorismo está longe de ser resolvida. “A vitória do Talibã traz a mensagem de que a violência funciona”, diz.
Sep 09, 2021
O golpismo permanente de Bolsonaro
2022
O 7 de Setembro não trouxe ruptura, mas deixou claro que o presidente continuará dobrando a aposta na depredação institucional para se manter na cadeira. Ao discursar em dois dos eventos que convocou para a data, ele escalou mais um degrau, declarando abertamente que não pretende respeitar decisões do Supremo (no momento, as do ministro Alexandre de Moraes) e do Congresso (que já enterrou o voto impresso, ressuscitado por Bolsonaro na pregação desta terça). “Uma reação para tentar sair do cerco”, resume Maria Cristina Fernandes, colunista do jornal Valor Econômico e comentarista da Rádio CBN. Ela se refere tanto à ausência de respostas do governo para as crises econômica e social quanto ao avanço de investigações que vão das fake news às rachadinhas da família presidencial, passando pelas suspeitas de corrupção na compra de vacinas. “Bolsonaro pode estar fraco para se reeleger", mas tem ainda um dispositivo para "dar cara de povo a seu golpismo", diz a jornalista, que esteve no ato da avenida Paulista. Na conversa com Renata Lo Prete, Maria Cristina prevê que os ataques a Moraes acabem por “unir ainda mais” os ministros do Supremo. Quanto ao Congresso, embora a palavra impeachment tenha voltado a ser pronunciada, tudo continua a depender do grande ausente neste 7 de Setembro: o presidente da Câmara, Arthur Lira (PP-AL).
Sep 08, 2021
Brasileiros sem documento: os verdadeiros invisíveis
1464
Segundo o último dado oficial disponível, são cerca de 3 milhões de pessoas que, como Maria Helena Ferreira da Silva, chegam à vida adulta (e eventualmente à idade avançada) sem certidão de nascimento. No caso da agricultora de 70 anos, que vive no interior do Paraná, a carência virou barreira na hora de se vacinar contra a Covid-19. No posto, recomendaram-lhe que se conformasse em ficar sem o imunizante, “porque o governo nem sabia que eu existia”. Ela só veio a receber a primeira dose meses depois, por ação da Defensoria Pública, e agora está perto de conseguir a tão sonhada certidão de nascimento. “A gente fica envergonhado, né?” O relato feito por Maria Helena ao podcast introduz a conversa de Renata Lo Prete com Fernanda da Escóssia, autora do recém-lançado livro "Invisíveis - Uma Etnografia sobre Brasileiros sem Documento", fruto da tese de doutorado da jornalista na Fundação Getúlio Vargas. Ela explica o papel fundador desse registro e o efeito bola de neve que a ausência dele provoca: vai ficando mais difícil obter outros documentos e, com o passar dos anos, limitações muitos concretas se apresentam, notadamente no acesso aos serviços públicos de educação e saúde. Editora na revista Piauí, com longas passagens pelos jornais O Globo e Folha de S. Paulo, Fernanda se interessa há quase duas décadas por um fenômeno que descreve como “transversal”, porque ligado a múltiplos fatores, como miséria e desestruturação familiar. Em sua pesquisa e nesta entrevista, ela conta histórias de pessoas que conheceu no momento em que buscavam o registro de nascimento e reencontrou tempos depois -- quando haviam resgatado direitos, cidadania e às vezes o próprio "fio da vida".
Sep 06, 2021
Os sinais de que o Brasil está secando
1448
O problema tem escala global. A ONU estima que, nos últimos 20 anos, mais de 1,5 bilhão de pessoas entraram em situação de “insegurança hídrica”. E o Brasil, a despeito de sua riqueza natural, é duramente atingido. A escassez crescente de chuvas, associada a queimadas e desmatamento, se traduz em “quase 16% da cobertura de água perdida nos últimos 35 anos”, informa Sônia Bridi, repórter especial do Fantástico. Em conversa com Renata Lo Prete, ela conta o que viu em suas viagens pelo país: um Pantanal 60% mais seco, um rio Paraguai que se pode cruzar a pé, ribeirinhos sem peixes para pescar e agricultores com a colheita reduzida. “São dramas humanos e da natureza, cujos reflexos se espalham até muito longe dali”. Além do Brasil, África, Austrália e China convivem com a ameaça de estiagens mais longas -ou até crônicas- conforme sobe a temperatura do planeta. Participa também do episódio Gilberto Câmara, ex-diretor do Inpe e integrante do conselho consultivo do último relatório da ONU para a redução de riscos e desastres. Ele explica os modelos científicos que embasam as recomendações das Nações Unidas. “A palavra-chave é adaptação”, diz. “Nosso planejamento precisa contemplar ações de adaptação às crises”.
Sep 03, 2021
A hora e a vez do gabinete de 02
1498
Com a autorização da Justiça para quebra dos sigilos fiscal e bancário de Carlos Bolsonaro, o Ministério Público do Rio de Janeiro terá instrumentos para apurar se, além dos indícios de manutenção de fantasmas, o mandato do vereador envolveu outra prática associada a seu irmão mais velho, o senador Flavio, quando deputado estadual: o recolhimento de parte do salário dos funcionários, mais conhecido como rachadinha. Neste episódio, Renata Lo Prete conversa com Juliana Castro, da plataforma Jota, que dois anos atrás participou, como repórter de O Globo, da investigação jornalística que deu origem à ação do MP. Ela descreve a teia de familiares, agregados e conhecidos do clã presidencial espalhada pelos diferentes gabinetes dos Bolsonaro - inclusive o de Jair na Câmara. E explica o papel de destaque desempenhado por Ana Cristina Valle, ex-mulher do presidente e chefe de gabinete de Carlos de 2001 a 2008. Participa também do episódio Octávio Guedes, colunista do G1 e comentarista da GloboNews, que lança a seguinte pergunta: “Quem ensinou Flávio e Carlos a fazer rachadinha?" Ele analisa o que há de semelhante no modus operandi dos gabinetes da família e, ao mesmo tempo, por que Carlos é "tormenta maior no planeta Bolsonaro": mais próximo do pai que qualquer um dos irmãos, ele está sob ameaça também no inquérito das fake news.
Sep 02, 2021
O terror dos grandes assaltos no interior
1466
Foram pelo menos dez a agências bancárias do país em menos de dois anos, todos com cidades de médio ou pequeno porte como alvo. E características semelhantes: grupo numeroso de executores, armamentos e explosivos de tecnologia avançada, ação espetaculosa e quase sempre conduzida na madrugada. Neste episódio, a antropóloga Jânia Perla, do Laboratório de Estudos da Violência da Universidade Federal do Ceará, resgata o histórico que desembocou nessa modalidade de crime. Ela explica por que “novo cangaço”, termo usado por alguns policiais e analistas, é “nomenclatura imprecisa", que dá caráter rudimentar a algo de planejamento sofisticado e alto potencial de dano. Participa também o jornalista Rafael Honorato, repórter da TV Tem, filiada da Globo no interior de São Paulo. Ele relata o que testemunhou em Araçatuba na madrugada do assalto mais recente. Descreve veículos incendiados e moradores em pânico ao acordar com o barulho dos disparos. “Virou uma cidade deserta, como eu nunca tinha visto”.
Sep 01, 2021
PIB impaciente com Bolsonaro, mas nem tanto
1320
Num quadro de deterioração das expectativas econômicas e seguidas ameaças do presidente da República à ordem democrática, centenas de representantes dos setores financeiro e produtivo costuraram um manifesto que passa ao largo de qualquer crítica direta, apenas pedindo entendimento entre os Três Poderes em nome da recuperação da atividade. Foi o bastante para que Banco do Brasil e Caixa Econômica Federal ameaçassem pular fora da Febraban, uma das signatárias. E a publicação do texto acabou adiada (apenas o agronegócio lançou sua carta aberta). Neste episódio, Renata Lo Prete conversa com o jornalista Thomas Traumann sobre o que extrair de significado desse vaivém e da repercussão que o documento alcançou antes mesmo de vir à luz. À diferença de iniciativas anteriores, esta não é de pessoas físicas. “Reverbera muito mais”, diz ele. Autor de livro sobre a trajetória de 14 ministros da Fazenda, Thomas analisa a coincidência de o manifesto entrar em pauta no momento em que aparecem, na avenida Faria Lima, cartazes nos quais a imagem de Paulo Guedes vem acompanhada da expressão “faria loser”. Mesmo perdendo todas, ele "vai ficando", até porque os candidatos a substituí-lo vão desaparecendo. “A sensação é de um governo que já se exauriu em suas pretensões". No vácuo, ganha protagonismo o presidente da Câmara, que negociou pessoalmente o adiamento. “Em nenhum outro governo Arthur Lira teria tanto poder".
Aug 31, 2021
Os indígenas acampados em Brasília
1421
Em sua maior mobilização em pelo menos 3 décadas, mais de 6 mil representantes de dezenas de etnias marcam presença, há uma semana, nas proximidades do Supremo Tribunal Federal. O motivo é um julgamento, que a Corte deve retomar nesta quarta, cujo desfecho ameaça limitar o que há de mais essencial para esses povos: o direito originário à terra. Neste episódio, Renata Lo Prete recebe duas convidadas: Samara Pataxó, coordenadora jurídica da Articulação dos Povos Indígenas, e Isadora Peron, repórter do jornal Valor Econômico. Samara, entrevistada num intervalo dos trabalhos na manifestação, explica como a tese do “marco temporal” contradiz o texto da Constituição, ao restringir o direito a quem puder comprovar que já estava no território em 1988. A Carta “reconhece claramente que a relação com a terra é ancestral” -- o que, lembra Samara, “não tem relação com critérios temporais”. Ela puxa o fio dessa história, que começa em outro julgamento (do caso da reserva Raposa Serra do Sol, em 2009), passa por decisão tomada na gestão Temer e vem dar na ostensiva política contrária aos indígenas do governo Bolsonaro. A conversa com Isadora esclarece os interesses em jogo no atual julgamento, que trata de disputa envolvendo os Xokleng, de Santa Catarina. Em especial, o interesse do agronegócio pela limitação do direito originário. A repórter adianta a possibilidade de um dos ministros pedir vista, para ganhar tempo. E também a de uma “solução intermediária”, a partir de costura interna no tribunal.
Aug 30, 2021
Crise hídrica: o que Paulo Guedes não vê
1356
Depois de meses de inação, o governo ensaia as primeiras medidas para reduzir o consumo de energia, enquanto o Operador Nacional do Sistema Elétrico alerta: já a partir de outubro, não será possível garantir que as usinas supram a demanda do país. Ainda assim, o ministro da Economia pergunta “qual é o problema” de termos tarifas mais caras “se choveu menos”. A ex-diretora da Aneel Joisa Dutra, atualmente na FGV, explica: os reajustes da conta de luz, um dos vilões da escalada inflacionária, têm o poder de se disseminar por uma série de preços de produtos e serviços. Fora o impacto negativo de um eventual racionamento - que até aqui o governo descarta - sobre o crescimento do PIB, como aconteceu em 2001. Participa também do episódio Manoel Ventura, repórter do jornal O Globo. É ele quem mapeia o status dos reservatórios diante da maior seca em quase um século, detalhando o plano oficial de usar o sistema do Nordeste para socorrer o Sudeste, onde a situação é pior. Manoel comenta ainda o bem-vindo avanço na produção de energia eólica e solar.
Aug 27, 2021
Destruição ambiental: o olhar do fotógrafo andarilho
1500
Em meio século de viagens pelo país, Araquém Alcântara testemunhou como poucos as mudanças sofridas por nossos principais biomas. Tempo suficiente para se indignar com “a incapacidade dos brasileiros de entender a importância de seu maior patrimônio”. Neste episódio, que celebra o aniversário de 2 anos de O Assunto, Araquém conta a Renata Lo Prete algumas das histórias que ouviu e, principalmente, das cenas que registrou em fotos premiadas aqui e no exterior. Em uma dessas passagens, relata seu encontro com uma onça-pintada, em setembro de 2020, no Pantanal destruído pelas chamas. “Nunca tinha visto um fogo tão avassalador”, relembra. E ali teve “uma epifania”, diante “daquele animal belo como uma esfinge, me olhando com uma expressão que dizia ‘vai dar certo’.” Araquém fala ainda da Amazônia, cuja paisagem, em anos recentes, foi transformada pelo “crescimento vertiginoso do garimpo ilegal”. E alerta para a urgência de tratar da questão ambiental como “do pão que comemos”.
Aug 26, 2021
Senado parceiro da recondução de Aras
1357
Da sabatina amistosa na Comissão de Constituição e Justiça ao folgado placar no plenário, nada fez lembrar a turbulência política dos últimos dias e os questionamentos que pesam sobre o procurador-geral da República. Diante da CCJ, Augusto Aras cantou a música que todos ali queriam ouvir, analisa Vera Magalhães, colunista do jornal O Globo, comentarista da Rádio CBN e apresentadora do programa Roda Viva, da TV Cultura. A saber: contra a “criminalização da política” e os excessos da extinta força-tarefa da Lava Jato. Em conversas prévias, “ele convenceu senadores a descasar a recondução dele da indicação de André Mendonça ao Supremo”, explica Vera na conversa com Renata Lo Prete. No caso de Mendonça, prevê a jornalista, o Senado tende a optar pelo "banho-maria", pelo menos até ver até onde vai a escalada golpista de Jair Bolsonaro. Com mais dois anos à frente da PGR, caberá a Aras receber o relatório final da CPI da Covid -o que abre a perspectiva de alguma redução de danos para o presidente da República.
Aug 25, 2021
Otimismo do mercado: tinha, mas acabou
1376
Faz tempo que o discurso animado do ministro Paulo Guedes tem pouca aderência com a realidade da maioria dos brasileiros. A novidade é a deterioração das expectativas de quem, até aqui, vinha endossando as opções do governo Bolsonaro na economia. Ibovespa negativo no acumulado do ano, real se desvalorizando muito além de outras moedas, juro futuro empinando na contramão do mundo: é a “reprecificação do risco Brasil”, explica neste episódio Mário Torós, ex-diretor de Política Econômica do Banco Central e sócio-fundador da Ibiúna Investimentos. Na origem do fenômeno está, segundo ele, o desmantelamento do edifício fiscal que começou a ser construído no governo Temer. “O que a gente vê são notícias constantes de busca de novos gastos e despesas", diz ele, referindo-se à primazia do projeto reeleitoral do presidente da República sobre o teto de gastos. E a constante pregação golpista de Bolsonaro também tem seu peso: “Essa direção é equivocada. Economias prósperas são democracias modernas".
Aug 24, 2021
Crianças com deficiência e a inclusão nas escolas
1868
Noadias Novaes é professora no sertão do Ceará. Desde o início da pandemia ela vai de bicicleta dar aulas a crianças com deficiência — e com escolas fechadas, passou a agregar alunos sem deficiência, a pedido das famílias. "Todos ganham, principalmente com a descoberta de valores que não se aprendem nos livros: respeito, diversidade, empatia", diz Noadias em conversa com Natuza Nery neste episódio. A professora relata como é seu dia a dia ao ensinar crianças de várias idades e níveis diferentes de conhecimento. "O ambiente escolar é uma extensão da sociedade – e por isso não pode ser excludente", resume. Noadias relata como a inclusão de crianças com deficiência em salas "comuns" ajuda no aprendizado de todos, ao contrário do que declarou o ministro da Educação Milton Ribeiro no fim da semana passada. "Um aluno com deficiência não atrapalha. Ele só nos ensina", afirma. Neste episódio participa também Rodrigo Hübner Mendes, fundador e diretor do Instituto Rodrigo Mendes, que pesquisa técnicas de ensino para pessoas com deficiência. Rodrigo relembra a revolução pela qual o país passou nas últimas duas décadas em relação à inclusão. "É um direito da criança estar em convívio em uma escola comum", diz. Sobre a fala do ministro – que declarou que 12% das crianças com deficiência tornam "impossível a convivência" em sala de aula - Rodrigo é claro: "estudo esse assunto há 25 anos, não sei de onde ele tirou esse número". Para ele, o apoio ao professor é um dos pilares da inclusão. Rodrigo reforça ainda como a educação "melhora para todos" quando escolas matriculam alunos com deficiência. "Poder ter perfis variados é muito valioso. Isso estimula habilidades e competências valiosas para o mundo contemporâneo", conclui.
Aug 23, 2021
Idosos, a Covid e a 3ª dose
1153
Antes da vacinação engrenar no Brasil, o grupo que mais registrava casos graves e internações por Covid eram os maiores de 60 anos. Eles, junto com os profissionais de saúde, foram os primeiros a receberem o ciclo completo de imunização. Agora, meses depois da aplicação das doses, o número de pessoas internadas com 80 ou mais atingiu o maior patamar desde o início da pandemia, afirma a Fiocruz. “A vacina não zera o risco. Ela diminui, e muito, mas não zera”, reforça o pesquisador Marcelo Gomes, integrante dos Métodos Analíticos em Vigilância Epidemiológica da Fiocruz e coordenador do Boletim Infogripe. Em entrevista a Natuza Nery, Marcelo explica a alta das internações das pessoas acima de 60 anos em cidades como Rio e São Paulo e defende a aplicação da terceira dose neste grupo. “Não sabemos se de fato vai melhorar, mas não oferece riscos. Neste cenário, acho importante antecipar”, opina. Também neste episódio, o infectologista Bruno Scarpellini conta o que vê no dia a dia da UTI de Covid do Hospital Samaritano Vitória, na capital fluminense.
Aug 20, 2021
O Brasil com fome de novo
1977
Depois de sair do mapa da fome da ONU, em 2013, estamos de volta ao mesmo patamar de insegurança alimentar do início dos anos 2000: quase 10% dos brasileiros não têm o que comer. “É a história se repetindo como farsa e como tragédia”, sentencia Marcelo Canellas, repórter do Fantástico, em entrevista a Natuza Nery. Em 2001, Canellas rodou o país para uma série de reportagens sobre a fome no Brasil e, agora, 20 anos depois, enfrenta novamente o desafio de contar as mesmas histórias. “Vejo um país concentrador de renda, concentrador de terra e um lugar no qual os ricos devem aos pobres o financiamento da educação pública”. Participa também deste episódio o economista Walter Belik, diretor-geral adjunto do Instituto Fome Zero e professor titular aposentado da Unicamp. Ele explica como os índices de segurança alimentar já vinham caindo desde antes da pandemia - resultado do desmonte de políticas públicas que tornaram o Brasil exemplo para o mundo. Belik fala ainda do paradoxo brasileiro (que produz cada vez mais comida enquanto o número de famintos cresce) e dá a receita para o governo tirar o país da atual “situação de urgência da fome”.
Aug 19, 2021
Haiti: um país desolado
1345
Em 2010 um terremoto deixou mais de 200 mil mortos na ilha – e desde então o país nunca se recuperou. Agora, outro tremor e um ciclone fizeram mais vítimas no Haiti, que vivia uma crise política depois do assassinato do presidente. "Minha família está desesperada", relata Franceline Loregeant, haitiana que vive no Brasil desde 2014. Franceline conta os momentos de apreensão ao tentar localizar o irmão no último fim de semana – ele perdeu o celular depois do terremoto e ficou incomunicável. "A casa onde ele trabalha, destruiu tudo", diz. Ela narra a situação da família e diz que "não há abrigo", ao contar que a casa da mãe está cheia de água. Neste episódio, Natuza Nery conversa também com a repórter da TV Globo Lilia Teles, que participou da cobertura do terremoto em 2010 e voltou à ilha várias outras vezes. Lilia explica como o país, o qual "o mundo virou as costas" e vive "afundado em corrupção", nunca conseguiu se reconstruir. E relembra como ajudou a salvar uma mulher grávida dos escombros em 2010. "Nunca mais me esqueci daquilo. Sou uma Lilia antes e outra depois do Haiti".
Aug 18, 2021
Afeganistão na mão do Talibã
2022
"As meninas estão com muito medo", relata a jornalista Adriana Carranca sobre a situação de mulheres afegãs em pânico depois da tomada de poder pelo grupo extremista. Adriana é uma das convidadas de Natuza Nery neste episódio - autora do livro "O Afeganistão depois do Talibã", ela viajou ao país quatro vezes e diz que a sensação ao chegar lá é de "voltar 2 mil anos" no tempo. Segundo Adriana, em sua última visita (2014) já era possível notar como o grupo estava perto de Cabul. A jornalista narra como afegãos estão "sitiados em casa" e relembra como os extremistas adotaram a tática de "saída estratégica" durante a invasão norte-americana 20 anos atrás. É Adriana quem explica as origens do grupo – cujo nome significa "estudante". "Os talibãs eram jovens e crianças que foram treinados para devolver a paz ao Afeganistão na guerra contra os soviéticos". Participa também Daniel Wiedemann, coordenador da redação da TV Globo em Nova York. Ele pontua como a retomada de poder por parte dos talibãs já era esperada: "a grande surpresa é a velocidade dessa tomada", diz. Daniel fala que esta não é apenas uma derrota de Joe Biden, mas sim "de quatro presidentes americanos, na mais longa guerra da história dos EUA", que começou com os ataques às Torres Gêmeas em 11 de setembro de 2001. Para ele, agora Biden terá que lidar com o risco de o Afeganistão se tornar um "paraíso para terroristas".
Aug 17, 2021
As coligações e a reforma eleitoral
1559
Há 4 anos deputados baniram as coligações nas eleições proporcionais. A medida valeu em 2020, quando foram eleitos vereadores, mas seu grande teste está previsto para 2022 – quando os cargos proporcionais em disputa serão os de deputado estadual e federal. Mas agora a Câmara tenta voltar com esse mecanismo, em um movimento que beneficia partidos nanicos e de aluguel. Neste episódio, Natuza Nery conversa com Bruno Carazza, colunista do jornal Valor Econômico e autor do livro “Dinheiro, eleições e poder”. Carazza explica como o fim das coligações deixaria o sistema “mais claro” para eleitores e como ainda diminuiria o incentivo a partidos que “vivem da venda de apoio” ao governo. Ele analisa como o Brasil vive um “sistema disfuncional”, com dezenas de partidos, o que acarreta “dificuldade de negociar”, com negociações custosas – tanto do ponto de vista financeiro quanto político. E conclui como todos os movimentos recentes de reforma eleitoral vão na mesma direção: tornar a política mais excludente.
Aug 16, 2021
O tumulto de Ricardo Barros na CPI
1269
Líder do governo na Câmara, o deputado passou a ser personagem central no caso Covaxin ainda em junho. Ele foi citado pelos irmãos Miranda nas suspeitas de irregularidades na compra da vacina indiana. E nesta quinta-feira se sentou à frente de senadores: "a estratégia de defesa acabou sendo o ataque", diz Bernardo Mello Franco em conversa com Natuza Nery neste episódio. Bernardo analisa como o deputado "não se intimidou" e manteve firme o "pacto de proteção mútua" com o presidente. "Bolsonaro blinda Barros. E Barros não diz nada que comprometa o presidente", define. Bernardo explica ainda como a CPI pode se beneficiar de uma futura sessão com Barros, desta vez tendo o líder do governo no papel de convocado – o que o obriga a dizer a verdade. A expectativa, segundo ele, é que até lá a comissão tenha em mãos dados da quebra de sigilo do deputado. O que nesta quinta-feira foi uma "guerra de versões" se tornaria "confrontação de documentos", conclui.
Aug 13, 2021
Urna eletrônica e o teste de integridade
1601
A Câmara rejeitou e arquivou a discussão sobre o voto impresso – eram precisos 308 votos, mas a proposta teve apoio de 229 deputados. Mesmo após a derrota, o presidente Bolsonaro insistiu na ideia de que as eleições de 2022 não serão confiáveis, questionando o sistema da urna eletrônica. Agora, ministros do TSE, do STF e líderes do Congresso procuram convergir para uma solução que não mude em nada o modelo eleitoral, mas que responda à onda de desconfiança. Neste episódio Natuza Nery, conversa com Julia Duailibi, colunista do G1 e jornalista da GloboNews. Julia conta como está sendo costurada nos bastidores uma proposta para aumentar a amostragem do teste de integridade da urna eletrônica, medida que seria acompanhada de comissões de fiscalização maiores e mais prazo para a análise do código fonte. “É uma resposta para dar atenção às queixas", explica Julia. A medida "só aumenta a transparência e mostra o quão seguro é”, afirma. Mas não deve ser suficiente. “Para Bolsonaro, tanto faz. A discussão serve a seus propósitos políticos”. Participa também Vitor Marchetti, cientista político e professor de políticas públicas da UFABC. Ele explica como é realizado o teste de confiabilidade das urnas e detalha o processo de auditoria dos votos.
Aug 12, 2021
Bolsonaro e as Forças Armadas
1839
"Fraqueza travestida de força." É assim que Raul Jungmann, ex-deputado e ex-ministro da Defesa, classifica o desfile militar de terça-feira em Brasília. Convidado de Natuza Nery neste episódio, Jungmann detalha como Jair Bolsonaro "busca criar a ilusão de ter as Forças Armadas ao seu lado". Para ele, o presidente faz uso "inadequado e equivocado" das forças militares e tenta provocar tumulto ao constranger o Congresso. O desfile patrocinado pelo presidente aconteceu hora antes de a Câmara votar a PEC do voto impresso – proposta que foi rejeitada e arquivada, em uma derrota para o presidente. Jungmann narra ainda o movimento, dentro do Planalto, de tentar desmobilizar o comandante do Exército, general Paulo Sérgio Oliveira. Ele chama atenção para a hipótese de Bolsonaro incitar distúrbios caso seja derrotado nas urnas em 2022. "Estaremos diante de um impasse constitucional", conclui.
Aug 11, 2021
Brasil: peça-chave contra mudanças climáticas
1518
A conclusão do relatório da ONU sobre o clima não é nada animadora: até metade do século a temperatura do planeta irá aumentar, independentemente das medidas adotadas por países. E as consequências já não são mais para o futuro, mas, sim, para o presente – entre elas, derretimento recorde de geleiras, secas prolongadas e enchentes. “O Brasil tem que se preocupar com os impactos disso, que estarão bem distribuídos em todo o território nacional”, diz Mercedes Bustamante, professora do Departamento de Ecologia da UnB, que atua no Painel Intergovernamental de sobre Mudanças Climáticas, o IPCC. Em entrevista a Natuza Nery, Mercedes alerta sobre o risco de vermos triplicar os efeitos de eventos climáticos extremos a cada 0,5 °C a mais na atmosfera terrestre. Fala também das consequências diretas ao país, aumentando a vulnerabilidade social e comprometendo o crescimento econômico, sobretudo ao limitar a capacidade do agronegócio. “Precisamos retomar a econômica com os olhos para o século 21, não mirando o retrovisor”. Responsável por 4% a 5% das emissões globais de gases de efeito estufa, o Brasil está na “contramão do mundo”, explica Raoni Rajão, professor da UFMG e coordenador do Laboratório de Gestão de Serviços Ambientais. A lista de razões é ampla: investimento em energia baseada em combustíveis fósseis, agronegócio mais poluente e, principalmente, a crescente destruição das florestas. “Plantar árvore é a melhor tecnologia para ajudar o planeta”, conclui.
Aug 10, 2021
A vida depois da medalha
1382
O Brasil sai de Tóquio com um número recorde de pódios: 7 ouros, 6 pratas e 8 bronzes. Um resultado para comemorar, mas qual a perspectiva para o futuro? Os investimentos que marcaram o ciclo da Rio-2016 arrefeceram para esta edição. E a perspectiva é ainda pior para Paris-2024. A extinção do Ministério do Esporte, em 2019, ainda não fez "grande estrago”, avalia Ana Moser, ex-jogadora de vôlei e atual diretora da ONG Atletas pelo Brasil. A medalhista que trouxe o então bronze inédito em Atlanta-1996 fala sobre a perda de talentos brasileiros e a necessidade de ampliar a base de acesso ao esporte para crianças e adolescentes. “Não dá pra construir uma nação esportiva pensando apenas na ponta. Enquanto não melhorar a base, não teremos resultado”, conclui. Também em entrevista a Natuza Nery, Katia Rubio, jornalista, psicóloga e autora de livros sobre atletas olímpicos brasileiros, analisa o desempenho do Time Brasil no Japão, a alta na politização dos atletas e fala sobre a perspectiva para o futuro: “Se nada mudar, este resultado é insustentável”, diz.
Aug 09, 2021
A delta vai adiar o fim da pandemia?
1378
Uma onda de otimismo tomou países com altas taxas de vacinação. Alguns chegaram a realizar o “dia da liberdade”, com o fim de restrições e uso de máscara em ambientes fechados. Mas a situação mudou com o aumento expressivo no número de novos casos de Covid nas últimas semanas - resultado da alta transmissibilidade de variante delta. Neste episódio, Natuza Nery ouve dois infectologistas: Esper Kallás e Marcelo Otsuka. Coordenador do Comitê de Infectologia Pediátrica da Sociedade Brasileira de Infectologia, Otsuka explica por que, diante desta variante que é tão infecciosa quanto a catapora, será preciso ampliar ainda mais a vacinação em massa. Para Kallás, infectologista e professor da Faculdade de Medicina da USP, há dois sinais amarelos para a continuidade do atual modelo de cobertura vacinal. A primeira é a “desigualdade intensa” na distribuição global de doses – 75% estão apenas em mãos de dez países. E a segunda é a necessidade de produzir uma segunda, e mais eficiente, forma de imunidade, com foco na mucosa do sistema respiratório.
Aug 06, 2021
Assédio sexual: a pressão contra o governador de NY
1607
Andrew Cuomo viu sua popularidade ir às alturas por causa das ações de combate à pandemia, até que ainda no fim de 2020 surgiu contra ele a primeira denúncia de assédio sexual. Agora, o democrata é pressionado para renunciar, depois de um relatório mostrar evidências de que ele assediou 11 mulheres. Neste episódio, Natuza Nery conversa com duas convidadas: Candice Carvalho, jornalista da Globo em NY, e Marina Ganzarolli, advogada responsável pelo movimento 'Me too Brasil' e fundadora da rede feminista de juristas. Marina define como o consentimento é que determina se há assédio ou não. Ela analisa como muitos assediadores "usam o poder para intimidar" as vítimas e como, a exemplo de Andrew Cuomo, têm redes de proteção e círculos de contatos que dificultam as denúncias. "Existe um pacto de silêncio e de silenciamento das vítimas", diz. Candice relata as evidências contra Cuomo e como a popularidade dele ruiu. Ela fala ainda sobre os próximos passos da investigação, do processo de impeachment contra o democrata e como, sem apoio político e popular, a situação dele fica cada vez mais insustentável.
Aug 05, 2021
Bolsonaro enquadrado pelo TSE
1778
Às vésperas da eleição que lhe daria a Presidência, Bolsonaro já questionava o sistema eleitoral - o mesmo que o elegeu deputado federal sete vezes. Como presidente, seguiu a ofensiva, sobretudo contra a urna eletrônica. “Nunca houve uma prática tão serial de ataques às instituições”, diz Conrado Hubner Mendes, professor de Direito Constitucional da USP e doutor em Ciência Política. Em conversa com Natuza Nery, Conrado analisa a atuação “omissa” do Procurador-Geral da República, Augusto Aras, como peça chave para a estratégia bolsonarista de manter seu eleitorado coeso. “Ele já cruzou todas as linhas possíveis. Bolsonaro está em um jogo de tudo ou nada e qualquer concessão o prejudicará em 2022”. A crise institucional chegou ao ápice na live presidencial da última quinta-feira, quando Bolsonaro reforçou o discurso de fraude eleitoral e, novamente, ameaçou não haver eleições sem voto impresso. Contudo, pela primeira vez, houve reação para além das notas de repúdio: o TSE aprovou, por unanimidade, a abertura de inquérito contra o presidente.
Aug 04, 2021
Mãe solo: a realidade no Brasil
1731
A trajetória da ginasta Rebeca Andrade, que fez história em Tóquio, expôs a realidade de 11,5 milhões de mulheres brasileiras. Como Dona Rosa, responsável por Rebeca, são elas que provêm tudo aos filhos, sozinhas. E mais da metade delas está abaixo da linha da pobreza. Neste episódio, Natuza Nery recebe duas convidadas: a demógrafa Suzana Cavenaghi e a socióloga Hayeska Costa. Suzana, que integra a comissão consultiva do Censo, retrata que essas mulheres "estão espalhadas por todo o país". Suzana aponta ainda como, apesar de as mulheres terem avançado no mercado de trabalho, a responsabilidade em torno dos filhos "continua sobre os ombros" das mães. Já Hayeska detalha como "ser mãe solo não tem a ver com o estado civil", mas sim com a relação de sobrecarga financeira e psicológica em torno dessas mulheres. "Elas são as principais cuidadoras da sociedade", conclui, ao constatar também como elas foram as principais afetadas pela pandemia.
Aug 03, 2021
Fogo na Cinemateca: memória destruída
1664
“Todo mundo sabia que ia acontecer. E aconteceu", diz o diretor Cacá Diegues sobre a crônica de negligência e asfixia de recursos que culminou no incêndio do galpão na Vila Leopoldina, em São Paulo. Os documentos armazenados ali, cerca de um milhão, não dizem respeito apenas ao trabalho de artistas de renome, lembra Cacá, integrante da Academia Brasileira de Letras. São décadas e décadas de produção audiovisual, muitas vezes de anônimos, a contar a história do país. O descaso vem de longe, mas o desejo de extermínio é recente, diferencia Cacá: “Não é que o atual governo não se interesse pelo cinema. Ele é contra o cinema, contra a cultura”. No fundo, “o governo brasileiro não quer que o Brasil exista”. Na conversa com Renata Lo Prete, o diretor reflete sobre o significado retrospectivo de seu “Bye Bye Brasil”. O filme, que no ano 1 da pandemia completou quatro décadas, aborda temas para lá de atuais, como destruição ambiental e aniquilação de povos indígenas. A despeito das dificuldades, Cacá continua a criar. E acredita que ninguém conseguirá matar o cinema brasileiro. Sem ele, “você corta a possibilidade de o país se organizar e ser alguma coisa".
Aug 02, 2021
Endividamento recorde do brasileiro
1374
Em abril, o comprometimento da renda das famílias com o pagamento de dívidas atingiu inéditos 58,5%. Em muitos casos, elas foram contraídas não para a aquisição de bens, mas simplesmente para dar conta de despesas básicas. Um drama alimentado por fatores como o avanço da inflação e o elevado desemprego, explica Sergio Vale, economista-chefe da MB Associados. Em entrevista a Renata Lo Prete, ele analisa o papel do auxílio emergencial (primeiro suspenso e depois reduzido pelo governo) nesse quadro. Fala ainda do complicador representado pelo fato de que o país teve duas retrações em curto período (a de 2015-2016 e a do ano passado). E prevê dificuldade extra para a superação do endividamento, por causa da trajetória de alta dos juros. Participa também Myrian Lund, professora de Finanças da FGV. É ela quem dá dicas para quem se encontra numa bola de neve. “Sempre tem solução", que, segundo ela, passa por “estruturar a situação e só daí renegociar" com o banco. Ela sugere ainda planejar receitas e despesas a longo prazo e evitar o crédito consignado. "Por ter taxa mais baixa, você pega mais. Quando vê, está com a vida comprometida".
Jul 30, 2021
Simone Biles: saúde mental primeiro
1910
A maior ginasta de todos os tempos chegou a Tóquio sob pressão para ampliar seus feitos. Ao decidir ficar fora de pelo menos duas competições para cuidar de si e recuperar a autoconfiança, ela abriu uma discussão planetária que não se restringe ao esporte. Neste episódio, Renata Lo Prete recebe dois convidados: Marcos Uchoa e Vera Iaconelli. Repórter da Globo que cobre Olimpíadas há mais de três décadas, ele começa por explicar o fenômeno Biles: "o que ela faz, ninguém mais é capaz de fazer". Ele descreve o estresse a que são submetidos desde muito cedo os atletas de alta performance, especialmente na ginástica. “Há uma deformação da infância e da adolescência", diz. Vera, doutora em psicologia pela USP e diretora do Instituto Gerar de Psicanálise, analisa o caso Biles sob o aspecto da “relação com os nossos desejos". Ela questiona a caracterização do gesto da campeã como “um problema”, e pondera: “Saúde mental é poder dizer não a certas coisas que não são aceitáveis. E não tentar loucamente se adaptar a elas".
Jul 29, 2021
Brasil, potência no surfe e no skate
1680
Italo Ferreira, Rayssa Leal, Kelvin Hoefler: três medalhistas na estreia dessas duas modalidades em Olimpíadas. Não é exagero comparar seus feitos “aos de nomes como Messi e Neymar”, diz o jornalista Paulo Lima. E tampouco se trata apenas de um “bom momento” dos esportes de prancha no país, mas sim de uma construção de décadas, que envolveu talento e esforço de muita gente. Para entender essa trajetória, Renata Lo Prete conversa com o criador da revista Trip e da editora de mesmo nome. “O prazer de deslizar, assim como o de voar, é atávico”, lembra Paulo, ao resgatar a origem do encantamento. O skate nasceu do surfe, e desde então eles se retroalimentam. Nas manobras mais ousadas de atletas como Italo Ferreira e Gabriel Medina, Paulo identifica movimentos originalmente vistos nas rampas e nas pistas. Ele descreve as origens e analisa os fatores que ajudaram a disseminar surfe e skate para além do eixo Rio-São Paulo. Especialmente no caso do surfe, segundo ele, não tem pra mais ninguém: “Hoje o Brasil lidera no mundo, em todas as frentes".
Jul 28, 2021
A pandemia dos não-vacinados
1524
Depois de um 2020 trágico, os Estados Unidos entraram em rota de superação do coronavírus graças, sobretudo, ao maior estoque de doses de vacina do planeta. Assim imunizaram quase metade da população, mas a partir daí a campanha começou a ratear, e a variante delta, a ganhar terreno. Hoje, casos, hospitalizações e óbitos estão de novo em alta no país. E governadores e prefeitos de diversas localidades se inclinam por duas medidas que prometem gerar resistências: restabelecer o uso obrigatório de máscaras e exigir imunização de servidores públicos. Neste episódio, o correspondente da Globo Tiago Eltz descreve a disparidade de cobertura vacinal entre os Estados americanos e o papel do movimento antivacina na construção dessa realidade ameaçadora. Participa também a epidemiologista Fátima Marinho, da organização Vital Strategies. Ela resgata as origens do movimento, apontando onde mais ele é forte no mundo. E, para mostrar o contraste, analisa dois casos de imunização homogênea e com bons resultados na América do Sul: Chile e Uruguai.
Jul 27, 2021
Militares de novo no poder: as origens
1484
Primeiro, eles saíram dos quartéis para o front internacional em missões de grande visibilidade, notadamente a do Haiti. Depois, foram chamados a atuar em segurança pública interna, numa escalada de operações que culminou com a intervenção de 2018 no Rio de Janeiro. Logo depois da eleição de Jair Bolsonaro, o então comandante do Exército, Eduardo Villas-Bôas, qualificou como “volta à normalidade” a atuação de quadros das Forças Armadas em áreas de natureza civil da administração federal -hoje em patamar sem precedentes. “Este é um governo de militares", observa Natalia Viana, diretora-executiva da Agência Pública e autora do recém-lançado “Dano Colateral”. No momento em que eles disputam terreno com políticos do Centrão - e recebem a conta do desempenho desastroso na pandemia-, a jornalista resgata o capítulo inaugural dessa história. Mostra, com apuração minuciosa, a opacidade de informações e a impunidade de atos cometidos, em especial no Rio. E constata que “a democracia já está rota” quando um general (Braga Netto, ministro da Defesa) se sente à vontade para ameaçar ninguém menos do que o presidente da Câmara com a ruptura do calendário eleitoral. “Eles entraram na política e não pretendem se retirar”.
Jul 26, 2021
Espionagem via celular: o caso Pegasus
1352
Mensagens, fotos, e-mails, localização. Todo e qualquer conteúdo do aparelho que se tornou um prolongamento do corpo humano capturado por um software - capaz, ainda, de gravar e transmitir o material. E sem que o usuário desconfie de nada. A revelação, feita por um consórcio de veículos de imprensa, de que países como México, Arábia Saudita e Hungria teriam comprado o produto desenvolvido pela empresa israelense NSO para monitorar alvos comerciais e políticos disparou alarme geral. “Mais do que um software, o Pegasus é uma arma de guerra”, explica o professor Sergio Amadeu, ex-presidente do Instituto Nacional de Tecnologia da Informação. Ao utilizá-lo, "governos, a partir de suas estruturas de inteligência, atuam nas sombras”, num mercado em que “as fronteiras entre legal e ilegal foram borradas". Ele defende um esforço multilateral de regulação e, de imediato, moratória no uso desse tipo de ferramenta. De Nova York, o correspondente da Globo Ismar Madeira faz um relato das reações dos países na berlinda e também dos potenciais atingidos - entre eles ativistas, advogados de direitos humanos, jornalistas e até chefes de governo, como o presidente francês, Emmanuel Macron.
Jul 23, 2021
Com Bolsonaro, Centrão chega ao topo
1531
Acuado por revelações da CPI da Covid e mais de uma centena de pedidos de impeachment, o presidente resolveu promover uma dança de cadeiras que levará o senador Ciro Nogueira (PP-PI) à chefia da Casa Civil. Para esse aglomerado de partidos essencialmente fisiológicos, que apoiaram todos os governos em troca de cargos e manejo de verbas do Orçamento, não se trata de um avanço qualquer. “A Casa Civil está no topo da cadeia alimentar dos ministérios", observa Natuza Nery em conversa com Renata Lo Prete no episódio de número 500 do podcast. Ao entregar tamanha fatia de poder a um dos expoentes do Centrão, Bolsonaro espera, além de chegar até o fim do mandato, pavimentar terreno para a disputa da reeleição. Nesse contexto, explica a colunista do G1 e comentarista da GloboNews, ele tanto pode se filiar ao PP quanto pescar um vice nos quadros da sigla. Renata e Natuza analisam ainda movimentos secundários da sacudida no primeiro escalão. O esperado deslocamento do general da reserva Luís Eduardo Ramos da Casa Civil para a Secretaria Geral da Presidência indica perda de terreno dos militares na disputa com o Centrão. Assim como a recriação da pasta do Trabalho, desmembrada da Economia, para dar abrigo a Onyx Lorenzoni é mais uma etapa do longo processo de desidratação de Paulo Guedes.
Jul 22, 2021
Congresso: Fundão e muito mais
1482
Com Jair Bolsonaro mais dependente de sua base parlamentar a cada revelação da CPI da Covid, deputados e senadores vão cuidando dos próprios interesses, sem maior preocupação com o pensamento ou as demandas da sociedade. Antes de saírem em férias, triplicaram o valor do fundo público que financia eleições, no que bem pode ser um “bode na sala”, explica Paulo Celso Pereira, editor-executivo do jornal O Globo. Diante da péssima repercussão, tudo caminha para um “acordo” que reduziria os quase R$ 6 bi para algo como R$ 4 bi - patamar que mantém as campanhas brasileiras entre as mais caras do mundo. Na conversa com Renata Lo Prete, Paulo Celso fala também de outras movimentações na mesma linha, previstas para a volta do recesso, em agosto. Uma delas pretende reduzir drasticamente a obrigação de prestar contas, criando uma espécie de “salvo-conduto para os gastos do Fundo Partidário" e terceirizando sua análise para auditorias privadas. Para completar, há a proposta de adoção de um regime semipresidencialista, que limitaria os poderes do chefe do Executivo, aumentando ainda mais os do Congresso. Ao abraçá-la, o presidente da Câmara, Arthur Lira (PP-AL), “quer esvaziar a pressão em torno dos mais de cem pedidos de impeachment de Bolsonaro". Como lembra Paulo Celso, falta apenas combinar com o eleitor, que já rejeitou o parlamentarismo (do qual o semipresidencialismo é a forma envergonhada) duas vezes em plebiscitos.
Jul 21, 2021
Olimpíadas de Tóquio: a hora chegou
1406
Elas já foram marcadas pela ascensão (e pela contestação) do nazismo. Pela Guerra Fria e pela emergência da China, entre outros movimentos históricos. Desta vez, a ideia era que refletissem diversidade e o esforço de reconstrução do Japão pós-desastre nuclear de Fukushima (2011). Mas o coronavírus atropelou tudo. Os Jogos que se iniciam agora, um ano depois da data original, são essencialmente sobre a pandemia. Com infecções pelo coronavírus em alta e vacinação incipiente, Tóquio nem de longe lembra as sedes anteriores. “Existe uma indiferença grande", relata o correspondente Carlos Gil. Para contenção do contágio, nem público local haverá nos eventos, cujo protocolo sanitário atingirá até as cerimônias de premiação. “Pela primeira vez, é o atleta que vai colocar a medalha no próprio peito", diz Gil. Mas o jornalista pondera: o esforço de se preparar em circunstâncias tão adversas faz dos participantes deste ano tão ou mais merecedores de aplauso do que seus antecessores. Gil ainda destaca quem serão as potenciais estrelas destas Olimpíadas e faz prognósticos sobre a participação brasileira.
Jul 20, 2021
Violência contra a mulher: um alerta
1533
A cada minuto de 2020, o Brasil registrou uma denúncia de agressão dentro de casa. E, a cada dia, mais de 600 vítimas foram à delegacia denunciar - como fez recentemente a mulher do DJ Ivis, depois de divulgar um vídeo com imagens que chocaram o país. Uma realidade agravada por duas circunstâncias da pandemia: mais tempo de exposição ao agressor sob o mesmo teto e menos autonomia financeira. Neste episódio, a repórter da Globo Bruna Vieira compartilha as descobertas que fez ao acompanhar as histórias de algumas dessas mulheres: cerceamento muitas vezes travestido de “amor e cuidado”, desrespeito verbal que evolui para ataques físicos, medo das consequências de relatar à polícia. Mesmo depois da concessão de medida protetiva pela Justiça, uma das entrevistadas por Bruna teve que enfrentar um mês de terror até que o marido saísse de casa. Renata Lo Prete conversa também com a socióloga Samira Bueno, diretora do Fórum Brasileiro de Segurança Pública. Ela destaca a importância de combater a vulnerabilidade socioeconômica das vítimas, como forma de romper o ciclo de violência.
Jul 19, 2021
Amazônia emite mais CO2 do que absorve
1533
O fenômeno, em estágio avançado na região sudeste da floresta, foi detectado em estudo que ganhou destaque na revista científica “Nature”. Resultado de desmatamento e outras formas de degradação, ele compromete a capacidade do bioma para exercer uma de suas funções essenciais no planeta: funcionar como filtro do dióxido de carbono, principal vilão do efeito estufa. Neste episódio, dois convidados enxergam o Brasil “na contramão do mundo”. Um deles é Paulo Artaxo, professor da USP e integrante do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas da ONU. Segundo o físico, trata-se de “um tiro no pé” porque, nessa batida, até o agronegócio terá dificuldades para se sustentar, por escassez de chuvas. Ele discute qual seria o ponto de não-retorno da destruição da Amazônia, e recomenda “não testar esse precipício”. Também entrevistado por Renata Lo Prete, o jornalista Jorge Caldeira analisa o cerco internacional que se fecha. “Se o Brasil não se mexer depressa, será punido”, diz ele, comentando editorial do jornal britânico “Financial Times” que conclama investidores a reduzir suas posições no país. “Vai virar uma espécie de Irã, com embargos por questões ambientais”. Apesar desse diagnóstico, Caldeira enxerga avanços à margem da política oficial, especialmente na área de energia. “Somos o país que mais tem a ganhar com a economia de carbono neutro”, diz o autor do livro “Brasil: Paraíso Restaurável”.
Jul 16, 2021
Vacina: adiantar ou não a 2ª dose?
1673
Com pouco mais de 15% dos brasileiros totalmente imunizados e a variante delta amedrontando o mundo, vários Estados se movimentam para reduzir o espaçamento entre as duas doses dos imunizantes da AstraZeneca e da Pfizer, até aqui aplicadas com 12 semanas de intervalo. A Fiocruz é contra, considerando a resposta imunológica “mais eficaz” no modelo atual. O biólogo e imunologista Gustavo Cabral vê mérito nos argumentos dos dois lados do debate, mas vota com o primeiro. "Precisamos construir anéis e barreiras de dispersão do vírus", diz em entrevista a Renata Lo Prete, o que só será possível, segundo ele, aumentando mais rapidamente o percentual das pessoas que concluíram o esquema vacinal. A epidemiologista Denise Garrett também participa do episódio, para avaliar outra discussão, que cresce em países com campanha de imunização mais avançada: trata-se de saber se vale a pena acrescentar uma terceira dose ao calendário. Ela não vê evidências científicas suficientes de ganho de proteção com tal medida. E considera que seria antiético direcionar esse reforço extra aos países ricos agora, quando ainda há tanta desigualdade vacinal no planeta.
Jul 15, 2021
Os protestos em Cuba
1527
Eles impressionam, antes de tudo, porque são raros no país. Os últimos desse porte haviam acontecido quase três décadas atrás. Voltaram agora por força de uma “tempestade perfeita”, como define o jornalista Marcelo Lins, apresentador do programa GloboNews Internacional. Tempestade na qual se misturam pandemia fora de controle, vacinação lenta e uma economia que encolheu 11% no ano passado - sob o peso da interrupção do turismo e do embargo comercial dos EUA. “O governo não está conseguindo entregar o básico”, diz Lins, de alimentos a remédios. Ainda assim, ele não acredita que as manifestações - com uma morte já registrada - venham a comprometer a sobrevivência do regime de partido único vigente em Cuba desde a revolução castrista. Para avaliar o papel das redes sociais na convocação dos atos, participa do episódio David Nemer, professor do departamento de Estudos de Mídia na Universidade da Virgínia, que desde 2015 pesquisa a expansão da conectividade entre os cubanos.
Jul 14, 2021
Golpe: por que não é tão simples
1756
O presidente atenta sem trégua contra o sistema de votação que lhe deu a vitória em 2018. E agora também militares lançam ameaças de ruptura da ordem democrática. Para Bolsonaro, eleição em 2022 “é só o plano B”, afirma o sociólogo Celso Rocha de Barros, colunista da Folha de S. Paulo. Falta, no entanto, combinar com muita gente. Começando pelo eleitor - segundo o Datafolha, a maioria enxerga corrupção no Ministério da Saúde e rejeita a presença de integrantes das Forças Armadas no governo. A ofensiva do comando contra a CPI não resolve esse problema, lembra Celso. No caso do Congresso, outra ponderação: o poder dos parlamentares “deriva inteiramente das instituições democráticas". “Eles podem brincar de muita coisa, não de ditadura". Na conversa com Renata Lo Prete, Celso diz ainda que Supremo e TSE precisam matar no nascedouro a campanha dos bolsonaristas pela impressão do voto, para não tratar como debate de mérito algo que tem sentido exclusivamente golpista.
Jul 13, 2021
O vale-tudo das “narrativas”
1254
O dicionário diz que se trata da “exposição de uma série de acontecimentos mais ou menos encadeados”. Na política, porém, a palavra se perdeu numa epidemia de usos equivocados, quase sempre voltados ao diversionismo e à tentativa de ocultar verdades inconvenientes. Neste episódio, o apelo incessante à carta da “narrativa”, notadamente pelos bolsonaristas na CPI da Covid, compõe a trilha sonora da conversa de Renata Lo Prete com o jornalista Eugênio Bucci, professor da Universidade de São Paulo e autor do recém-lançado livro “A Superindústria do Imaginário”. Eugênio resgata o sentido original do termo -em diferentes mitologias, na literatura e no jornalismo. Passa por transformações ligadas à lógica dos mercados e chega às fake news, um território onde “a verdade não pesa”. Para ele, abster-se de responder pelos fatos é o "objetivo final dessa discurseira vazia e histérica".
Jul 12, 2021
André Mendonça no Supremo
1414
Falta formalizar a indicação, mas Jair Bolsonaro já afirmou com todas as letras que o advogado-geral da União é seu escolhido para a vaga que se abre com a aposentadoria do ministro Marco Aurélio Mello. Assim, o presidente cumpre o objetivo, anunciado na largada do governo, de instalar alguém “terrivelmente evangélico” no tribunal. Neste episódio, Bela Megale, colunista do jornal O Globo e comentarista da rádio CBN, explica como Mendonça acabou prevalecendo sobre outros que cobiçavam a cadeira, notadamente o procurador-geral da República, Augusto Aras. E dá o termômetro da receptividade ao AGU no Senado, a quem cabe aprovar ou rejeitar a indicação. Renata Lo Prete entrevista também Felipe Recondo, sócio-fundador da plataforma Jota e autor de dois livros sobre o STF. O jornalista destaca dois aspectos do perfil de Mendonça. De um lado, a defesa incondicional das vontades de Bolsonaro. De outro, no bastidor, um comportamento apaziguador na relação com os ministros da Corte, o que faz dele um nome internamente mais palatável que o de Aras. Recondo analisa também o timing da indicação, feita num momento de seguidos ataques de Bolsonaro ao Supremo. E avalia que, goste-se ou não, é preciso reconhecer que ele sabe o que quer das opções que fez até aqui nessa área: tanto com Nunes Marques antes como com André Mendonça agora o presidente conseguirá “fazer tocar a sua música” no tribunal.
Jul 09, 2021
Luta de facções no Ministério da Saúde
1904
Antes de sair preso do depoimento à CPI da Covid, o ex-diretor de Logística Roberto Dias voltou suas baterias contra o coronel Elcio Franco, ex-número 2 da pasta, atualmente com cargo no Palácio do Planalto. A manobra é reveladora da disputa interna “entre um grupo estabelecido e um novo”, descreve Carlos Andreazza, colunista do jornal O Globo e apresentador da Rádio CBN. Dias, alçado ao posto por indicação do Centrão, é representante do primeiro. E Franco, o principal executivo do núcleo militar, que se tornou dominante na gestão do general Eduardo Pazuello. “Não tem santo nesse jogo” cujo prêmio é o controle dos contratos do Ministério da Saúde, observa o jornalista. Para que ninguém se perca diante de uma lista de nomes que não para de crescer, Andreazza e Renata Lo Prete examinam personagens como o coronel Blanco, o PM Dominghetti e o reverendo Amilton de Paula, identificando o papel de cada um no balcão de negociatas com vacinas. Andreazza analisa também a situação de Jair Bolsonaro: ainda que o presidente pretendesse arbitrar essa disputa, ele é hoje tão dependente do Centrão quanto dos militares que lotam a administração federal.
Jul 08, 2021
Taxação de dividendos na reforma do IR
1397
É o item mais controverso do projeto de lei apresentado pelo governo para mudar as regras de tributação da renda no país. A ponto de o ministro Paulo Guedes já admitir alterações num texto que mal começou a tramitar no Congresso. Este episódio traz, em entrevistas a Renata Lo Prete, as visões de dois economistas sobre o que está em discussão. Rodrigo Orair, do Ipea, até enxerga pontos a calibrar na proposta, mas considera que ela pega o caminho certo rumo a um sistema com menos distorções e mais parecido com o da maioria dos países. Já Bernard Appy, diretor do Centro e Cidadania Fiscal, avalia que, com medidas diferentes, seria possível atacar os problemas distributivos atuais sem gerar novas distorções. Entre as sugeridas por ele estão aumentar a base de contribuição das empresas, integrar a distribuição de lucros para pessoa física e jurídica e criar uma nova alíquota de IR, mais elevada, para o topo da pirâmide.
Jul 07, 2021
Prevaricação: crime e castigo
1506
Na base do inquérito sobre a malfadada compra da vacina indiana Covaxin está uma prática consumada quando um funcionário público deixa de cumprir os deveres do cargo, por interesse próprio ou má-fé. No caso, o funcionário sob suspeita vem a ser o presidente da República. Neste episódio, Isadora Peron, repórter do jornal Valor Econômico em Brasília, resgata as origens dessa investigação e avalia suas chances de prosperar, à luz do desinteresse da Procuradoria Geral da República em contrariar Jair Bolsonaro. Renata Lo Prete entrevista também Pierpaolo Bottini, professor de Direito Penal da Universidade de São Paulo. É ele quem explica a diferença entre crimes comuns (como prevaricar) e de responsabilidade (descritos, por exemplo, no superpedido de impeachment que acaba de ser apresentado por partidos e entidades). E lembra que, quando se trata do presidente, para processar é necessário haver autorização da Câmara dos Deputados. O criminalista ainda compara prevaricação e peculato (suspeita que paira sobre Bolsonaro diante da nova denúncia de rachadinha em seu gabinete, na época em que foi deputado federal): no segundo caso, a pena é bem maior. Mas, como se trata de evento anterior ao mandato no Planalto, Bolsonaro só responderia por ele depois de deixar o cargo.
Jul 06, 2021
Um retrocesso chamado distritão
1662
A ideia não é nova, mas nunca antes reuniu tanto apoio entre os parlamentares. Trata-se de abandonar, na eleição para deputados e vereadores, o sistema proporcional (vagas distribuídas de acordo com os votos dados aos candidatos e também às legendas). E adotar o majoritário (que considera apenas os nomes mais votados). Em entrevista a Renata Lo Prete, o cientista político Jairo Nicolau, da FGV, explica como esse modelo fragiliza os partidos e diminui a margem para renovação, reservando informalmente o mercado para quem já tem mandato, é mais conhecido ou concorre com abundância de recursos (ou tudo isso junto). Escolhido como “o pior sistema” num ranking especializado, ele “não é usado em nenhuma grande democracia atualmente”, diz Jairo. Participa também do episódio Nilson Klava, repórter da Globo em Brasília, para explicar a proposta de distritão misto, apresentada na tentativa de vencer as resistências ao distritão - e igualmente criticada por Jairo. Nilson aproveita para atualizar o ouvinte sobre o status de matérias correlatas em discussão na Câmara, como a reforma de regras para as eleições de 2022 e a emenda constitucional que pretende instituir a impressão do voto - esta última já descartada por 11 partidos.
Jul 05, 2021
Um escândalo para cada vacina
1641
Um policial militar sem qualquer experiência ou qualificação na área da saúde se apresenta à CPI da Covid como intermediário de uma empresa que ofereceu 400 milhões de doses do imunizante da AstraZeneca ao governo Bolsonaro num negócio bilionário, ouvindo em resposta um gordo pedido de propina. Em condições minimamente normais, Luiz Paulo Dominguetti, o depoente desta quinta-feira, “não passaria da portaria do ministério”, observa Vera Magalhães, colunista do jornal O Globo, comentarista da rádio CBN e apresentadora do programa Roda Viva, da TV Cultura. “Mas não só passou como foi a três reuniões”. Mesmo com muito ainda por ser esclarecido, a história de Dominguetti é reveladora do modus operandi do governo Bolsonaro em relação às vacinas. E tem elementos em comum com encrencas ainda maiores, como a que resultou na suspensão do contrato de compra da indiana Covaxin e derrubou o diretor de logística Roberto Dias. “O que se tem é um ambiente propício a esse tipo de personagem e a toda sorte de negociata”, analisa Vera. E em flagrante contraste com o longo período de desinteresse oficial pelas ofertas da Pfizer e do consórcio Covax Facility, bem como de campanha do presidente da República contra a Coronavac. Na conversa com Renata Lo Prete, Vera trata ainda da união estável entre indicados do Centrão e militares no Ministério da Saúde, visível em vários casos agora investigados pela CPI.
Jul 02, 2021
Militares no governo: liberou geral
1403
Enquanto, no Congresso, uma emenda constitucional reguladora da presença de integrantes das Forças Armadas em cargos de natureza civil encontra dificuldades para avançar, o Executivo agiu com rapidez - e no sentido oposto. Já está em vigor um decreto que torna ainda mais difícil disciplinar uma mistura que, na gestão de Jair Bolsonaro, atingiu nível sem precedentes. Justo no momento em que o fracasso na gestão da pandemia mais assombra o presidente. E quando auxiliares como o general Eduardo Pazuello e o coronel Elcio Franco têm dificuldade em se explicar diante dos indícios de corrupção no Ministério da Saúde. Neste episódio, Renata Lo Prete conversa com Fernando Rêgo Barros, repórter da Globo em Brasília, para detalhar o que muda com o decreto e entender por que o Congresso até aqui não se animou a aprovar PEC. Participa também do episódio Alcides Vaz, ex-presidente da Associação Brasileira de Estudos de Defesa e professor de Relações Internacionais da Universidade de Brasília. Alcides explica por que a crescente presença de militares no governo gera “perda de credibilidade” e “distanciamento da realidade” das Forças Armadas. Ele também alerta sobre o risco deflagrado pela proposta de que civis possam ser julgados Justiça Militar. “É preocupante de assustador, como um ato de exceção. É algo que põe em questão a liberdade de pensamento e expressão”, afirma.
Jul 01, 2021
Ricardo Barros e os negócios da vacina
1641
Pelo líder do governo na Câmara passam várias das histórias sob investigação na CPI da Covid -começando pela que levou à suspensão, nesta terça, do contrato de compra da indiana Covaxin. Expoente do Centrão, ministro da Saúde na gestão Temer e sobrevivente de diversos escândalos, o deputado do PP virou problema de difícil solução para o presidente Jair Bolsonaro, avalia Bernardo Mello Franco, colunista do jornal O Globo e comentarista da rádio CBN. Seja porque sabe demais, seja porque na trama da Covaxin está enredado também o senador Flavio Bolsonaro. Neste episódio Renata Lo Prete conversa ainda com Renan Truffi, repórter do jornal Valor Econômico em Brasília. É ele quem ajuda a encaixar as peças de um quebra-cabeças que não para de crescer: agora o governo já está às voltas com outra acusação, de cobrança de propina em doses do imunizante da AstraZeneca.
Jun 30, 2021
Impeachment no Brasil
1743
Na Câmara, são mais de cem pedidos de abertura de processo contra Jair Bolsonaro - e um novo deve ser apresentado nesta semana. Quantidade, porém, não significa necessariamente viabilidade, explica neste episódio Rafael Mafei, professor da Faculdade de Direito da USP. À diferença dos antecessores Fernando Collor e Dilma Rousseff, o atual presidente veio até aqui blindado por suficiente apoio parlamentar. Mas a suspeita de acobertamento de negócios escusos na compra de vacinas contra a Covid-19 pode comprometer esse escudo protetivo. “Sem o discurso de que não há corrupção no governo, vai ficar difícil se sustentar”, afirma o autor do recém-lançado “Como Remover um Presidente - teoria, história e prática do impeachment no Brasil”. Em entrevista a Renata Lo Prete, Mafei resgata a origem desse instrumento no nosso ordenamento político-jurídico. Analisa, ao lado da caracterização de crime de responsabilidade, o peso de fatores como anemia econômica e erosão de popularidade. E avalia os custos de curto e de longo prazo da permanência de Bolsonaro, um presidente “que tem orgulho de agredir os valores da Constituição”.
Jun 29, 2021
A mobilização indígena contra o PL 490
1476
Povos indígenas estão mobilizados há semanas em Brasília em vários pontos do país contra o projeto que muda as regras para a demarcação das terras indígenas. O PL 490, apresentado em 2007, foi desengavetado pela base governista na Câmara e teve seu texto-base aprovado na CCJ – comissão comandada pela deputada bolsonarista Bia Kicis (PSL-DF). “Falar da demarcação de terras indígenas é falar de condição de vida e da continuidade existencial dos povos indígenas”, diz a advogada Samara Pataxó, coordenadora jurídica da Articulação dos Povos Indígenas do Brasil. Samara é uma das entrevistadas de Natuza Nery neste episódio. Ela explica em que o projeto fere uma cláusula pétrea da Constituição e rebate o argumento de que os povos originários, donos de 13% do território brasileiro, são subdesenvolvidos. “Quem diz isso não conhece as múltiplas vivências indígenas. O que deve ser levado em conta é a forma como nossos povos se relacionam e como funciona nosso desenvolvimento sustentável”. Participa também deste episódio Delis Ortiz, repórter da TV Globo em Brasília. Ela explica os trechos mais polêmicos do texto, como a possibilidade de retomada de áreas não demarcadas pela União, a flexibilização para atividades econômicas dentro de territórios e o marco temporal – tema que está na pauta do STF nesta semana. “É, de novo, uma boiada que está se aproximando para passar”, relata Delis.
Jun 28, 2021
Covaxin, CPI da Covid, e os irmãos Miranda
1603
As suspeitas que pairam em torno das negociações de compra da vacina indiana agitaram a semana da CPI – e do governo. A gestão que esnobou a vacina da Pfizer e passou meses criticando a Coronavac acelerou a contratação de 20 milhões de doses da Covaxin, em uma negociação de R$ 1,6 bilhão. Nesta sexta-feira a Comissão espera o servidor do Ministério da Saúde que disse ter alertado o presidente Jair Bolsonaro sobre irregularidades na compra. Neste episódio, Natuza Nery entrevista Thomas Traumann, jornalista e analista político. Ele explica como os depoimentos de Miranda e do irmão dele, o deputado Luis Miranda (DEM-DF) podem impactar o governo. "A partir de agora estamos falando de dinheiro público", diz. Traumann avalia ainda o impacto das suspeitas e aponta como a "reação desmedida" do governo escancara o medo do Planalto sobre o caso, que "chega no círculo muito perto do presidente". E conclui como o caso pode impactar a popularidade de Bolsonaro em um momento de piora da pandemia. "O inverno chegou para o governo", avalia.
Jun 25, 2021
A saída de Ricardo Salles
1270
Na mira do STF, o ministro "da boiada", dos recordes de desmatamento, das queimadas e do desmonte dos órgãos de fiscalização pediu demissão no meio da tarde da quarta-feira. Neste episódio, Natuza Nery conversa com Jussara Soares, repórter do jornal O Globo em Brasília. Jussara relembra como Salles se manteve no cargo por 30 meses, mesmo depois sucessivos escândalos - o maior deles, a operação da PF, em maio, da qual foi um dos alvos principais. "Salles ficou porque ele cumpria as demandas de Bolsonaro". Ela explica por que o presidente "nunca quis demitir" o ministro e conta os bastidores da entrega do cargo - e de como o cerco das investigações autorizadas pelo Supremo foram decisivas. Elas analisam também o que a saída do ministro diz sobre a situação atual do governo, que precisa explicar as suspeitas de irregularidade nas negociações da vacina indiana Covaxin.
Jun 24, 2021
O vai e vem no calendário da vacinação
1629
Em um dia, antecipação. No outro, falta de vacinas e suspensão da aplicação. Nesta terça-feira, capitais registraram falta de imunizantes para a 1ª dose contra a Covid. E o Ministério da Saúde, que deveria coordenar a distribuição e garantir as vacinas, é parte da confusão e já revisou várias vezes a previsão de chegada e entrega de doses. Neste episódio, Natuza Nery recebe duas convidadas: Carla Domingues, ex-coordenadora do Programa Nacional de Imunização, e Ana Carolina Moreno, jornalista de dados da TV Globo. "Não estamos em uma maratona, precisamos chegar todos juntos", afirma Carla, ao explicar como a falta de coordenação e de comunicação clara à população prejudicam a campanha. Para ela, calendários diferentes provocam "deslocamentos a outras cidades" e bagunçam o processo de imunização. Ana Carolina explica como as doses são repassadas do Ministério da Saúde para Estados e, depois, para municípios. E como a quantidade de vacinas disponíveis agora coloca em risco a aplicação da 2ª dose a quem precisa recebê-la.
Jun 23, 2021
500 mil mortes, e o Brasil mais triste
1492
Enquanto as vítimas da Covid ultrapassam a trágica marca de meio milhão, outros índices reforçam as inúmeras e várias perdas para o país. Pesquisa realizada pela FGV-Social constatou que o brasileiro nunca esteve tão infeliz: a percepção de bem-estar despencou quase 20% no último ano. “Ao fim da década, a fotografia é de que andamos para trás, com um impulso final dado pela Covid”, analisa Marcelo Neri, economista e diretor da FGV-Social, que coordenou a pesquisa. “A pandemia é como um teste coletivo no qual estamos indo muito mal”. Esta conclusão está baseada nos resultados objetivos – caso do crescimento recorde da desigualdade de renda entre ricos e pobres. E também nos subjetivos – a auto avaliação de felicidade caiu entre brasileiros, na contramão do resto do mundo – descobertos pelo trabalho, somada ao déficit educacional das crianças da “geração Covid” (entre 5 e 9 anos) e à falta de perspectiva de emprego para os jovens que ingressam no mercado de trabalho. Neste episódio, Natuza Nery entrevista Marcelo sobre causas e consequências da tragédia brasileira. “Está claro que falhamos em três frentes: na saúde, na inclusão produtiva e na educação”, conclui.
Jun 22, 2021
Os bandidos da banda larga
1398
A expressão, estampada na capa da mais recente edição do semanário britânico “The Economist”, indica a ameaça global representada por um tipo de crime que triplicou de frequência em menos de uma década. Entre os alvos mais recentes estão a Colonial Pipeline Company, fornecedora de combustível para metade da costa leste dos EUA, e a multinacional de origem brasileira JBS, líder mundial no setor de carne. Ambas pagaram milhões de dólares para reaver dados roubados e reverter o colapso dos serviços que prestam. Neste episódio, Altieres Rorh, colunista de segurança digital do G1, explica como funcionam os ataques cibernéticos, de que maneira a pandemia facilitou a ação dos criminosos e por que é tão difícil, para os atingidos, seguir a recomendação das autoridades de não pagar resgate. Ele também avalia as suspeitas que, em muitos desses casos, pairam sobre a Rússia - não à toa, o tema esteve no topo da agenda do encontro Biden-Putin. “É muito raro a Rússia anunciar que prendeu algum autor, algo no mínimo curioso", diz. Renata Lo Prete entrevista ainda o advogado Rafael Zanatta, diretor da associação Data Privacy Brasil de Pesquisa. Ele critica o pouco interesse do Brasil em participar dos esforços mundiais de combate à insegurança cibernética. “É uma estrutura de crime organizado internacional", afirma, “o que demanda cooperação entre países para punir e lidar com o problema”.
Jun 21, 2021
Lei de improbidade: o que muda?
1418
Com apoio da direita à esquerda e placar folgado (408 x 67), a Câmara alterou diversos pontos da lei que, há quase três décadas, é usada para punir desvio de recursos públicos, enriquecimento ilícito no cargo e uso deste para obtenção de vantagens indevidas. A principal novidade é a exigência de que seja caracterizada intenção por parte do acusado, relata Camila Bonfim, repórter e apresentadora da Globo. Ela detalha essa e outras mudanças, assim como o bastidor de uma aprovação do interesse direto dos parlamentares - vários deles, como o presidente da Câmara, Arthur Lira (PP-AL), com pendências na Justiça. Apesar do viés, muitos operadores do direito recomendam cautela antes de condenar por inteiro o texto, que irá agora ao Senado: sustentam que a matéria precisa mesmo de atualização, para distinguir mais claramente crimes de erros administrativos. Eliana Calmon, ministra aposentada do STJ e ex-corregedora nacional de Justiça, concorda até o ponto de defender modulação das penas. Mas para por aí: "Exigir dolo para incriminação é praticamente dizer que a lei não vai mais existir”.
Jun 18, 2021
O saldo da cúpula Biden-Putin
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Dos ataques cibernéticos à Ucrânia, da interferência nas eleições de 2016 ao encarceramento do líder oposicionista Alexei Navalny, o contencioso entre Estados Unidos e Rússia é extenso, e ninguém esperava que diminuísse significativamente com a reunião desta quarta-feira em Genebra entre os presidentes dos dois países, a primeira desde a troca de comando na Casa Branca. Mas ambos conseguiram o ganho de imagem que esperavam, analisa o jornalista Guga Chacra, correspondente da Globo em Nova York. De olho principalmente no público interno, o americano afirma ter feito “advertências” ao russo, que por sua vez lucra com o simples reconhecimento de sua posição estratégica na cena global. Neste episódio, Guga passa em revista os principais gargalos da pauta bilateral e fala também do “sujeito oculto” da cúpula: a China, cuja ascensão explica todos os movimentos dos EUA, tanto para se reaproximar dos aliados europeus quanto para evitar a escalada das tensões com a Rússia.
Jun 17, 2021
O medo da variante delta
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Das mutações preocupantes do novo coronavírus que se acumulam desde o início da pandemia, a que mais assusta o mundo no momento é a originária da Índia, batizada com a quarta letra do alfabeto grego. Nos EUA, ela vai ganhando terreno rapidamente. E no Reino Unido, outro país de vacinação avançada, tornou-se dominante, provocando um surto de casos às portas do verão. De Londres, o correspondente Pedro Vedova detalha as medidas que o governo de Boris Johnson se viu obrigado a tomar para conter a nova sobrecarga dos hospitais, adiando o esperado “Dia da Liberdade” - como os britânicos se referem ao fim de todas as restrições. E anota o valor da imunização: os óbitos, felizmente, não estão acompanhando a alta. Participa também deste episódio a epidemiologista Ethel Maciel, da Universidade Federal do Espírito Santo. A professora enumera as evidências de que a delta é a mais contagiosa das variantes já identificadas. Expõe o debate sobre o grau de eficácia das atuais vacinas contra ela. E ainda faz um alerta ao Brasil: só uma campanha de imunização completa e mais célere evitará que a delta faça por aqui o estrago que a gama ainda faz.
Jun 16, 2021
O bolsonarismo de motocicleta
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Pressionado pelos efeitos da pandemia em sua popularidade e pelo cerco da CPI, o presidente da República encontrou um jeito peculiar de demonstrar que tem apoio: as “motociatas”, percursos feitos por ele na companhia de motociclistas, eventos bancados com dinheiro público em que se misturam infrações sanitárias e de trânsito. Neste episódio, Renata Lo Prete conversa com Guilherme Caetano, repórter do jornal O Globo que cobriu o mais recente desses atos, no sábado passado em São Paulo. É ele quem identifica os organizadores e traça o perfil dos participantes (cerca de 12 mil, segundo a Secretaria Estadual da Segurança Pública). Apesar da temática evangélica da convocação, eram, em sua maioria, “integrantes de motoclubes”, diz Guilherme. Segundo ele, tanto pilotos quanto veículos guardavam pouca semelhança com os motoboys que respondem por boa parte dos serviços de entrega nas cidades brasileiras. Participa também o cientista político Christian Lynch, professor do Instituto de Estudos Políticos e Sociais da UERJ. Para ele, o desfile de motos é a forma de manifestação escolhida pelo presidente por dar uma sensação de volume superior ao real - num momento em que a oposição passou a disputar as ruas. E por conversar com seu público mais fiel. Uma “estratégia populista reacionária”, define Lynch. “Mas quando se quer transmitir tanta força é porque ela está em falta na prateleira".
Jun 15, 2021
Os sonhos roubados da juventude negra
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As mortes de Kathlen Romeu e da criança que ela esperava voltaram a escancarar a realidade de um país em que as balas ditas perdidas miram sobretudo uma cor e uma faixa etária, com taxa de homicídio que a OMS considera epidêmica. A explicação oficial de praxe (dano colateral do confronto entre policiais e criminosos) é recebida com crescente descrédito, como revelam desabafos ouvidos neste episódio. Neles se percebe também o desalento diante da impossibilidade de planejar o futuro –o que resulta, inclusive, em abdicar do sonho de ser mãe. “Devemos pensar na sociedade como num organismo. Quando uma parte dele ataca a si próprio, temos uma doença auto-imune”, afirma Clélia Prestes, doutora em psicologia social pela USP e integrante do Instituto Amma Psique e Negritude. “O racismo no Brasil é uma doença auto-imune. Porque é uma forma de ataque à maioria da população”. A entrevista, em que Clélia detalha os efeitos individuais e coletivos dessa violência, é complementada pela participação do educador Jota Marques, também conselheiro tutelar na cidade do Rio de Janeiro. Num cenário em que as autoridades se ausentam, quando não chancelam a supressão de direitos, ele defende a importância da organização comunitária “não apenas para resistir, mas para existir plenamente”.
Jun 14, 2021
Peru: a incerteza pós-eleitoral
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A ofensiva de Keiko Fujimori para contestar a virtual vitória de Pedro Castillo na disputa presidencial abre novo capítulo na turbulência política do país, que teve 5 governantes nos últimos 5 anos. Um gesto desesperado: assim a movimentação da candidata de direita é definida pelos dois convidados deste episódio - Janaína Figueiredo, repórter especial do jornal O Globo, e Raul Nunes, pesquisador do Núcleo de Estudos de Teoria Social e América Latina da UERJ. “É menos esperança de conseguir que de bagunçar o processo”, analisa Raul, lembrando que a filha do ex-ditador Alberto Fujimori já esteve presa e ainda responde processos por corrupção. Janaína contextualiza as crises que se misturam no Peru, onde a taxa de mortalidade por Covid-19 é a maior do mundo e a economia encolheu 11% no ano passado. E indica como Castillo, um sindicalista de esquerda ultraconservador em questões de costumes, tentará se estabilizar no cargo: “Acordos maiores. E isso implica alguma moderação. É o único caminho viável”.
Jun 11, 2021
O governo como sócio da inflação
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A alta de preços que corrói o poder de compra dos brasileiros -e que registrou em maio sua maior taxa para o mês em 25 anos- tem um efeito colateral que a equipe do ministro Paulo Guedes discretamente comemora: a redução da dívida pública como proporção do PIB. Depois de longo período em escalada explosiva, ela caiu de quase 90% no final do ano passado para 86,7% agora. O economista Alexandre Schwartsman reconhece o alívio, mas alerta: “Não é um processo sustentável. Queremos controlar a dívida para não ter inflação, não o contrário”. Em conversa com Renata Lo Prete, o ex-diretor de Assuntos Internacionais do Banco Central parte desse subproduto do quadro inflacionário para analisar outros elementos da conjuntura, como o crescimento de 1,2% no primeiro trimestre. Sem deixar de anotar o aspecto positivo desse resultado, ele pondera: “PIB dá manchete, mas o que vale é a percepção das pessoas na vida”. E essa ainda está longe de melhorar para a maioria, também por causa do desemprego elevado e persistente. Schwartsman comenta ainda o debate do momento, que busca avaliar a sustentabilidade e o alcance dos ganhos do novo ciclo virtuoso das commodities.
Jun 10, 2021
Manaus: a soma de todas as crises
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A capital do Amazonas se tornou símbolo da tragédia brasileira na pandemia. Recentemente passou a amargar também os efeitos da maior cheia da história do rio Negro. E, desde o final de semana passado, enfrenta uma onda de ataques promovidos por criminosos, em resposta à morte de um traficante pela polícia. “A população está com medo", relata a Renata Lo Prete o repórter da TV Amazônica Alexandre Hisayasu. Ele se refere a Manaus e a pelos menos outras seis cidades do Estado que tiveram ônibus incendiados, prédios públicos atingidos e suspensão tanto de aulas quanto da vacinação contra a Covid-19. O outro entrevistado deste episódio é Roberto Magno, pesquisador do Laboratório de Geografia da Violência e do Crime da Universidade Estadual do Pará. É ele quem resgata a trajetória do crime organizado na região Norte do país. “À medida que a rota amazônica do tráfico de drogas foi ganhando importância estratégica, o poder público começou a se deparar com um problema de proporções transnacionais”, explica. E agora está fragilizado para enfrentá-lo, como demonstra o pequeno efetivo disponível para dar conta dos ataques dos últimos dias. Magno só vê um caminho, que combina “melhores políticas de segurança pública e inteligência” e investimento social.
Jun 09, 2021
CBF: o escândalo e a Copa América
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